Não sei se a maioria dos nossos leitores ainda se lembra de um livro que lancei em 2003 chamado “Overclock Seguro”. Nesse livro eu ensinava as técnicas ainda obscuras para fazer um bom overclock dentro das margens de segurança dos componentes, e mais importante, encontrar formas de atribuir essas margens de segurança corretamente. Foi uma […]
Não sei se a maioria dos nossos leitores ainda se lembra de um livro que lancei em 2003 chamado “Overclock Seguro”. Nesse livro eu ensinava as técnicas ainda obscuras para fazer um bom overclock dentro das margens de segurança dos componentes, e mais importante, encontrar formas de atribuir essas margens de segurança corretamente. Foi uma época romântica, onde um bom praticante escolhia os componentes pelo serial number, data de fabricação, códigos de chips de memória, e ainda lapidava coolers até obter um espelhamento perfeito combinando as mais exóticas pastas térmicas para lidar com o aumento de temperatura dos componentes. Lembrando sinto saudades, mas só…
Nos anos seguintes a prática do overclock se transformou em uma grande indústria. Gabinetes (que antes eram bege e simples) passaram a ser componentes importantes para agrupar todos os “caros” componentes, bem como as gigantescas placas de vídeo e os imensos coolers, sem contar com a ventilação adequada do gabinete para que tudo isso permanecesse em temperaturas suportáveis. Placas mãe passaram a serem testadas pelos mais diversos sites SEMPRE avaliando seu potencial de overclock como fator de decisão de compra, processadores especiais para overclock (Black Edition ou Extreme Edition) foram lançados, memórias especiais para overclock, coolers e watercoolers comerciais e especiais para overclock, e muito mais… hoje um praticante de overclock COMPRA seu resultado, e paga caro por isso. O romantismo acabou faz tempo.
Ok, há os campeonatos, os shows de overclock usando técnicas completamente inadequadas para o uso diário (gelo seco, nitrogênio liquido, etc) para delírios dos fãs e das marcas de produtos desenhados para overclock. Mas o overclock para uso diário, como o que eu defendia no meu livro, deixou de ser fruto de pesquisa e arte para ser literalmente um produto comercial. A questão é, precisamos realmente disso? Qual é o preço desse “algo mais”, incluindo a conta de luz?
Quando olhamos a curva de necessidades de poder de processamento de um usuário médio, vemos claramente que nos últimos 2 ou 3 anos houve uma estagnação. CPUs mais rápidas não necessariamente tornam os sistemas mais rápidos para uso diário. As GPUs de uso geral chegaram propondo otimização em algumas tarefas com ganhos significativos, mas ainda é uma realidade distante para a maioria dos usos. Estou pesquisando esses “benefícios” há algum tempo e infelizmente ainda não encontrei algo que mudasse o paradigma do uso de CPU vs GPU no mundo real dos usuários normais. A falta (ou demora) no desenvolvimento de softwares adequados ainda é um grande problema para essas plataformas.
Tive um QuadCore em overclock logo que apareceu (um Q6600), e me decepcionei por perceber que os sistemas operacionais e os aplicativos da época não tiraram proveito desse multiprocessamento no desktop. Na minha maquina seguinte fiz um downgrade para um Dual Core também em overclock e o resultado me pareceu igual ao QuadCore, só que com a metade do consumo e do custo do processador. Recentemente migrei do XP32 bits para o Windows 7 64bits e utilizo esse mesmo processador só que sem overclock (é um E8400), pois não faz a menor diferença na performance diária. Gastei o dinheiro economizado na CPU em mais memória e discos mais rápidos. Como não jogo, me desfiz de uma Radeon HD4850 em troca de uma HD4670 (80% da performance com apenas 1/3 do consumo) muito mais econômica em termos de consumo elétrico e mais uma vez não senti a menor diferença. O pouco que é acelerado por GPU ATI hoje em dia continua tendo boa performance na HD4670. O fato é que, com esses pequenos ajustes o consumo do meu PC caiu cerca de 100W nos últimos 18 meses, mantendo a mesma placa mãe e outros componentes, e sinceramente acho que o PC ficou mais rápido (viva o Windows 7 64Bits, os 8GB de RAM e os discos de última geração), mais silencioso já que funciona com temperaturas menores e conseqüentemente bem mais econômico.
