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Entrevista: José Luiz Gonçalo, VP de TI da Johnson & Johnson

Depois de migrar os data centers e ERPs das unidades latino-americanas para o Brasil, Gonçalo está diante de uma nova centralização

Publicado: 10/05/2026 às 09:49
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9 minutos
Entrevista: José Luiz Gonçalo, VP de TI da Johnson & Johnson
Construção civil — Foto: Reprodução

No fim de 2005, por ocasião de uma reportagem sobre Brasil como centro de TI para diversos países, José Luiz Gonçalo, vice-presidente de tecnologia para América Latina da Johnson & Johnson Consumidor (existem ainda duas outras: farmacêutica e medical), recebeu InformationWeek Brasil na fábrica em São José dos Campos (SP). Foi uma longa conversa e detalhada, parte dela realizada durante uma caminhada pelas diversas áreas da companhia. Gonçalo relatou planos audaciosos que destacavam a importância e a relevância do País. Passados quatro anos, voltamos a conversar com o VP. Desta vez em um dos escritórios em São Paulo, o executivo, que trabalha na J&J há cerca de 30 anos, não apenas confirmou a execução de tudo que estava planejado como abriu os planos de centralização em dois sites.

InformationWeek Brasil –  Até meados de 2007 todos os data centers das unidades latino-americanas estariam centralizados no Brasil. Como ocorreu este processo?

José Luiz Gonçalo – Em 2005, trouxemos a Colômbia, que é um site bastante grande, com duas grandes fábricas e a área comercial. Em 2006, foram Venezuela, Equador e Peru e, em 2007, Argentina, Paraguai e Uruguai. No ano passado, México e América Central. Colocamos 18 países rodando o ERP centralizado no Brasil, além de todo o data center.

IWB – O que ficou nos países?

Gonçalo – Localmente, ficaram alguns suportes como help desk, um técnico e um diretor, que representa a TI dentro do board daquele país. Esta pessoa captura as demandas, faz uma pré-análise para saber o que pode ser englobado dentro do modelo regional e o que ser mantido localmente. Cada país pode fazer coisas pequenas, que não envolvam muitas mudanças. Já as maiores e que afetam o ERP, como os sistemas comerciais ou de distribuição, ou que impactem diretamente o cliente ou a área de finanças, têm de ser passadas para o centro de competência do Brasil.

IWB – O Brasil, de fato, ganhou importância globalmente?

Gonçalo – Ganhou e hoje somos referência para algumas soluções de TI, como CRM, porque estamos muito desenvolvidos em como chegar aos canais de distribuição.

IWB – Como é este projeto?

Gonçalo – Ele nasceu no Brasil em 2004. Entendemos que o CRM, na verdade, é formado por várias camadas, inclusive, processos, práticas comerciais e como você chega ao canal de distribuição. A partir daí, começamos a desenvolver soluções de TI que suportassem todas estas etapas. Também é preciso entender que vender para o Wal-Mart é diferente que para uma farmácia ou armazém. Temos um menu com todas as capabilities do CRM disponíveis não só no Brasil. Renovamos o contrato do software e adicionamos mais coisas. Começamos novamente em 2006.

IWB – Projetos criados aqui têm visibilidade em outros países?

Gonçalo – Sim. Por exemplo, esta área de PMI foi iniciada no Brasil e expandida para outras unidades da Johnson no mundo. Fomos  referência. Mas entendemos que nenhuma solução serve para todos os lugares, não é plug and play. Não existe isto. Na verdade, você aproveita 80%, depois refaz, personaliza e coloca em outros lugares.

IWB – Onde estão os data centers?

Gonçalo – Um está em São Paulo e os outros, na Austrália, Bélgica e nos Estados Unidos. Eles hoje suportam os projetos de consolidação de ERP no mundo. Mas o projeto para os próximos quatro a cinco anos é ter somente dois data centers. O de São Paulo vai se consolidar nos Estados Unidos e o da Austrália, na Europa.

IWB – Por quê?

Gonçalo – Isto faz parte de uma estratégia global de TI da Johnson, que se chama One IT. Aquilo que fizer sentido continuar nas regiões ou países vai continuar, mas o que for infraestrutura, atividade de suporte, repetitiva ou áreas de compliance será centralizado.

IWB – Como fica o ERP?

Gonçalo – Aquilo que for comum vamos centralizar, mas, por exemplo, não vamos centralizar ou padronizar o sistema comercial do Brasil. Não existe isto, porque cada país tem uma prática diferente. Não faria sentido globalizar.

IWB – Isto vai implicar demissão?

Gonçalo – Não. Passa por uma mudança de estímulo profissional. O global services está assumindo a parte mais técnica e dando espaço para o pessoal de TI estar muito mais perto do negócio, capturando a demanda e ajudando-o.

IWB – São quantas pessoas?

Gonçalo – No global services, cerca de 1,5 mil, em todos os países e continentes; eles respondem para uma pessoa global, mas aqui tem um reporte horizontal comigo. O outro time é direto comigo. Tenho 65 na região, sendo 50% no Brasil.

