Vou me valer da imensa liberdade que tenho em relação aos temas a abordar aqui no ForumPCs para discutir um assunto que passa perto de tecnologia mas não está diretamente ligado. Provavelmente um bom banho tecnológico ajudaria muito a diminuir as agruras que experimentei, mas sem o fator humano ajudando não há tecnologia que resolva. […]
Vou me valer da imensa liberdade que tenho em relação aos temas a abordar aqui no ForumPCs para discutir um assunto que passa perto de tecnologia mas não está diretamente ligado. Provavelmente um bom banho tecnológico ajudaria muito a diminuir as agruras que experimentei, mas sem o fator humano ajudando não há tecnologia que resolva. Em tempos de “apagão aéreo” preciso começar esta história explicando que tudo que relatarei ocorreu antes da última crise, em dias que o céu da aviação brasileira estava azul de brigadeiro!
Por motivos profissionais principalmente eu viajo para o exterior há muitos anos. Não tanto assim, mas o suficiente para ter experimentado nos últimos 15 anos pelo menos cenários bem diferentes. Essa história começa em meados de março passado. Voaria pela empresa United Airlines para Chicago. Previdente que sou cheguei ao aeroporto 2h50min antes do horário do vôo, pois queria fazer tudo com calma e ter tempo livre no aeroporto. Qual não foi o meu susto ao encontrar uma fila imeeeeeeeeeeensa para fazer o “check-in”.Parecia fila de banco. A empresa tem cerca de 10 posições de atendimento em Cumbica (SP) e havia 3 ou 4 pessoas somente atendendo. Nesta fila, até ser atendido gastei 1h:30min, de pé, arrastando mala. Um típico exemplo de falta de respeito com o cliente. Vale destacar que isso não é característica da United. Todas as empresas trabalham assim, como fila única de banco, com poucos “caixas” atendendo.
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imagem obtida em
www.aerospaceweb.org/question/planes/q0286a.shtml
Feito o “check-in” fui orientado a embarcar. Ainda faltavam 1h:20min, achei exagero mas fui procurar o portão de embarque. Havia uma fila “espaguete”, com 6 voltas saindo fora do portão de embarque. Não era fila do raio-X de segurança e sim a fila para passar pela Polícia Federal, que estava em operação padrão, ou melhor, operação tartaruga, trazendo este imenso transtorno para os usuários. Que eles queiram reivindicar melhores salários eu concordo, mas sendo um serviço público, castigar o usuário é cruel demais, justo quem não tem alçada para negociar os salários deles. Ali gastei mais 50 minutos. Mas qual não foi o meu susto, ao chegar na “boca” da fila, uma “autoridade” me disse que eu não poderia passar adiante pela Polícia Federal, pois faltava um “adesivo” no cartão de embarque. EU ESPUMEI DE RAIVA!! Teria que sair da fila e pegar de novo a fila da United e de novo a fila do portão de embarque!! Ele me aliviou dizendo que poderia furar as duas filas. Mas foi um susto. Eu não percebi que a United tem na saída do check-in um balcão com um fulano que só faz colar o tal adesivo no cartão de embarque!! Quando vôo pela American Airlines o cartão já vem com o tal adesivo. Isso me lembra uma vez, há muitos anos, quando estive na sede de Petrobrás no Rio de Janeiro (av. Chile), que encontrei um garboso funcionário, com uma mesa no meio de um corredor (até atrapalhava um pouco a passagem), cuja função era receber pilhas de papel de um lado, carimbar “INCINERAR” e empilhar do outro lado!! Útil né? Igual o rapaz da United que cola o selinho no cartão de embarque.
Passada esta fase da epopéia, cheguei de fato ao balcão de embarque apena 20 minutos antes da partida do avião. Ou seja, foram 2h30min de “puro stress”. Achei que tinha acabado. Ledo engano. Como de hábito ao ingressar na “sanfona” que dá acesso ao avião, há uma pessoa que confere passaporte, cartão de embarque, visto, pergunta sobre a bagagem de mão etc. Passada esta etapa fui convocado para uma revisão “pente-fino” em minha bagagem de mão. Abro toda a mochila, eles tiram notebook, livros, anotações, objetos de uso pessoal, etc. Após alguns minutos sou liberado. Continuo meu caminhar pela “sanfona” e sou convocado DE NOVO para outra revista de minha bagagem de mão. Falei para pessoa que já tivera a bagagem revistada. Não adiantou, ele disse que algumas pessoas são revistadas mais de uma vez. E tudo acontece de novo! Eu me pergunto, será que tenho cara de pessoa suspeita ou mal intencionada?? Finalmente entrei no avião, procurei o meu lugar e em 5 minutos o mesmo fechou a porta e decolou. UFA!!
