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Interfaces

Há um par de semanas, na coluna Técnicas & Truques que assino nos jornais Estado de Minas e Correio Brasiliense, eu comentava que um colega, usuário experiente, professor universitário na área de informática, lamentava a dificuldade que encontrava diante da nova interface do Office 2007. Dizia ele que, quando necessitava acesso a uma ou outra […]

Publicado: 12/05/2026 às 21:41
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Interfaces
Construção civil — Foto: Reprodução

Há um par de semanas, na coluna Técnicas & Truques que assino nos jornais Estado de Minas e Correio Brasiliense, eu comentava que um colega, usuário experiente, professor universitário na área de informática, lamentava a dificuldade que encontrava diante da nova interface do Office 2007. Dizia ele que, quando necessitava acesso a uma ou outra função menos aparente na nova interface, sentia-se tentado a voltar à versão antiga, cujos segredos conhecia, para aplicar a função. E, confessava ele, algumas vezes o fazia: levava o arquivo para outro micro onde ainda tinha o velho Office 2003 e trabalhava por lá mesmo.

Argumentei que isso era natural. E que, provavelmente, os novos usuários do Office 2007, aqueles que jamais tiveram qualquer experiência com as versões anteriores, sentiam menos dificuldades que ele, velho e experimentado usuário do Word. Isto porque como a nova interface foi concebida desde as etapas iniciais tendo em mente o objetivo de se tornar mais intuitiva, os novatos teriam mais facilidade em “descobrir” o caminho para realizar seus objetivos em uma interface totalmente desconhecida, porém intuitiva, do que os velhos usuários habituados ao paradigma dos menus em cascata das versões anteriores que já conheciam um caminho que infelizmente não mais existia-portanto era natural que “se perdessem”. E segui argumentando que todas as velhas funções (e mais algumas) estão na nova interface, portanto trata-se apenas de descobrir onde elas se escondem. Para quem se interessar, a coluna-publicada em 10/04/2008 com o título “Inserindo autotexto no Word 2007”-permanece disponível na seção “Escritos” do Sítio do Piropo , tópico “Coluna Técnicas e Truques”.

Pois bem: no dia seguinte da publicação da coluna recebi do leitor Teo Vernier, que trabalha no CREA-MG, a seguinte mensagem:

Bem, o que me motivou a escrever este e-mail foi a descrição de uma situação tão comum a mim: o usuário não consegue utilizar a ferramenta que foi disponibilizada no computador .

Porem, no meu caso, o problema foi o inicio da adoção da suíte BrOffice (o OpenOffice traduzido) aqui no Conselho. Vários usuários reclamam que não conseguem achar funções triviais como ‘Inserir Figura’ ou mesmo o Autotexto descrito na sua coluna .

Agora, lendo seu artigo, fico mais certo em um pensamento que tive com essa situação: as ferramentas gratuitas são mesmo mais complicadas para o usuário utilizar ou ele está tão ‘viciado’ em outras ferramentas (como o MS Office) que qualquer mudança na ordem de menus ou mesmo na reformulação da aplicação (como no caso do Office 2007) torna seu uso impossível ?

Eu estou mais inclinado a aceitar que as pessoas não gostam de mudanças e com isso não aceitam as diferenças entre os programas e põem empecilhos para o seu uso, não importando a qualidade e facilidade trazida com a mudança .

Sou favorável a um maior uso do software livre, principalmente em órgãos públicos, e acredito que o maior problema com eles não seja qualidade nem dificuldade de uso, mas sim a simples ‘manha’ do usuário em aceitar mudanças, mesmo as mais simples, na sua forma de interagir com o computador “.

Em resumo: Teo acredita que o problema não está na interface, mas na mudança. Diz ele, e com razão, que “as pessoas não gostam de mudanças” e por isso reclamam quando são obrigadas a abandonar os programas que conhecem e trocá-los por outros, cheios de novidades. E estas reclamações pouco têm a ver com o fato de a nova interface ser melhor ou pior que a antiga. Têm a ver apenas com o fato de ser diferente daquela com a qual estão acostumados a trabalhar.

Não resta a menor dúvida que o ponto de vista do Teo faz sentido.

Realmente as pessoas não gostam de mudar daquilo que conhecem para algo novo e ignoto. E gostam ainda menos quando esta mudança é obrigatória, imposta pela empresa na qual trabalham por razões corporativas. Particularmente se a eficácia de seu trabalho depende da proficiência no uso da nova ferramenta e não lhes é dado o tempo suficiente para aprender a usá-la.

Razões para esta rejeição não faltam. Mas algumas se destacam claramente: a preguiça de aprender algo novo, o medo de não consegui-lo e o receio de que isto venha a prejudicar seu desempenho profissional. Portanto, não há dúvida que a argumentação do Teo tem peso. Certamente, para quem se habituou a usar um aplicativo, seja qual for, qualquer mudança é dolorosa. E acabam pondo a culpa das dificuldades no novo aplicativo.