Essa semana eu e Ziebert discutimos muito sobre o SSD. Ele diz sem pestanejar que prefere uma maquina simples, com CPU e GPU simples (onboard até) desde que tenha um SSD de pelo menos 128GB. Eu já acho que pelo valor atual do SSD dá pra se comprar discos também rápidos com pelo menos 4 vezes sua capacidade, e que um Windows 7 bem configurado e ligado há algum tempo (ou seja, com a maioria dos arquivos de uso regular armazenados em cache de memória) a diferença do SSD praticamente desaparece. Ele não concorda, e é possível que esteja certo porque eu ainda não tenho uma experiência diária com SSD para apurar essa opinião. O fato é que não discutimos CPU quando falamos de performance, discutimos outros componentes que em 2003, época do meu livro, nem imaginávamos como seriam importantes.
Vejam que coisa curiosa. Meu primeiro Pentium 4 HT (já faz tempo…) rodava em 3GHz em overclock, não me lembro da seqüência exata de processadores que tive após esse, mas todos foram de 3GHz até 3.6GHz (meu ultimo E8400 em overclock). Hoje uso esse mesmo C2D E8400 nos 3GHz originais e estou planejando uma migração para o i5 de 2.66 GHz. Será a primeira vez desde meu Pentium 4 HT que terei um desktop com menos de 3GHz e pelos testes que fiz, será um dos mais rápidos e eficientes. Uma simples mudança de plataforma, mais do que a freqüência do processador, está proporcionando ganhos significativos no uso diário. Ahh, já ia me esquecendo: não gasto mais com coolers exóticos porque os cooler box atualmente me servem muito. São eficientes, silenciosos e “de graça”. Memórias qualquer uma serve, desde que sejam confiáveis (boa marca), e no Windows 7 64bits acho que o salto de 4GB para 8GB compensa o investimento. É um exercício saudável de alocar dinheiro aonde realmente é necessário.
O dinheiro que eu “não gasto mais” fazendo overclock estou gastando em outros componentes. Comprei um NAS recentemente e fiquei encantado, WDTV já tenho dois e pretendo fazer um upgrade para a próxima versão (com suporte a rede e NAS, evidentemente) assim que eu encontrar o produto a venda. Investi em um novo roteador padrão N com portas de 1000Mbps, comprei um monitor 24 polegadas com painel S-PVA e vários discos portáteis do tipo My Passport, para usar como backup. Meu notebook ainda é da primeira versão do Core Duo e com a troca do HD para um modelo de 7200rpm ganhou vida nova, acho que ainda vou ficar com ele por pelo menos um ano. Na minha lista de compras futuras entrou um switch de 1000Mbps com pelo menos 8 portas (as 4 portas do roteador não são mais suficientes) porque pretendo ter mais de um NAS na rede, além dos novos WDTV.
O fato é que, se eu quisesse hoje montar uma máquina para operar em overclock seguro, para uso diário, usando os melhores componentes do mercado, minhas estimativas apontam para um custo adicional de 600 dólares (supondo preços do mercado americano) alto demais no meu entender para uma performance extra desnecessária. Claro, cada um tem suas próprias necessidades, e eu me vejo no momento atual muito mais próximo de um usuário comum do que um “entusiasta”. Na verdade tenho me entusiasmado mais com alguns softwares (vários, um dia escrevo sobre eles, prometo) do que com o poder da CPU em si. Percebo claramente hoje que meus maiores ganhos de produtividade estão no uso de softwares adequados, em uma rede local bem feita com os devidos NAS e WDTV cumprindo sua função de backup e entretenimento, com WiFi seguro alcançando todos os pontos da minha casa, e assim por diante. CPU deixou de ser meu foco há muito tempo…
Aliás, tenho estudado e testado vários modelos de virtualização em servidores locais, usando os recursos de “Remote Desktop” com muito sucesso, e acredito que em um breve futuro estarei adotando um modelo de desktop virtualizado aqui, simplificando a manutenção e a atualização das máquinas que temos. Uma mudança de conceito bastante radical, mas que tende a aumentar a produtividade e reduzir os custos mesmo em instalações pequenas.
Enfim, começamos essa coluna falando de overclock. Será que estamos próximos de um declínio mercadológico nesse segmento? Com a venda de desktops cada vez menor comparada aos notebooks, e esses cada vez mais potentes e econômicos, somados aos diversos dispositivos computadorizados que passaram a fazer parte do nosso acervo de informática (meu NAS roda Linux em ARM, e já instalei um monte de aplicativos muito legais nele…), será que o overclock ainda faz sentido? Quanto você pretende gastar em componentes “especiais para overclock” no seu próximo PC?