Há quase 20 anos na empresa, próximo desafio da executiva é colocar infraestrutura na mina de bauxita localizada na Amazônia
Juruti é uma cidade com cerca de 34 mil habitantes, que fica encravada na Floresta Amazônica, no oeste do Pará. Desta localidade remota e precária parte um dos maiores desafios da gerente de informática da Alcoa para América Latina, Tania Nossa: ajudar na construção da infraestrutura para a mina de bauxita que a companhia vai começar a explorar neste ano. Com alto astral e cheia de energia, a executiva mostrou, durante a conversa com InformationWeek Brasil, na sede da IT Mídia, em São Paulo, que acima de tudo os líderes devem preocupar-se com o desenvolvimento de seu time e que as pessoas têm de deixar claro seus objetivos de carreira e do que são capazes. Foi exatamente o que ela fez, quando, em 2004, expôs aos chefes que se sentia pronta para desafios maiores. E eles vieram. Hoje, Tania responde pela TI da America Latina, reportando-se para o CIO global e ao CFO do Brasil. Recentemente, teve seu trabalho reconhecido ao ser indicada entre os 50 executivos mundiais de tecnologia mais estratégicos pela InformationWeek EUA.
InformationWeek Brasil – Como foi estruturar a TI da mina, em uma localidade tão remota?
Tania Nossa – Tivemos de fazer tudo. O projeto tinha duas possibilidades: montar uma área de TI específica – porque é um consórcio – ou usar a estrutura da Alcoa, o que acabamos decidindo. Montamos uma equipe se reportando para mim e usando todos os acordos que tínhamos, como de telefonia, links, servidores. Assim, conseguiríamos levar o padrão. Não foi nada fácil. Na época, no Centro Empresarial em São Paulo, tínhamos dois andares com 500 pessoas, com muitos engenheiros trabalhando com softwares superespecíficos, e esta parte também não podia parar.
IWB – Eram duas frentes, o back office e o projeto da mina em si?
Tania – Isto. Primeiro montamos a equipe para Juruti e decidimos que colocaríamos a mais moderna tecnologia, embora a mina estivesse no meio do nada, como link IP via satélite e os mais modernos servidores. Para explicar melhor, são na verdade três sites: a base, o porto – construímos o porto, fizemos a rodovia e ferrovia – e a área que faz o beneficiamento a 60 quilômetros o porto. Além destes, ainda tem a refinaria que fica em São Luís, onde trabalham 11 mil homens, e o site do Centro Empresarial em SP.
IWB – Há quantos anos vocês tocam o projeto? Quanto foi investido?
Tania – Não revelamos o valor, mas, dentro do total de investimentos do projeto, 1% foi para TI. Este ano é o go live, mas estamos trabalhando há quatro anos. Na equipe de TI, são cerca de 40 pessoas focadas. Colocamos um gerente, que já era da Alcoa e conhecia nosso sistema (ele se reporta para mim), e alocamos algumas outras pessoas estratégicas da companhia neste time. A maioria veio sob demanda, com equipes terceirizadas.
IWB -Isso tudo acontecia simultaneamente com outros projetos.
Tania – Sim. No período, decidimos mandar os servidores de aplicativos para os Estados Unidos, em 2006, e fazer outsourcing de servidores no Brasil. Hoje, temos o data center central em São Paulo, com hosting na Brasil Telecom, e o de aplicativos nos EUA.
IWB – Por que mandar para os EUA?
Tania – Em 2005, quando eu assumi, um dos projetos era montar a área de serviços em Poços de Caldas (MG) e dar uma cara para TI que não fosse somente de infraestrutura e tecnologia, mas de serviços, fazendo parte do Global Business Services (GBS), junto com as áreas financeiras, de RH, compras e meio ambiente. Não fazia sentido ter um data center em São Paulo em um escritório que não era nosso, então, resolvemos mandar o de aplicativos para os EUA, porque, hoje, tanto faz onde está localizado o servidor. Embora consolidamos hardware e software no data center dos EUA, conseguimos manter a parte de serviços aqui, o que é uma vitória, porque estamos sempre em negociação interna sobre para onde vamos mandar os serviços. Os americanos têm uma terceirização muito grande com a Índia.
