Os que leem regularmente estas colunas sabem que vez ou outra, em vez de escrever sobre tecnologia, escrevo sobre pessoas a ela ligadas de uma ou outra forma. Assim foi, por exemplo, a longa série de colunas sobre o gênio incompreendido de Nicola Tesla, a coluna sobre Grace Hopper, uma das poucas mulheres a se […]
Os que leem regularmente estas colunas sabem que vez ou outra, em vez de escrever sobre tecnologia, escrevo sobre pessoas a ela ligadas de uma ou outra forma. Assim foi, por exemplo, a longa série de colunas sobre o gênio incompreendido de Nicola Tesla, a coluna sobre Grace Hopper, uma das poucas mulheres a se destacarem no campo da informática, a série sobre a extraordinária personalidade de Charles Babbage, as colunas sobre Fibonacci e sua série (de números, não de colunas…) e muitas outras.

Faço isto porque a tecnologia que conhecemos é o produto da mente humana. Mais especificamente, o produto da mente de alguns, muito poucos, raríssimos exemplares daquilo que se poderia classificar na categoria dos “gênios” e sobre as quais vale a pena saber um pouco. Gente como DaVinci, Newton, Arquimedes, Euclides e um (pequeno) punhado de outros, dotados de um cérebro privilegiado capaz de conceber coisas que nós, os meros mortais, precisamos fazer esforço para compreender em suas verdadeiras proporções.
São pessoas especiais.
A coluna de hoje é sobre uma destas pessoas especiais. Mas, diferentemente das demais sobre as quais escrevi e a despeito de seu doutorado em Química, nada inventou, não estabeleceu qualquer teoria, não deitou as bases de qualquer ciência. E nem por isto merece menos nossa admiração e respeito ou deixa de figurar na lista daquelas poucas pessoas que podem ser consideradas geniais. Pois sua genialidade consistia na força de sua imaginação, em sua capacidade de conceber o futuro e descrevê-lo de forma tão fluente, interessante e absorvente que fez dele um dos autores mais fecundos da história da humanidade.
Esta coluna é sobre Isaac Asimov (veja sua foto na figura, obtida na Wikipedia como as demais desta coluna). Na verdade, como vocês logo verão, é mais que isto. É quase que uma coluna “de Isaac Asimov”.
Explico.
Wagner Ribeiro é um brilhante e talentoso desenvolvedor de sítios da Internet. É dele a concepção do Sítio do Piropo (já velha de mais de dez anos e que, por isto mesmo, está sendo reformulada pelo próprio Wagner e breve será alterada). Além disso, é um fanático admirador de Asimov. E também é (no que me diz respeito, sobretudo) um bom amigo. Que, sabendo que com ele compartilho a admiração por Asimov, dia desses me enviou o atalho (“link“) para um vídeo contendo trecho de entrevista no programa “World of Ideas”, exibido nas redes americanas WNET e WTTV nos idos de 1988, onde Asimov discute com Bill Moyers, o entrevistador, alguns temas que, segundo Wagner, poderiam me interessar.
E, de fato, interessaram. E interessaram tanto que me dei ao trabalho de procurar o remanescente da entrevista. Encontrei três partes, que estão disponíveis no You Tube, conforme informou o próprio Asimov (se você acha estranho que Asimov tenha informado que sua entrevista poderia ser encontrada no You Tube em uma época em que o You Tube sequer existia, a própria Internet estava no nascedouro e a Web ainda não tinha sido estabelecida, leia a entrevista que transcrevo adiante e verá que não estou mentindo, apenas interpretando). E se você quiser se deliciar vendo e ouvindo um gênio exprimir suas ideias, basta consultar as Primeira Parte, Segunda Parte e Terceira Parte da referida entrevista.
Se o fizer, tenha em mente que foi concedida em 1988, quando Asimov tinha acabado de lançar seu 381º livro, “As far as the human eye could see” (ao morrer, quatro anos mais tarde aos 72 anos, Asimov havia publicado 463 títulos catalogados, sem contar artigos e outros escritos que elevam o número de publicações a um total muito superior a meio milhar). Então, é imprescindível contextualizar a entrevista na época em que foi concedida, pois é exatamente isto que a torna extraordinária.
Para os que não viveram aquela época: computadores pessoais existiam, sim (o IBM PC havia sido lançado sete anos antes), mas eram raros. A imensa maioria deles não eram conectados e dificilmente se encontrava um em uma residência. A Internet já existia, mas pouco mais era que um meio de troca de informações ? basicamente, arquivos ? entre meios acadêmicos.
O que me impressionou na entrevista foram basicamente dois pontos. Um deles, a opinião de Asimov sobre o processo de aprendizado, principalmente quando examinado de um ponto de vista que o desconecta da estrutura oficial de educação e ensino. Como vocês verão, ele encara o aprendizado como algo essencialmente lúdico, prazeroso, agradável. E ninguém poderia concordar mais com isto que este velho escrevinhador que não consegue dormir bem depois de um dia em que não aprendeu alguma coisa nova.
O segundo ponto é a extraordinária capacidade de, em uma época em que os computadores eram meras carroças se comparados às máquinas modernas (os primeiros micros equipados com o 80386 da Intel estravam no mercado), antever um mundo em que os computadores, conectados, serviriam como fonte de informação e aprendizado praticamente universal. A impressão que se tem é que a entrevista está sendo dada em um mundo onde a Internet funciona exatamente como a que desfrutamos hoje, com fornecedores de informações como Google e YouTube em plena atividade, arquivos na “nuvem”, redes sociais, o diabo. Parece que o homem estava chegando de uma visita aos nossos tempos.
Achei as posições e opiniões de Isaac Asimov tão extraordinárias no contexto em que foram emitidas e suas previsões, até agora, tão assustadoramente exatas, que achei por bem compartilhá-las com vocês. Poderia fazê-lo simplesmente fornecendo os atalhos como fiz acima. Mas, infelizmente, os vídeos são apenas em inglês (há um exemplar com um trecho da entrevista com legendas em espanhol que, quem se interessar, pode encontrar aqui).
Por isto me dei ao trabalho (melhor: ao prazer) de transcrever, o mais fielmente possível, o conteúdo da entrevista e pô-lo aqui à disposição de vocês.
Cogitei entremear o texto com alguns comentários. Depois, pensei melhor e desisti. Afinal, quem sou eu para dar pitacos em uma entrevista de um gênio deste quilate.
Assim, aqui vai para vosso deleite a tradução mais fiel que consegui fazer da entrevista. Bom proveito.
PS: A terceira parte da entrevista não foi incluída porque ela pouco tem a ver com tecnologia. Mas apresenta uma visão tão extraordinária sobre a questão do misticismo, exposta com uma lógica e clareza tão vivas, que merece toda atenção e ponderação.