Para Alfredo Neves, o trabalho no exterior foi uma prova de fogo
A experiência de expatriamento do vice-presidente da HP é similar à de Alfredo Neves, diretor de contas da CPM Braxis que se mudou para a Flórida em 1997. O santista de 39 anos, formado em tecnologia em processamento de dados e com MBA em administração de empresas, diz que a oportunidade surgiu por acaso, quando a provedora conquistou projeto mundial do Citibank para desenvolvimento de sistema de pagamento corporativo. “Eu não havia pedido para fazer parte do projeto e nem demonstrado interesse, mas meu nome foi sugerido pelo Citi, para quem eu já havia prestado serviços”, explica.
Foi uma prova de fogo, segundo o diretor. Ele foi nomeado gerente-geral da filial na Flórida, e não apenas gerente de projeto. “Eu nem mesmo dominava o idioma”, revela, contando que encarou o fato como desafio e durante cerca de seis meses focou no estudo do inglês. “Me virei, mas também tive a sorte de encontrar uma equipe formada por portugueses, colombianos, espanhóis, indianos e muitas outras nacionalidades. Tinha até americano.”
O suporte da CPM Braxis foi fundamental. A empresa pagou curso de inglês também para a esposa de Neves e escola particular para o filho, então com cinco anos. O executivo também teve direito a moradia e outros benefícios. Nos primeiros dias, ainda sem a família, a impressão foi positiva. “Você confirma rápido coisas como segurança e maior qualidade de vida”, diz. Os transtornos também foram muitos. “Por exemplo, ninguém me avisou que restaurantes fechavam às 22 horas. Fiquei sem jantar algumas vezes.”
Atualmente, Neves e sua família possuem green card, o visto permanente de imigração, e experiência suficiente para dar orientações aos “novatos”. A principal dica: não subestime o impacto no parceiro. O expatriado sai para trabalhar todo dia, ocupa todo o tempo, se relaciona com pessoas, faz novos amigos. Os filhos vão para a escola onde também fazem amigos. O cônjuge, enquanto não trabalha, estuda ou domina o idioma, fica muito só e sofre mais.
Outra dica é ir preparado tecnologicamente para manter contato virtual com os parentes e amigos no Brasil. “Ouvir alguém falando português é confortante, mas ver a pessoa faz toda a diferença. Eu falo diariamente com minha família por videoconferência, estes recursos são muito fáceis de se obter aqui nos EUA”, aponta.
Como Lewis, da HP, Neves, da CPM Braxis, ressalta a importância de compreender a realidade e os costumes do país. “Ao longo dos anos, a diferença de valores vai se tornando mais clara. Acho que nós brasileiros temos raízes mais fincadas. Nos EUA, isso não existe e é desenhado para não existir”, avalia, citando como exemplo o fato de o filho ter sido submetido a rodízios nas escolas, resultando em um grupo diferente de amigos a cada ano. “Eu não via nenhum sentido nisso, mas para eles é bom, porque eles se mudam muito e acham que a criança tem de se acostumar a lidar com perdas.”
Ter o quê (e com quem) conversar também entra na lista de desafios prioritários do expatriado. “O principal assunto de americano é política, mas eu não recomendo começar por aí, por ser um tema muito polarizado. Esporte é um assunto bom. Escolha um time de basebol ou futebol americano, mas não discuta o nosso futebol, porque ninguém se interessa”, aconselha.
Todos na casa de Neves estão adaptados. A mulher é professora para alunos com necessidades especiais. O filho de 18 anos é mais americano que brasileiro, embora fale português fluentemente. “A gente faz questão de passar férias aqui no Brasil todo ano”, diz Neves, falando de um celular a caminho do aeroporto, depois de uma reunião de negócios em São Paulo. Mas será que ele ainda pensa em voltar? “Se Deus quiser, a gente volta”, afirma o diretor. Com o filho concluindo a high school [ensino médio] e se preparando para entrar na faculdade, talvez Neves precise conhecer a estratégia usada pelo VP da HP, caso queira trazer o garoto para o Brasil.
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