Superar a ineficiência na gestão de seus recursos é hoje um dos grandes desafios da maioria dos hospitais brasileiros.
Apenas uma pequena parcela dos hospitais brasileiros, públicos e privados, já tem uma administração de saúde profissionalizada, na qual a adoção de sistemas de gestão possibilitou o controle eficiente de custos e resultados. Para os especialistas, a utilização dessas soluções deve aumentar fortemente nos próximos anos, por conta do potencial de crescimento da área de saúde pública e privada.
“A maioria dos hospitais ainda está mais preocupada em adquirir ou ampliar seus equipamentos operacionais do que gerar receita. Para eles, TI ainda é uma área de apoio, e não uma área estratégica”, resume Érico Bueno, da Health Consult, empresa de consultoria focada na área de saúde. “O segmento é um adotante tardio de sistemas”, confirma Gilsinei Hansen, diretor de software da Totvs, que atua nesse mercado com um portfólio amplo da linha Totvs Saúde.
O gerente geral da MV Sistemas, Luciano Regus, avalia que o mercado de soluções de gestão hospitalar fature 200 milhões de reais em 2010. Para o próximo ano, ele estima um crescimento de 40%, elevando a receita para 280 milhões de reais. “O mercado deve crescer 40% por conta dos vários projetos programados para o próximo ano. O setor vem expandindo fortemente nos últimos anos, com uma taxa média ao redor de 30% a 40%”, informou o executivo.
Segundo Érico Bueno, da Health Consult, investir em soluções de gestão é sinônimo de investir também na melhoria da qualidade do atendimento ao cliente. Na área hospitalar, esses sistemas são denominados HIS (sigla em inglês para Sistemas de Informação Hospitalar). Oferecem tanto soluções tradicionais de ERP, voltadas para área administrativa e financeira, quanto soluções voltadas para as especificidades do setor, como a parte clínica (que engloba indicadores importantes, como os procedimentos cirúrgicos mais eficientes), a rotatividade de leitos, os estoques de medicamentos,etc.
Na busca por softwares de gestão, os fornecedores nacionais têm levado vantagem sobre as multinacionais, por conta das características do mercado brasileiro. O Brasil tem um modelo de saúde diferente em relação ao adotado em outros países, e o fabricante local já estaria adaptado à “cultura local”.
Mas, nem sempre, essa vantagem se impõe. “Muitas empresas brasileiras são pequenas, com baixa capacidade de investimento e com chances reduzidas de sobreviver no longo prazo para serem comparadas com multinacionais presentes em vários países, empregando milhares de pessoas”, adverte o gerente executivo de TI do Samaritano, Klaiton Simão. E, por isso, acabam sendo preteridas da decisão de investimentos de longo prazo.
Entre as principais multinacionais fornecedoras de sistemas que atuam no Brasil, destacam-se a portuguesa Alert e a norte-americana InterSystems. Inaugurada no início de 2001, a InterSystems do Brasil é a primeira filial da companhia na América Latina. Seus produtos são utilizados em 88 países por empresas das áreas de saúde, financeira, telecomunicações, governamental, entre outras. Fundada em 1999, a Alert está presente em 12 países. Entrou no Brasil em 2007 e já atende 40 instituições de saúde públicas e privadas no País.
Com produtos em uso por mais de 35 mil consultórios médicos e cerca de 350 hospitais, a Totvs aponta a necessidade de profissionalização da gestão dos hospitais privados como um dos fatores que mais contribuíram para a disseminação do HIS, junto com a verticalização das operadoras de convênios médicos no Brasil. Os novos hospitais construídos pelas operadoras de grande porte já começam a funcionar utilizando sistemas de gestão.
“A administradora procura instrumentos que deem uma visão melhor da gestão. E ocorre um equilíbrio maior entre os investimentos em TI e em equipamentos médicos. No caso das operadoras que têm hospitais próprios, elas sabem o valor de um software de gestão”, explica Hansen.
São clientes da Totvs, por exemplo, o Hospital do Coração (HCor), de São Paulo, e o Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG), localizado no município de Canoas (RS). Com um projeto para investir 35 milhões de reais na ampliação de sua estrutura, o HCor escolheu a Totvs como fornecedora de seu sistema de gestão em 2009. O HNSG também adotou uma solução da Totvs no ano passado, com objetivo de tornar mais eficientes os processos internos, otimizar o fl uxo de informações e reduzir custos por meio do uso de um único software, que integrou todas as áreas da instituição.
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O gerente de software da Totvs destaca ainda que o potencial de expansão do setor hospitalar privado, que atende clientes com planos médicos, fez nascer inúmeros projetos de expansão no setor. Ao investirem na ampliação das estruturas em que estão operando, ou até em novos prédios, os hospitais começaram a “aproveitar”o momento para renovar sua infraestrutura de TI.
“A perspectiva da economia brasileira é um indutor e os hospitais estão dobrando de tamanho”, reforça o diretor geral da MV Sistemas, Luciano Regus, com a ressalva de que o movimento envolve também o setor público.
