AMD ou Intel? Imagino que essa coluna talvez venha a ser a recordista de leituras por causa do título, um dos mais polêmicos temas em todos os fóruns de discussão que eu conheço. E o objetivo dessa coluna não é defender uma ou outra marca, e sim mostrar alguns fatos interessantes que vislumbram as tendências […]
AMD ou Intel?
Imagino que essa coluna talvez venha a ser a recordista de leituras por causa do título, um dos mais polêmicos temas em todos os fóruns de discussão que eu conheço. E o objetivo dessa coluna não é defender uma ou outra marca, e sim mostrar alguns fatos interessantes que vislumbram as tendências futuras para os bons analistas de mercado, e isso inclui os analistas de “stock market”, ou seja, das bolsas de valores.

Acima temos o gráfico das ações da Intel na bolsa americana nos últimos 2 anos, e abaixo o da AMD para o mesmo período. A escala azul na parte de baixo do gráfico mede o volume, em milhões de dólares, que foram negociados nas respectivas datas.

Há hoje uma vertente no meio publicitário que afirma que os “marqueteiros” são todos uns mentirosos, e que a “verdade” está na percepção dos consumidores, que na maioria das vezes passa longe da realidade. Alguns segmentos de mercado já atuam fortemente nessa linha há algum tempo, como as linhas de produtos para Pet Shops (lojas para animais de estimação) que estimulam o dono do animal a gastar com produtos que ele deseja, e não o cão, ou qualquer outro animal que seja o usuário de fato.