É claro que o Teo tem razão. E certamente muitas das queixas sobre facilidade de uso provindas de usuários forçados a migrar para aplicativos do tipo software livre têm mais a ver com o fato da mudança ter sido obrigatória do que com a nova interface. Mesmo porque os que mudam por vontade própria não reclamam (ou hão de reclamar menos, já que nada é perfeito).

Portanto, quando se fala de dificuldades de uso de uma determinada interface, há que distinguir entre o usuário que reclama da interface e aquele que, ao reclamar da interface, está na verdade reclamando da mudança.

Foi então que me lembrei dos especialistas no desenvolvimento de interface.

E da interface do Moodle.

Então vamos por partes.

Houve tempo, nos albores da informática pessoal, que programas eram feitos por programadores. Para ser exato, por um único programador. O cara concebia o programa, digitava o código fonte, compilava, testava, verificava onde ocorriam as falhas (sempre ocorriam, acredite), eliminava-as uma a uma e assim prosseguia, iterativamente, até que considerasse que o programa estava pronto. Então punha sua criação à disposição da comunidade de micreiros e seguia adiante.

Então apareceu um sujeito que achou que aquilo bem que poderia render um dinheirinho. Era um programador apenas razoável, mas um excelente homem de negócios. Então, juntou-se a um excelente programador e apenas razoável homem de negócios, abriram uma empresa e passaram a desenvolver um programa para fazer programas, o BASIC, para os micros de oito bits que havia na época.

A diferença é que ele não punha seus programas à disposição da comunidade, ele os vendia.

Se você conhece alguma coisa sobre a história da informática já identificou a empresa e os personagens: Microsoft, Paul Allen e Bill Gates, sendo que o último foi a primeira pessoa a pensar que software não se dava, se vendia.

Eu sei que até hoje tem muita gente que discorda dele e esta discordância tem dado panos para manga, mas o fato é que, concordando ou não, Gates com ela não ganhou um dinheirinho: ganhou um dinheirão. E tornou-se o homem mais rico do mundo. Mas este não é o assunto da coluna.

O assunto é a indústria do software, que foi concebida por Gates e consolidada poucos anos mais tarde graças a uma nova união entre homem de negócios e programador genial. No caso o programador genial chama-se Dan Bricklin, o barbudinho que aparece na Figura 1 (o cara que aparece ao lado dele, infelizmente, não é o homem de negócios a quem ele se associou, é apenas um modesto admirador) e sua contribuição para a indústria do software foi inventar a planilha eletrônica, cujo objetivo inicial era apenas fornecer a ele, então aluno da Universidade da Califórnia em Berkeley, um instrumento para terminar mais depressa os desagradáveis e tediosos trabalhos envolvendo cálculos repetitivos que seus professores insistiam em obrigá-lo a fazer em casa (dando mais uma vez razão ao apotegma que afirma ser a preguiça a mãe do progresso humano).

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Pois bem: a partir daí a indústria do software tornou-se gigantesca, passou a render alguns bilhões de dólares por ano e, com sua evolução, mudou completamente a forma de desenvolver programas.

O velho programador solitário, que atravessava noites insone criando e testando código na base de muita cafeína e outras inas, tornou-se um mito e desapareceu. As empresas de software agora têm centenas ou milhares de empregados, dos quais a maioria dedica-se diuturnamente a vender os programas e convencer os usuários que os seus são melhores que os da concorrência e a minoria dedica-se ao desenvolvimento dos programas propriamente dito. E, ainda assim, são divididos em equipes.

Cada equipe faz sua parte. Tem gente que cuida do código. São os caras que fazem com que o programa faça aquilo que o usuário espera que ele faça (nem sempre com muito sucesso) e testam as rotinas básicas do código. Tem gente que cuida da segurança. São outros caras, sempre desconfiados, com mania de perseguição, que estão convencidos que “o mundo lá de fora” está infestado de indivíduos mal intencionados que, com o único objetivo de invadir computadores alheios e aporrinhar a vida dos outros, dedicam cada minuto de seu tempo a explorar as vulnerabilidades do código que seus colegas criaram tão laboriosamente (e o pior é que estão certos). Sua tarefa é descobrir estas vulnerabilidades antes que terceiros as descubram e envidar esforços para eliminá-las. Tarefa inglória, naturalmente, e nem sempre bem sucedida, como sabemos todos.

E tem gente-e é aí que entra nosso assunto-dedicada exclusivamente a desenvolver a interface. Esses sujeitos são muito especiais. Gente que, em princípio, não se esperaria encontrar em uma empresa de software: psicólogos, sociólogos, especialistas em ergonometria, o diabo.

E trabalham em “laboratórios de usabilidade”.

Já ouviu falar?

Há algum tempo eu mencionei o assunto aqui mesmo no Fórum PCs. Mas como ele voltou à baila, vale a pena acrescentar alguns pontos.

Um laboratório de usabilidade é uma espécie de “Big Brother”. Só que ao contrário. Em vez de juntarem um monte de gente em um ambiente fechado para você espiar, botam você, o “participante”, em um ambiente fechado para um monte de gente espiar. E não só espiar: anotar, gravar, registrar tudo o que você fizer. Fica uma coisa parecida com o que mostra a Figura 2 (lembrando que o local de trabalho do participante é cercado por paredes de vidro espelhadas internamente, que permitem que ele seja observado mas impedem que ele observe o exterior).