Normalmente, projetos para a área de saúde pública têm o objetivo de ampliar a capacidade de atendimento das instituições e contam com informatização para melhorar a gestão. Um bom exemplo é o programa de integração de toda a rede assistencial do Governo do Distrito Federal, com a criação do Prontuário Eletrônico do Paciente e do Portal de Exames, atendidos pela InterSytems.
A intenção é o desenvolvimento de um registro único dos pacientes, com dados sendo atualizados e acessados de qualquer uma das seis unidades hospitalares e também do Laboratório Central, para facilitar os atendimentos, principalmente de emergência. Atualmente, são realizados 8,2 milhões de exames no DF. Metade deles gerados pelas seis unidades hospitalares atendidas pelo sistema. Estatísticas da Secretaria de Saúde do DF revelam que 20% deles são perdidos pelos usuários antes da consulta, acarretando novas demandas para os mesmos exames. A expectativa é de que o sistema reduza o desperdício, levando a uma economia de R$ 18 milhões por ano.
O Hospital Infantil Sabará é um bom exemplo do comportamento do mercado. Ao expandir sua estrutura, foi obrigado também a modernizar seu sistema de gestão. E procurou adotar um sistema integrado, capaz de cobrir todas as suas áreas – recursos humanos, financeiro, contabilidade, lavanderia, hotelaria, enfermaria, centro cirúrgico, pronto- -atendimento, áreas de internação, farmácia, entre outras.
Localizado no bairro Higienópolis, na cidade de São Paulo, o Sabará inaugurou sua nova sede em agosto de 2010. O aumento do espaço físico foi signifi cativo. Mudou de um prédio de cinco andares, com 3 mil metros quadrados, para outro de 17 andares, com 15 mil metros quadrados. Com investimentos de 85 milhões de reais, a nova sede tem capacidade para atender 160 mil pacientes e realizar 10 mil operações por ano, passando a oferecer cirurgias de alta complexidade. Para atender a essa nova estrutura, o Sabará renovou sua infra de TI. Investiu 5 milhões de reais em tecnologia da informação e telecomunicações.
Raquel Sabatini, gerente de TI do Sabará, conta que, ao tomar conhecimento do projeto de expansão, a área de TI avaliou que seu sistema, desenvolvido internamente, e já com muitas limitações, não suportaria o aumento do ritmo da instituição. “O sistema atendia a parte administrativa, mas não contemplava a parte clínica. O médico tinha dificuldade em acompanhar o histórico do paciente e isso prejudicava a sua tomada de decisão”, diz. A opção do hospital foi a de adotar um sistema com uma base de informações integrada, que pudesse dinamizar os processos administrativos e técnicos.
Outro fator decisivo na escolha do sistema contratado foi a necessidade de melhorar a qualidade de atendimento do seu complexo. Hoje, o sistema MV 2000, da MV Sistemas, atende o hospital como um todo, abrangendo do atendimento à área clínica e assistencial, dos laboratórios de diagnóstico e terapia até a parte de faturamento e controladoria.
A implantação foi tranquila. O processo de implementação do sistema MV 2000 foi em etapas. “Na primeira parte, focamos em aderência. Levantamos as necessidades de cada área e identificamos as adaptações que teríamos que fazer no sistema”, diz Raquel.
Segundo a gerente de TI, 80% de todos os módulos do MV 2000 foram implantados na primeira fase, finalizada em março de 2010. “O modelo de prontuário eletrônico para o pronto- -socorro ficou para uma segunda fase, porque precisávamos treinar muita gente. Optamos por ‘acertar’ primeiro as áreas que não têm contato direto com os pais dos pacientes. O centro cirúrgico ficou para ser implementado num terceiro momento, já na mudança de prédio.”
Outra etapa importante foi o treinamento envolvendo os usuários, enfermeiros, médicos, pessoal administrativo etc.
Apesar do pouco tempo de utilização do novo sistema, Raquel já detectou avanços obtidos com a sua adoção. “Houve ganhos em vários aspectos”, diz ela. E enumera: “Com os sistemas integrados você tem um fluxo contínuo do negócio, com mais agilidade em cada etapa, como na liberação da conta que deve ser cobrada. Facilitou a auditoria dessa conta, e deu maior credibilidade com os convênios. Além disso, a solicitação de exames, internações e cirurgias às operadoras ficou mais ágil. Houve também melhora do controle de estoques.”
A fornecedora do Sabará, a MV Sistemas, tem soluções aplicadas em mais de 500 hospitais, e é a maior fornecedora de softwares do País para a área hospitalar. Recentemente, lançou uma nova versão de seu software de gestão para área de saúde: o Soul MV, que reúne soluções tanto para as necessidades clínicas como para processos administrativos, financeiros, operacionais e estratégicos de unidades de saúde de todos os tipos, como hospitais, planos de saúde, secretarias de saúde, unidades básicas de saúde, entre outros serviços voltados para o setor público.
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A empresa investiu 20 milhões de reais em seu desenvolvimento durante dois anos. Digitalização de imagens, salto à frente Outra unidade de saúde de referência que mudou seu sistema de gestão num momento de expansão de sua estrutura física foi o Hospital Samaritano, instituição tradicional, também localizada em São Paulo. Com previsão de inauguração para o primeiro semestre de 2011, um novo prédio do hospital está sendo construído desde 2007, movimentando investimentos da ordem de 123 milhões de reais.
