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O papel das organizações no acolhimento da maternidade

 Desde cedo, nos acostumamos a ouvir que a vida é feita de escolhas. Para as mulheres, no entanto, essa lógica parece ser muito mais difícil e injusta do que deveria. Por exemplo: será que é realmente preciso escolher entre ser mãe ou ser bem-sucedida na carreira? Como alcançar o equilíbrio entre a vida profissional e […]

Publicado: 06/05/2026 às 18:16
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mãe mercado de trabalho
Construção civil — Foto: Reprodução

 Desde cedo, nos acostumamos a ouvir que a vida é feita de escolhas. Para as mulheres, no entanto, essa lógica parece ser muito mais difícil e injusta do que deveria. Por exemplo: será que é realmente preciso escolher entre ser mãe ou ser bem-sucedida na carreira? Como alcançar o equilíbrio entre a vida profissional e a maternidade? Para boa parte das profissionais brasileiras que são mães, essas perguntas seguem sem respostas – sendo a saída do mercado, muitas vezes, o único caminho possível.

Pesquisas apontam que mais da metade das mulheres que saem de licença-maternidade não retornam aos empregos. Os motivos que provocam essa decisão são os mais diversos: falta de suporte para o cuidado com os filhos, pressão da família, rigidez nos horários etc. Isso, evidentemente, sem mencionar as dificuldades internas que a própria mãe tem em deixar seu filho e sair para trabalhar.

A demanda gerada pela nova vida requer atenção e muito apoio, por isso contar com uma rede capaz de ajudar durante os primeiros meses dessa fase é fundamental. A decisão, sem dúvidas, é difícil e inclui vários aspectos e pessoas.

É justamente nesse ponto que podemos destacar outro fator essencial: o papel e o suporte desempenhado pelas organizações. Levantamentos apontam que mulheres sem filhos recebem, em média, entre 10% e 15% a mais que uma mãe. A diferença é ainda maior em relação à retenção de homens e mulheres que acabam de ter filhos: enquanto apenas 7% dos pais deixam os empregos, mais de 50% das mães são dispensadas ou pedem demissão.

Vale destacar, também, que não é raro encontrar mulheres que preferem deixar seus empregos por serem vítimas de situações desconfortáveis durante a gestação ou por se verem deslocadas quando retornam da licença-maternidade. Em muitos casos, essas profissionais são realocadas em novas equipes, sem nenhum tipo de cuidado ou atenção especial, o que dificulta a transição durante essa etapa.

Esse contexto é alimentado, basicamente, por uma cultura de preconceito por parte das companhias. De acordo com as pesquisas, mais de 70% das mulheres que se candidatam a um novo emprego têm que responder se são ou pretendem ser mães. Nestes casos, não é difícil perceber que a escolha entre maternidade e trabalho vai muito além de uma determinação pessoal.  O fato é que estamos em um momento de transformação global e as companhias deveriam apoiar a mudança de paradigma em relação às mulheres em todos os contextos e fases da vida, incluindo a maternidade.

Mas de que forma as organizações podem contribuir para que as mulheres se sintam seguras ao decidirem ser mães? Uma das primeiras medidas é incentivar uma cultura mais abrangente e que permita a essas profissionais conciliar o trabalho e os cuidados com os filhos.

Como profissional de Recursos Humanos, durante a minha carreira tive a oportunidade de conhecer e participar de ações que estimulam o bem-estar de mães no trabalho. Um exemplo são programas corporativos para o acompanhamento da gestação, que oferecem suporte emocional durante o pré-natal. Esse tipo de iniciativa amplia a confiança das mulheres ao demonstrar que elas têm um grande valor para a organização.

Do mesmo modo, respeitar os prazos e as transições de jornada são fundamentais. Um ótimo exemplo é a adoção da licença-maternidade de seis meses. Para uma mãe, transferir os cuidados com seu bebê a terceiros é uma etapa muito difícil e adiar esse momento fará uma grande diferença para que a profissional possa retornar às atividades mais tranquila, feliz e focada em suas atribuições.

Uma medida bastante eficiente e que já vem sendo adotada por muitas companhias para incentivar a produtividade de forma geral é a flexibilização dos horários de trabalho, com a adoção de banco de horas e home office para atividades que permitam. As mães sentem-se mais seguras e confortáveis ao saber que poderão se ausentar do escritório quando necessário e que contam com a confiança da empresa em sua responsabilidade e capacidade de cumprir com as metas estabelecidas.

Outra forma efetiva de sinalizar às mulheres que a maternidade é um tema natural dentro da organização é realizar, periodicamente, eventos que envolvam as famílias dos colaboradores. Apresentar seu ambiente de trabalho, seus colegas e suas atividades é uma rica oportunidade para as mães mostrarem aos filhos um outro lado, que muitas vezes eles não conhecem. Isso também auxilia as crianças a compreenderem a importância da carreira na vida de suas mães e, inclusive, a sentirem orgulho pelas suas conquistas.

Temos de encarar a maternidade como um passo especial. Cabe a cada uma de nós definir, se, quando e como ela ocorrerá, sem pressões ou temores desnecessários. Para isso, é preciso que as lideranças das empresas estejam verdadeiramente engajadas na criação de uma cultura acolhedora para as mães. Somente assim conseguiremos reter os melhores talentos, respeitando suas escolhas e opções. É hora de entender que há amor dentro das operações.

* Évelin Gardenal é Diretora de Recursos Humanos da Diebold Nixdorf Brasil

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