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O participante é um usuário de computador escolhido entre uma enorme equipe de voluntários que compreende desde principiantes até usuários muito experimentados, passando por diversas escalas intermediárias. O ambiente de trabalho é extremamente confortável, porém singelo. Para que o participante se sinta à vontade, tenta imitar tanto quanto possível um ambiente doméstico ou de um escritório. Veja um exemplo na Figura 3 e note a parede espelhada ao fundo. Atrás dela estão os observadores.

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A coisa funciona assim: quando um aplicativo está próximo de sua fase final de desenvolvimento, com a interface já bastante adiantada, convida-se um grupo de participantes (mediante uma pequena remuneração, que ninguém é de ferro) para submeter-se a testes de usabilidade. O programa é carregado no computador a ser usado pelo participante e a ele é solicitado que cumpra uma determinada função. Que pode ser qualquer coisa: imprimir um documento, editá-lo, inserir nele uma figura ou seja lá o que passar na mente perversa dos observadores. Nenhuma explicação adicional é fornecida. Nenhuma pista. Nada. Tudo o que o participante tem é o computador, seus periféricos e o programa. E, pior de tudo: pedem a ele que “pense em voz alta”, ou seja, que exprima em palavras todas as dúvidas, anseios e raciocínios que desenvolver em seu afã de descobrir o caminho para coroar de êxito sua tarefa.

Ele nada pode esconder. O conteúdo de seu monitor é replicado frente aos observadores. Seus gestos são filmados e registrados minuciosamente por pelo menos duas câmaras. Cada palavra sua é gravada. O cara é uma cobaia viva.

Se você pensa que estou exagerando, engana-se. Eu mesmo vi isto acontecer nos laboratórios de usabilidade da IBM em Boca Ratón, na Flórida, EUA (uma curiosidade: o laboratório situa-se exatamente no mesmo prédio onde, há vinte e sete anos, foi concebido o primeiro PC da IBM). É exatamente assim como estou descrevendo.

Naturalmente não há um único participante. Cada tarefa, por simples que seja, é solicitada a dezenas deles, com diferentes níveis de familiaridade com a máquina. Quando muitos participantes, de diferentes graus de conhecimento, demonstram uma dificuldade maior que a esperada para executar uma dada tarefa, por mais que a interface pareça clara e evidente aos programadores, ela é modificada até que pareça clara e evidente aos usuários, que são quem interessa. E chamam outros participantes para testar as modificações.

Isto é repetido vezes sem conta até que os observadores se dêem por satisfeitos. E eles só se darão por satisfeitos quando a maioria dos participantes “adivinharem” (o termo correto seria “intuírem”) como desempenhar a tarefa com o mínimo de esforço e em um tempo aceitável.

Então, e somente então, a interface é dada por pronta e acabada e o aplicativo é distribuído para o mercado.

Acreditem: funciona.

E o Moodle?

Bem, o Moodle é um CSM (” Course Management System “, ou sistema de gerenciamento de cursos). Se desejar conhecê-lo melhor visite o sítio Moodle . Trata-se de um pacote de software gratuito, de código aberto, concebido com base em sólidos princípios pedagógicos cujo objetivo é auxiliar os educadores a criar comunidades eficazes de aprendizado ” online “. Ele pode ser usado gratuitamente desde o sítio de um único professor até uma universidade com um máximo de duzentos mil alunos (tudo isto foi obtido de uma tradução livre de um dos parágrafos da página de abertura do sítio do programa).

O Moodle é adotado como sistema de gerenciamento de cursos em um dos cursos de nível superior em que leciono, portanto eu estou me familiarizando com ele. Descobri que em matéria de, digamos, eficácia, o Moodle é um excelente programa. Com ele pode-se fazer tudo o que diz respeito ao gerenciamento de um curso, desde o simples controle de presença, fornecimento de material didático, edição, aplicação e correção de provas e trabalhos, até o estabelecimento de “salas de bate-papo” para ensino a distância, prestação de ajuda aos alunos, o diabo. O que você imaginar que um professor ou um aluno possa precisar em termos de apoio ao curso está lá. O programa é um bicho. Em termos de eficácia, dez. Nota dez!

E usabilidade? Que tal sua interface?

Bem, o mínimo que posso dizer é que o desgraçado jamais passou a menos de dez quilômetros de um laboratório de usabilidade.

E está me levando à beira da loucura…

Portanto, meu amigo Teo, eu sei que muitas vezes as reclamações dos usuários que são forçados a usar novas interfaces são realmente devidas ao medo do desconhecido e preguiça de aprender coisas novas.

Mas não é a toa que existem os especialistas em interface e as grandes empresas gastam uma fortuna com seus laboratórios de usabilidade. Porque, meu caro, se tem um negócio complicado de usar, é uma interface desenvolvida por um programador…

Coluna anterior: Pequenos provedores Próxima coluna: Vista SP1 instalado. E nada mudou…

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