IWB – Não existe uma TI única?

Gonçalo – Não. Existe uma TI para farmacêutica, outra para consumidor e uma terceira para medical. Cada uma responde para seus CIOs globais.

IWB – Não faria sentido unificar?

Gonçalo – Isto é uma boa pergunta, porque, se voltar na história da Johnson, em 1975, ela era totalmente centralizada, só que ela acreditou na descentralização de alguns nichos de mercado. A farmacêutica é um negócio diferente de consumidor. Então, as soluções de TI não necessariamente são as mesmas, somente as que são básicas. Para isto, tem o global sevices, ou seja, aquilo que é comum aos três negócios está centralizado.

IWB – O fato de vocês terem acabado de passar por uma centralização ajuda?

Gonçalo – Facilita, porque colocamos os processos dentro dos padrões globais. O meu movimento para global será menor do que para quem não tem nada.

IWB – Não ficará nenhum dc aqui?

Gonçalo – Não. Vão ficar alguns dos que chamamos de computers rooms, servidores para aplicações específicas. Tenho uma dúvida: não sei se os servidores de CRM deveriam estar nos Estados Unidos, porque é necessário ter velocidade para mandar ordem de vendas, por exemplo. Se o desempenho não for bom, não dá para fazer.

IWB – Quando você coloca a infraestrutura em outro país depende ainda mais das telecomunicações.

Gonçalo – Exatamente. O primeiro tópico do nosso projeto é uma avaliação de toda WAN da América Latina.

IWB – O Brasil ainda representa 50% da América Latina?

Gonçalo – Continua. A região vem crescendo dois dígitos consecutivamente há uns quatro, cinco anos e isto é legal, porque não acontece com os EUA, a Europa ou a Ásia. Para nós, latinos, é muito importante, porque mostra que estamos saindo de um patamar de pobreza absoluta para algo mais civilizado em termos de consumo. A AL inteira é 9% do faturamento global.

IWB – E isto também é bom para TI.

Gonçalo – Muito, porque aumenta nossa capacidade de investimento. As áreas de negócio geram mais demandas para TI.

IWB – Qual é o seu orçamento para TI?

Gonçalo – Temos US$ 26 milhões de budget em despesas e de US$ 12 milhões a US$ 15 milhões de investimento. O número é 2010 e está parecido com 2009.

IWB – migrar os data centers para os eua vai afetar seu orçamento?

Gonçalo – Sim, teremos de revisá-lo. A dúvida é se vamos pagar por serviços, pois, normalmente, a cobrança é em dólar. Vamos depender do câmbio e uma valorização do Real afetará o catálogo de serviços.

IWB – Este tipo de cobrança por serviço ainda não é um modelo maduro.

Gonçalo – Não e há desafios como, por exemplo, alguns países da América Latina têm muitos problemas com imposto de renda, pois não é permitido que você pague por um serviço fora. Isto inviabiliza o charge back, porque acaba sendo muito complexo.

IWB – Você vê outras companhias indo para este mesmo modelo?

Gonçalo – Acho que estão. Talvez não tão avançadas ou agressivas como nós. Com certeza, já discutem isto, tem uma parte neste modelo. Tenho conversado com CIOs fora e há algumas coisas nesta linha de padronização de processo de algumas soluções.

IWB – Ao longo dos anos, surgiram normas como a Sarbanes-Oxley. Ficou mais complexo administrar TI?

Gonçalo – Isto afeta muito. Por exemplo, 20% dos meus recursos de TI estão, pelo menos, 70% do tempo focados em controles de seguranças e programas para suportar SOX. E não somente para esta. Produzimos no Brasil Band-Aid para o mundo inteiro, então, os processos da fábrica estão submetidos à vistoria do FDA [Food and Drug Administration, órgão governamental dos Estados Unidos que faz o controle dos alimentos e medicamentos].

IWB – O perfil do profissional de TI mudou muito. Como você contrata?

Gonçalo – Depende. Para a área de processos observo determinadas características, principalmente, a experiência com o negócio, com qual área se identifica. Por exemplo, contratamos dois anos atrás uma pessoa do Submarino, porque eu precisava de alguém que entendesse de marketing e que falasse a linguagem do negócio, mas também conhecesse o outro lado do comércio eletrônico para poder balancear as duas coisas.

IWB – Tem projeto de comércio eletrônico?

Gonçalo – Sim, mas não posso falar tudo que estamos avaliando. Temos feito estudos interessantes.

IWB – Por que não entrou no e-commerce até agora?

Gonçalo – Temos alguns dilemas. Nós nunca fizemos o que vamos tentar fazer. É preciso tomar alguns cuidados. Estamos avaliando o cenário – de supply chain, TI, marketing e vendas até o geográfico. Apesar disto, temos algumas iniciativas interessantes. Na área de lentes de contato, vendemos pela internet para as lojas e elas podem acompanhar a posição do pedido. Para os distribuidores, usamos VMI [gerenciamento de inventário], quando o estoque chega a um determinado nível, o sistema automaticamente dispara um pedido para nós.

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