IWB – A crise atropelou os planos? Como decidir o que cortar em meio a um projeto tão complexo como o da mina de bauxita?
Tania – Para mina, de certa forma é mais fácil, porque já estava tudo desenhado e tem de se fazer o investimento dos servidores, a implementação do ERP (da Oracle e totalmente integrado com o que já existia). Isto já estava no portfólio e previsto, embora também tivemos de fazer uma redução em Juruti; a mesma que foi acionada globalmente. Uma, por exemplo, é com viagens, que é a mais fácil. Passamos a fazer áudio e videoconferência.
IWB – Existem práticas mundiais que direcionam a redução de custos ou a adoção de tecnologias?
Tania – Temos um grupo de CIOs, do qual eu faço parte representando a América Latina, que tem reuniões quinzenais, inclusive dentro de empresas como Microsoft, Cisco e Oracle, sobre tendências de tecnologia. Além deste grupo, há o CIO global, para quem eu me reporto, três CIOs verticais, os regionais – um da Austrália, eu para AL e outro para Europa e EUA -, um CIO voltado para infraestrutura, um para aplicativos e outro para segurança. É uma estrutura bem matricial.
IWB – Quais frutos já renderam?
Tania – O conceito de bring your own PC (traga seu próprio computador) está em estudo com vistas para 2011. Também já fizemos avaliação sobre mandar o e-mail para cloud. Tem outro grupo, o conselho de arquitetura, formado por cientistas que ficam testando gadgets. Eles não atuam no dia-a-dia e são responsáveis por olhar tendências o tempo inteiro e reportá-las para este grupo de CIOs.
IWB – A TI do Brasil pode prestar serviços para outros centros da Alcoa?
Tania – Pouco, porque já traçamos uma estratégia de dez anos, da qual eu participei lá atrás, embora não tenha concordado, mas fui voto vencido. Os CIOs visitaram Brasil, Hungria, China e Índia e, na época, a Índia estava muito mais competitiva, maior e com escalada, assim, decidiu-se por fazer um outsourcing para serviços de TI da Alcoa lá. A grande vantagem do Brasil é, primeiro, o fuso horário e, segundo, a flexibilidade; o valor é praticamente o mesmo, sendo desfavorecido às vezes em função do câmbio e fizemos uma pesquisa que mostrou que em jobs menores somos mais competitivos. Inclusive, tem uma área mundial de compliance e segurança que estamos trazendo de serviços e que não estava na Índia. E estamos conseguindo aos poucos trazer esta tarefa para o Brasil.
IWB – Trazer esse tipo de serviços para o País é uma “briga boa”?
Tania – Traz divisas para o Brasil. É uma parceria e, internamente, significa mais serviços, mais responsabilidade para o meu time e eles se expõem externamente. Acabamos de exportar um profissional, porque ele ficou muito conhecido internacionalmente. Isto também me ajuda na retenção de talentos. Agora estamos passando pela fase de contenção de custos, mas uma das estratégias é mandar gente para fora, como intercâmbio. Eu mesma já fui e é muito bom.
IWB – Há quantos anos você está na Alcoa?
Tania – Desde 1988, há 19 anos. Antes, eu prestava serviços para ela.
IWB – Você sempre trabalhou com tecnologia?
Tania – Sempre. Comecei com digitação no Itaú, depois fui para Cesp limpar fitas e decidi ir para uma fábrica de software, onde, embora fosse pequena, aprendi muito. Nós prestávamos serviços para a Alcoa e comecei a fazer software de faturamento. Estava havia dois anos quando surgiu uma vaga na Alcoa, me ofereceram e eu aceitei. Comecei de baixo, como analista de sistemas.
IWB – Você imaginava que chegaria ao cargo de CIO?