Outro exemplo muito forte é o mercado de produtos para crianças ou bebês inteligentes. Quem compra (e muito) são os pais, que desejam que seus filhos sejam inteligentes e espertos no futuro, independente das crianças serem verdadeiras bestas (ou não, nunca se sabe…). É um mundo de fantasia, totalmente desprovido de fatos reais cientificamente comprovados (publicitário adora esse termo), mas que estimulam as compras irracionais em vários segmentos.
O mercado de informática está indo para o mesmo caminho, infelizmente. O que era até o meio da década de 90 um segmento predominantemente técnico e reativo a compras racionais, passou nos últimos anos a ser regido por estímulos irracionais, desejos fantasiosos ou atendidos pelo “efeito manada” que nosso colunista Julio Preuss já demonstrou em no artigo Câmeras Sony, “efeito manada” e qualidade ótica . Não importa muito os argumentos técnicos ou o posicionamento racional dos produtos, o que realmente importa é o “eu acredito” nesse mundo distorcido pelo fenômeno de “over information” ( super informação ou excesso de informação seriam traduções aceitas ).
Esse fenômeno atinge diversos segmentos de produtos de informática, desde os iPods, Palms e outros acessórios portáteis até a compra de um computador inteiro. Só o segmento de servidores é que ainda está quase imune a esse processo emotivo, dependendo ainda de compras racionais motivadas por aspectos técnicos e de continuidade de serviço. No segmento de processadores e placas mãe, o mais adorado pelos usuários do Fórum PCs, a compra “emocional” influenciada por usuários “entusiastas” ainda impera no varejo.
A Intel falhou com o lançamento de novos soquetes, processadores e novas tecnologias no último ano. A idéia era induzir o mercado a rapidamente migrar para os padrões PCI-Express e DDR2, ambos ótimos e que inevitavelmente serão adotados por uma grande massa no curto prazo, mas escolheu um momento errado, na minha opinião, quando o mercado de informática sofria um processo de saturação e de estagnação nas vendas. Crescimento real naquela época ocorria em larga escala apenas em alguns nichos, como os Notebooks e outros dispositivos móveis. Some a isso o fato de que essas novas tecnologias apresentam nesse primeiro momento um desempenho igual ou pior do que as tradicionais AGP e DDR, custando mais caro (hoje nem tanto, mas no início sim) do que esses, e já teríamos um quadro suficientemente negativo para a adoção desses novos padrões.
Como se não bastasse, a Intel ainda adotou um polêmico soquete onde os pinos, frágeis e facilmente quebráveis, ficam nas placas mãe e não mais no processador. Isso causou muita apreensão nos fabricantes de placas pois eles, e não mais a Intel, iriam arcar com o custo do RMA (garantia) da placa inteira por causa dos pinos quebrados. E ainda teve o recall dos southbridges ICH6, que apresentou problemas nas primeiras revisões, e o cancelamento da versão ICH6W com um Wireless Access Point integrado. O consumidor interpretou, estimulado pelos fabricantes de placas que pretendiam vender grandes volumes dos produtos de baixo preço e tecnologia anterior, que a tecnologia nova não prestava e que era um risco aderir. Até pouco tempo havia um grande encalhe das placas baseadas no chipset i915, considerado o “entry level” da nova plataforma.
A AMD por sua vez tomou essa vantagem para conseguir mais mercado, se mantendo fiel aos padrões antigos, oferecendo processadores baratos e de aceitável desempenho, como o Sempron para soquete 462, e ainda oferecendo um “plus a mais”, como dizem alguns, ao disponibilizar processadores de 64 bits muito antes de existirem sistemas operacionais desktop com esse suporte.
Os modelos Athlon64 são realmente muito poderosos, e a turma entusiasta adotou a marca, e a manutenção dos padrões DDR e AGP (ainda no soquete 754), como uma salvação contra o efeito maligno da “outra” corporação, que teimava em “empurrar” tecnologias com o único objetivo de tirar o dinheiro do consumidor… (espero que entendam a ironia desse parágrafo…)
O entusiasta corresponde a uma parcela muito pequena de consumidores, mas por causa do seu conhecimento e da sua argumentação sólida e muito mais “confiável” do que as mensagens publicitárias das grandes marcas, eles acabam influindo em uma grande parcela dos consumidores emocionais, ou não racionais. E eu não diria que eles estão totalmente errados não, pois os fabricantes ao adotar uma nova tecnologia esperam que ela amadureça no mercado por algum tempo. Também sou favorável a esperar um bom momento para migrar de padrão.
Hoje o DDR2, que causou imensos danos à indústria de memórias e de placas mãe por não ter sido aceito inicialmente como se esperava, começa a despontar como um bom padrão, embora restrito ainda somente a plataforma Intel. O PCI-Express foi mais feliz, é fácil de encontrar, está mais barato do que o AGP na maioria dos modelos e não faltam placas mãe nas duas plataformas que o adotem.
Tudo isso está de acordo com a histórica posição da AMD em ser “mais barata” e oferecer “mais desempenho” do que a Intel. Essas “verdades” foram interpretadas pelo mercado e não poderiam ser mais falsas: se é verdade que os produtos da AMD eram mais baratos na época dos K6-2, Duron e Athlon, frente aos produtos similares da Intel, isso não pode ser dito como verdadeiro hoje, onde para cada produto da AMD a Intel tem um competitivo no mesmo preço, ou até mais barato.
O mesmo pode ser dito sobre o desempenho. Comparando modelos com especificação similares isso é verdade na maioria dos casos, mas não em todos, e especificamente naqueles casos onde o produto da AMD é muito superior ao da Intel, ele não é nada barato, como é o caso dos processadores de núcleo duplo. Portanto essa imagem de que tal marca “é mais barata” e tem “mais desempenho” do que a outra não é válida para nenhuma das duas empresas, pois essas afirmações só são verdadeiras em casos muito específicos , mas são exatamente esses casos que os “entusiastas” consomem e difundem como verdadeiros, formando essa imagem distorcida.
A AMD é a grande responsável pela adoção em massa dos processadores de 64bits. Sem ela, provavelmente a Intel não teria um produto similar e a Microsoft não teria um software compatível. Não há dúvidas que o mérito ao trazer os 64 bits para o desktop é da AMD, mas isso não pode ser dito em relação aos processadores de núcleo duplo ( Dual Core ). O processamento em múltiplos núcleos é uma prerrogativa do software, que para ter seu código otimizado pelos fabricantes é necessário que haja uma grande base de processadores capazes nos computadores dos usuários para justificar o novo desenvolvimento. A Intel deu a partida com o HyperThreading em 2003 e colocou o atual Pentium D com dois núcleos a preços muito baixos, cerca de 80 dólares acima do seu similar de núcleo simples.
A AMD tem um produto Dual Core superior, não há dúvida, mas nesse momento ele é inacessível ao consumidor por causa do alto preço. A maioria da população adotará o Dual Core no médio prazo, e isso motivará a indústria de software a oferecer aplicações multitarefas para tirar vantagem do potencial desses chips e a intenção declarada da Intel é saturar o mercado com seus produtos, enquanto a AMD os posiciona como “algo desejado e inacessível” por causa do alto preço.
É uma questão de estratégia. Os produtos de núcleo simples da AMD são muito bons e estão ganhando mercado frente aos da Intel, embora percentualmente isso pouco afete a distribuição do mercado, e em time que está ganhando não se mexe. É aquela história de manter o padrão o máximo possível, já que ele é bem aceito. A AMD irá vender muito, da mesma forma que as primeiras placas mãe soquete LGA775 que fizeram sucesso foram justamente aquelas que usavam os antigos chipsets i865/i875 com suporte a AGP e memórias DDR comuns.
Mas o mercado quer Dual Cores e a Intel está melhor posicionada, e será a plataforma mais adotada por causa do baixo preço, o que causará uma tendência natural para a otimização dos softwares em cima do seu padrão. Se não houver uma queda rápida nos preços do Dual Core da AMD, criando uma situação favorável para sua rápida adoção, a AMD continuará seguindo os passos da Intel mantendo o posicionamento de “mais barato” e de “melhor desempenho” no segmento de baixo preço, ocupando uma parcela pequena do mercado total, como tem sido até hoje, deixando seus ótimos modelos Athlon64 FX e X2 como “desejados e inacessíveis”.
Não há como ser diferente, os “padrões” adotados pela indústria sempre serão aqueles que vendem mais, e pelo visto não serão os Dual Cores da AMD.


Acima temos os preços dos processadores Dual Core da AMD, com uma análise de quanto custa o segundo núcleo em cada modelo. Abaixo o mesmo se repete com os processadores da Intel, notem que o modelo mais barato da Intel custa quase a metade do mais simples da AMD. Essas tabelas são da Anandtech.