A expansão proporcionará ao Samaritano um aumento da capacidade de leitos em unidades de internação e terapia intensiva de 200 para 290; crescimento de 55% do número de leitos; e de 140% da capacidade de atendimento ambulatorial. Também terá um novo centro de diagnóstico, centro-cirúrgico ambulatorial, unidades de hospital-dia e centro de reabilitação, 34 novos consultórios médicos; um centro voltado para cuidados com a mulher, além de um auditório com 200 lugares para conferências.
Diante da nova realidade, a área de TI identificou, em paralelo, a necessidade de uma mudança de gestão hospitalar, já que o sistema em uso vinha apresentando problemas que poderiam aumentar. Tal como o Sabará, o sistema antigo havia sido desenvolvido pela própria equipe de TI da instituição, segundo o gerente executivo de TI Klaiton Simão.
“Tínhamos dois sistemas menores, um próprio e outro, da Microsiga, que atendia especificamente à gestão administrativa financeira.
Em 2008, o Samaritano escolheu o sistema de gestão Tasy, da Wheb Sistemas, implementado em um prazo de sete meses. “Foi uma meta ousada. Além disso, planejamos um modelo de implementação big-bang, trocando um sistema pelo outro de uma só vez, o que exigiu ainda mais da equipe.” Para implementar o sistema, o Samaritano investiu 3 milhões de reais, direcionados para infraestrutura, consultoria, licenciamento de software, licenciamento da Oracle etc.
Após a análise de aderência, a etapa de treinamento envolveu 1,3 mil dos 1,7 mil funcionários do hospital. “Nas áreas de enfermagem e do corpo clínico, 100% do pessoal foi treinado. Foram 20 mil horas de treinamento”, explica. Durante a etapa final de implementação, o hospital contava com 30 consultores, 10 da equipe de TI do Samaritano e 20 da Wheb Sistemas.
Finalizado o processo, o Samaritano já detectou um grande avanço na otimização dos processos internos e na criação de um registro eletrônico dos pacientes. Com todo o hospital integrado em uma mesma plataforma online, ganhos nas áreas administrativa e assistencial foram alcançados. A administração ganhou eficiência em gestão, com processos padronizados, confiabilidade na geração dos dados e maior qualidade nos controles. “Hoje há um maior domínio sobre o fl uxo da operação, porque com ações padronizadas todos sabem como fazer o seu trabalho. Consequentemente, os gestores conseguem avaliar as atividades e os resultados de maneira adequada”, explica Simão.
O hospital integrou até a área de digitalização de imagens. O sistema Tasy, troca dados com sistema de imagens médicas digitais, e o IMPAX, fornecido pela AGFA Healthcare. A integração tem permitido agilidade do atendimento, melhora na gestão e efi ciência operacional com a eliminação ou redução do uso de papel, fi lmes e de produtos químicos nos processos de revelação. Alem disso, ela é pré-requisito para o prontuário eletrônico.
“No Samaritano, o conceito de prontuário eletrônico é aplicado de maneira ampla, ou seja, toda e qualquer informação a respeito do paciente está dentro do sistema”, afirma Simão, lembrando que o projeto de digitalização de imagens custou 2 milhões de reais. O Tasy foi selecionado entre 18 sistemas, fornecidos por empresas brasileiras e multinacionais. Na etapa fi nal de seleção, a equipe de TI do hospital visitou três fornecedores e pelo menos três hospitais que já tinham adotado as soluções.
Um dos hospitais visitados foi o Sírio- -Libanês, com sede no bairro paulistano da Bela Vista. A instituição implementou o Tasy em 2007, dentro de um projeto de modernização do setor de TI. “Até 2006, o Sírio trabalhava com vários pequenos sistemas. A maior parte do pacote adquirido no mercado. Não tínhamos um sistema integrado”, diz a superintendente de tecnologia da informação, Margareth Ortiz de Camargo. “Acredito que outros hospitais se animaram com o Tasy por conta da nossa experiência. A parceria com a Wheb deu certo.”
“A prescrição do Tasy não era muito amigável, com várias janelas, o que não agradava aos profissionais. Com a Wheb, passamos a trabalhar em mudanças no módulo de prescrição, que tornou o processo mais simples de operar e disponibilizamos a solução para utilização por outros hospitais”, lembra Margareth. Entre outras melhorias incorporadas pela equipe do Sírio, está o sistema de dispensação de medicamentos. “Fizemos uma revolução na dispensação. Criamos códigos, lotes por paciente, uma organização hierárquica”, explica.
Outro ponto importante foi a integração com modelos externos. “Nosso sistema está integrado ao do laboratório Fleury (o hospital terceiriza serviços laboratoriais) e com o mercado de compra eletrônica”, acrescenta Margareth.
O Sírio-Libanês investiu 10 milhões de reais na implantação. “No primeiro ano, a parte mais cara é com hardware. Representa quase metade do investimento. A partir do segundo ano, os gastos maiores são com manutenção, que podem representar cerca de 10% do aporte inicial.