Tania – Naquela época não, mas, depois que fui para a área corporativa, sim. Lá atrás, decidi estudar inglês e, quando me formei na escola, fiz um curso em Berkeley (EUA). Ao voltar – e você também precisa dar sorte na carreira e eu tive um pouco -, a Alcoa estava trazendo uma fábrica de chicotes elétricos para o Brasil e precisava de alguém que falasse inglês para tocar a TI. Foi muito legal, porque éramos quatro gerentes (operacional, de produto, de produção e eu, de TI) e tive uma visão holística, desde cabeamento e CPD a contratação de pessoas. Foi muito importante trabalhar dentro de uma planta. Mas eu ia muito aos Estados Unidos, estava casada, engravidei e ficava a semana fora. Daí, me ofereceram a possibilidade de voltar para a corporação para trabalhar no Centro Empresarial, em SP.
IWB – Foi quando pegou a parte de internet?
Tania – Era o começo da intranet, extranet e internet; adorei trabalhar com isto. Tive meu segundo filho, a Giulia, fiz MBA em marketing na USP e foi legal, porque eu queria sair um pouco de TI e ter visão mais de negócio, aproveitando que eu trabalhava com portal. No inicio de 2004, quando Giulia tinha 1,5 ano, eu expus para o CIO da época [Marcos Caldas] que eu estava pronta para encarar outro desafio. Naquela época, eu estava trilhando para ser CIO, queria isto. Falei pro Caldas que eu queria o lugar dele (risos), que eu estava me preparando para tal. Coincidentemente, tinha uma vaga para gerenciar o portal global. Fui para os Estados Unidos – mudei com meu ex-marido, babá e dois filhos, em 2004. Foi um aprendizado enorme. Era gerente de internet para América Latina e passei a ser global, me reportando para o CIO de aplicativos. Instalei o MyAlcoa na Europa e na Austrália.
IWB – Além do desafio profissional, tem a parte de adaptação. Foi muito difícil?
Tania – Depois de um ano, já estava adaptada. Aprendi muito da cultura deles também. Você tem de se provar sempre, por ser mulher e por ser brasileira.
IWB – Como se deu a volta ao Brasil?
Tania – Vagou a posição do meu gerente e eu estava para ser transferida, quando começou a história do GBS no Brasil. O [presidente da Alcoa América Latina e Caribe] Franklin L. Feder acredita que os brasileiros são competitivos no serviço e que podemos ser pólo. Então, criou-se este centro em Poços de Caldas (MG). Eu estava trilhando minha carreira lá fora quando me ligaram para assumir o centro. Fiquei muito indecisa, porque me adaptei à vida lá, mas achei que tinha de voltar.
IWB – Olhando para trás hoje, você avalia que tomou a melhor decisão?
Tania – Minha carreira, com certeza, foi mais rápida por eu ter voltado para assumir o GBS, porque, daí, assumi a gerência de TI para América Latina. Só vim porque o CIO da época pediu demissão. Foi muito bom montar a equipe em Poços, contratar, fazer a terceirização.Montei uma área com a minha cara.
IWB – E qual é a sua cara?
Tania – O mais importante foi dar uma cara de serviços de TI dentro da manufatura. Tem também o lado feminino de camaradagem, de cuidar, estar muito perto de pessoa, perguntar do que gosta mais, o “peopleware”. Agora, estou bastante empenhada para dar o tom da sustentabilidade para a TI, como podemos ajudar no social com o uso da tecnologia.
IWB – Você também tem um trabalho com as mulheres da Alcoa. O que você faz?
Tania – Quando vim, o Feder me convidou para tocar a rede de relacionamento de mulheres da Alcoa, que, por ser manufatura, tem poucas trabalhando. Faz quatro anos que estou à frente. Partimos de 600 mulheres, em 2004, para 1,1 mil em todas as áreas, ou seja, de 9% para 16% do total de funcionários. Ainda é pouco. Na maternidade, a mulher está normalmente começando a exercer alguma gerencia e a maioria não volta. Tentamos aumentar o número, mostrando que, se nos estruturarmos bem em casa, é possível voltar ao trabalho. O principal é se organizar, planejar para onde quer ir, expor esta vontade e se você está pronto.