Essa narrativa poderia se estender de forma detalhada por muito mais tempo. Resumidamente conto que ao chegar nos EUA, há o stress da emigração, a mini-entrevista com o oficial, o busca pelas bagagens, a reentrada na área de segurança para pegar a conexão, a nova e rigorosa revista no raio-X, etc. Falando nisso eu SEMPRE sou pego no pente fino do raio-X americano. Além de ter que ficar quase nu (tira sapato, tira cinto, tira notebook da mochila), às vezes sou submetido à revista manual (um incômodo guarda que apalpa você inteiro), revista com um detector de metais portátil e mesmo um recente aparelho que você entra dentro e jatos de ar saem de todos os lados, assoprando você em lugares que você nem imagina, procurando extrair partículas de seu corpo ou roupas, buscando por drogas, armas, ou coisas parecidas.
Essa viagem em particular teve um desenrolar complicado. Na volta por causa de mal tempo o vôo para Chicago foi cancelado (não é só aqui que acontece!!), tive que mudar de destino. Remanejaram o meu vôo para Atlanta por outra empresa, pela Delta Airlines. As bagagens se perderam (foram para na esteira errada). Uma das pessoas que viajava comigo teve a sua mala arrombada (fechadura de combinação destruída para a revista). Outra pessoa teve a roda de sua mala arrancada da mala. Uma beleza. Não cheguei a tempo em Atlanta e tive que voltar só no dia seguinte. Um dia perdido. Mas isso pode mesmo acontecer, é uma fatalidade.
Queria concluir esta narrativa descrevendo algo que venho percebendo nos últimos tempos. É o que vou chamar de “a armadilha do free-shop”. O Brasil é o único país do mundo que tem free-shop na CHEGADA também! Um free-shop na saída de um país se justifica pelo fato de você poder deixar o país realizando mais compras, isentas de impostos. No Brasil isso foi desvirtuado. A função do free-shop é “recolher” os dólares que os ricos viajantes (!!??!!) trazem no final de suas viagens. Isso hoje em dia nem se aplica mais, pois a compra pode ser paga em reais (pela conversão dos preços em dólares da loja).Fora estes comentários, qual a armadilha? Hoje em dia as lojas do free-shop são “franquias” provavelmente disputadas a peso de outro pela extrema lucratividade.
Eu habitualmente comprava uma caixa de chocolates (que gosto muito). Esta custava US$ 24,99. Com o passar do tempo subiu para US$ 29,99 e agora US$ 34,99. São chocolates suíços, e olha que na Suíça os preços são estáveis como rocha. Só posso deduzir que o aumento do preço é para manter a margem de lucro em valores absolutos em R$, pois como o dólar abaixou bastante nos últimos tempos, a cada caixa de chocolate vendida, a quantidade de R$ recebidos ficou menor (embora percentualmente o lucro seja o mesmo, pois eles também compram mais barato em R$). Há bons produtos por bons preços no free-shop, é verdade, mas há também armadilhas formidáveis. Máquinas fotográficas digitais são vendidas por um preço parecido com os do Brasil. Um viajante incauto que deixa para fazer esta compra na chegada ao país vai levar ferro com a compra. Outro exemplo, eu vi um CD Player para carro, igualzinho a um que vi nos EUA. Lá fora ele era vendido a US$ 99 e no free-shop a US$ 299. No Brasil um desses pode ser comprado na AMERICANAS.COM por R$ 500. Gozado né? Bebidas alcoólicas são mais baratas, mas muito pouco, no máximo 10% a 20%.Claro que a loja não está lá para trazer pechinhas aos viajantes e muito menos para não ter lucro, tem que ter lucro. Mas o espírito original que era recolher dólares dos viajantes em troca de boas ofertas se foi há muito tempo. Sobrou o lado da exploração da boa fé dos “passageiros”.
Concluindo esta história-desabafo, sinto que não existe mais o “glamour” de se viajar para o exterior. Antes era tudo mais simples, mais fácil. Não havia essa sucessão de estresses. Era algo “natural” e que era desfrutado, cada momento, tudo era motivo de doces recordações. Hoje em dia começa com um mau trato e falta de respeito com os viajantes, que enfrentam filas gigantes, inúteis e desnecessárias e terminam com uma exploração sutil, mas muito eficaz na loja do free-shop. Quiçá um dia estes tempos de viagens românticas e desestressadas voltem a popular as recordações das pessoas.
PS : por conta da mudança da empresa aérea, United por Delta, ainda perdi as milhas que ganharia no programa de fidelidade da United. Mais uma “ferrada”!
PS2: e sem querer acabei contando mais um “causo”, esse foi sem querer mesmo:D