E à noite, nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, tornava prudente: “Meninos, eu vi!” -I-Juca Pirama, Gonçalves Dias Já lá se vão quinze anos. Há vinte eu não tinha computador. Nem sabia “mexer” com ele: meus dedos eram virgens de teclado. Mas já era um profissional experiente na área de engenharia sanitária […]
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, tornava prudente: “Meninos, eu vi!” -I-Juca Pirama, Gonçalves Dias
Já lá se vão quinze anos.
Há vinte eu não tinha computador. Nem sabia “mexer” com ele: meus dedos eram virgens de teclado. Mas já era um profissional experiente na área de engenharia sanitária e não me custou descobrir que sem um bicho daqueles eu não poderia seguir sendo engenheiro por muito tempo. Comprei então meu primeiro micro, um modesto MSX, e me dediquei a decifrar seus mistérios.
Dediquei-me tanto, com tal afinco e tamanho ardor que há quase exatos quinze anos fui convidado pela Cora Rónai a escrever sobre o assunto no caderno Informática Etc. do Globo que ela passaria a editar. Temerário, aceitei.
E já lá se vão quinze anos.
Naqueles dias computadores pessoais ainda eram máquinas pesadas, misteriosas. Poucos se arriscavam a comprar um. Era coisa de cientista, técnico, engenheiro.
Hoje todo mundo tem computador, do neto que joga joguinhos à avó que troca mensagens no MSN e “fala no skype”. Computação não é mais ciência, é utilidade doméstica.
E nestes quinze anos segui sempre escrevendo sobre computadores. E não somente no Globo: assinei por alguns anos colunas em revistas (Ele&Ela; e Mulher de Hoje, da falecida Editora Bloch), participei de quadros na televisão (programas Informática, na extinta TV Manchete e, mais recentemente, PromoInfo TV na Record) e no Radio (programas CBN Informática e Hipermídia). E, neste último ano, estou aqui no Fórum PCs, que muito me honra. Além do Estado de Minas, onde assino a coluna Técnicas & Truques e artigos eventuais dos quais alguns são republicados no Correio Brasiliense. Além de já ter publicado dois livros e estar com o terceiro em fase final de edição. São, portanto, quinze anos de estrada na lida de escrever sobre informática,
Quinze anos podem passar devagar ou depressa. Estes passaram depressa como o diabo, talvez por escrever sobre um negócio de evolução tão rápida, talvez (e mais provavelmente) porque justamente neles entrei na dúbia categoria de “idoso” (não é bom ser idoso, mas a alternativa certamente é bem menos agradável).
Já lá se vão, então, quinze anos…
E neles, meninos, eu vi muita coisa.
Vi as feiras de informática acabarem, trucidadas pela Internet. Vi a poderosa COMDEX morrer de morte morrida. Vi as demais sumirem ou definharem e as que sobraram virarem feiras de eletro-eletrônicos.
Contristado pela perda de um velho amigo, vi o DOS morrer e ouvi gritarem “o DOS morreu, viva o Windows”.
Vi nascer o Linux e, com bons olhos, o vejo crescer para lutar o bom combate com o Vista que vem aí.
Vi, meninos, surgirem os telefones celulares, as agendas eletrônicas e as câmaras digitais. E vi tudo isso se fundir em um único objeto que, embora ninguém se dê conta, é um computador mais poderoso que aqueles que há trinta anos ocupavam salas inteiras e exigiam uma equipe para serem operados. Hoje são usados por crianças.
De tanto escrever sobre coisas que mal conhecia acabei aprendendo um pouco sobre elas e por isso me convidaram a ensiná-las. Hoje leciono em duas Universidades (fora uma terceira onde ensino engenharia, mas disso eu entendo) onde desfruto o prazer de transmitir conhecimento e conviver com gente jovem. E de vez em quando ganho o melhor presente que um Professor pode almejar: a sorridente saudação de um ex-aluno.
Mas, meninos, do que vi nesses quinze anos, nada se compara à Internet, que mudou tudo.
A começar pelos correios. Que, nos EUA, para tentar sobreviver, tira proveito da tecnologia e explora a vaidade alheia emitindo-e vendendo a bom preço-selos personalizados com o retrato do remetente (enquanto no Brasil compra políticos e, de vingança, maltrata os velhos concedendo-lhes o duvidoso privilégio de serem atendidos por uma caixa exclusiva cuja fila demora o dobro da dos jovens).
Mas não foi só isso que a Internet mudou. Mudou também meu trabalho. Os dois, o de engenheiro e o de escrevinhador. O engenheiro há duas semanas enviou à noite para o Chile a revisão de um relatório de projeto que lhe foi enviado de lá pela manhã, coisa que há alguns anos consumiria semanas. O escrevinhador raramente sai do computador para consultar um dicionário, uma enciclopédia, um manual. Já encaminhei para o arquivo morto (também conhecido como aterro sanitário) uma imensa pilha de manuais de placas-mãe, controladoras e periféricos. Guardar pra que, se estão ao alcance de dois cliques?
Sem falar na morte da falta de assunto: com a Internet, quem reclamar dela para escrever, melhor não escrever mesmo…
Pois é isso, já lá se foram quinze anos.
No Globo, já não estou mais. Mudou o caderno, ganhou novo nome e tomou novos rumos com nova equipe. À Cora, minha eterna gratidão pelo convite feito há quinze anos que me deu o privilégio de escrever no Informática Etc. ao longo de toda sua existência e meus votos de muito sucesso para o novo Info Etc. Que singre, triunfante, mares tranqüilos e prósperos.
Quanto a mim, continuo por aqui, no Fórum PCs, no Estado de Minas e, certamente, sempre no Sítio do Piropo. E quem sabe onde mais…
Foram bons esses quinze anos. Neles, fiquei rico.
Não de dinheiro, que o ofício de escrevinhador só traz dinheiro a poucos. Mas de amigos, a única riqueza que conta.
E, neste campo, garanto que nestes quinze anos poucos enriqueceram tanto quanto eu.
Que os próximos sejam igualmente pródigos.
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