Com orçamento de TI um pouco superior ao liberado em 2008, entrou em campo a criatividade
Toda as sextas-feiras pela manhã os gestores de tecnologia
da General Motors se reúnem para avaliar os processos e traçar estratégias. Durante
a meia hora deste encontro, 12 gerentes e o diretor de tecnologia da montadora
falam sobre inovação. “Discutem-se muitas ideias. Cada uma delas é avaliada”,
comenta Claudio Martins, CIO para o Mercosul, citando que destes brainstormings nasceram muitas
iniciativas que nortearam os projetos da companhia neste ano atípico vivido
pela indústria automotiva.
De fato, o setor de carros amargou situações complexas e
esperneou muito com a crise financeira global desencadeada no segundo semestre
de 2008. A
GM, gigante e centenária, sofreu a ponto de pedir concordata nos Estados
Unidos. Mas tal onda não devastou o Brasil, onde as vendas de automóveis no
primeiro semestre superaram o desempenho visto no mesmo período do ano
anterior. “Este ano foi de muito trabalho e de adequações às normas”, resume o diretor de
companhia que pulou do 13º lugar no ranking geral de As 100+ Inovadoras no Uso de TI, em 2008, para a 6ª posição, em
2009.
Grande parte do esforço do time comandado por Martins ao
longo dos últimos meses atrelou-se a iniciativas propostas pelo governo. Com a
ameaça de retração mais significativa da economia, o que apontava para uma possível
onda de demissões em toda cadeia automotiva, Brasília tomou as rédeas e baixou medidas
para reduzir o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). A postura impulsionou
as vendas e deve contribuir para o crescimento de 4% previsto pela GM para 2009. A mexida obrigou que
sistemas fossem revistos para contemplar ajustes fiscais.
Na mesma direção, a GM precisou acertar sua TI para emitir
Notas Fiscais Eletrônicas (NF-e) e entregar os arquivos da obrigatoriedade do
Sistema Público de Escrituração Digital (Sped). “São projetos que geraram
grande quantidade de trabalho”, resume, durante entrevista concedida pelo CIO
em sua sala na sede da montadora, no ABC paulista.
Driblando dificuldades
Nem as adversidades, nem as compliances frearam a inovação na subsidiária brasileira da GM – o
que prova que os trinta minutos semanais para discutir formalmente o tema foram
bem-aproveitados. O fato é que até o estouro da crise, o ritmo era alucinante
para a indústria automotiva. Os trabalhos, até então, focavam em alta
produtividade. “Se um sistema cobria dois turnos, o aumento para um terceiro
período nos obrigou a otimizar o espaço que antes era alocado para manutenção e
backup para funcionar 24 horas”,
comenta o CIO, mencionando que a crise fez a companhia se reorganizar para
atender à redução de volume, que exigiu novo esforço da tecnologia. A
contrapartida é que tal adequação permitiu à montadora manter a produção mesmo quando
diminuiu turnos.
Com orçamento de TI um pouco superior ao liberado em 2008, a prioridade residiu
em iniciativas que impactassem o negócio e não consumissem recursos
exorbitantes. Entrou em campo a criatividade. “Aproveitamos oportunidades”,
avalia Martins. O executivo tirou do papel um projeto de TV interna para
distribuição de conteúdo. A iniciativa saiu praticamente de graça, pois contou
com parceria com uma empresa que coloca à disposição comerciais, mesclando
canais formais de comunicação com publicidade. A programação chega aos 21 mil
funcionários da montadora. A ideia rondava pelo departamento de tecnologia há
algum tempo. “Mas o investimento era alto; o trabalho, difícil e o retorno,
baixo”, avalia o executivo, citando que o projeto fora apresentado a um comitê
executivo duas vezes, sem sucesso.
Além disso, é inegável a chacoalhada ocasionada pela crise.
Em meio a grandes transformações globais, a GM redefiniu sua cultura
empresarial. Uma nova porta para inovar com baixo investimento. Das reuniões
das manhãs de sexta-feira veio também a ideia de colocar uma proteção de tela
nos computadores para difundir os novos conceitos. Desde o surgimento da
possibilidade, criação do layout,
desenvolvimento até a distribuição da mensagem para 8 mil máquinas, menos de duas semanas
se passaram.
O CIO explica que missão, visão e valores da companhia aparecem
no monitor dos trabalhadores que deixarem suas máquinas paradas por mais de
cinco minutos. Talvez pareça algo realmente pequeno, mas vale ressaltar o
impacto da medida, sempre lembrando que informação é um dos componentes na hora
de promover mudanças. Aliás, ressalta-se que “inovação” é um dos conceitos
presentes neste screen saver.
No que se refere propriamente à tecnologia que impulsiona
negócios, Martins cita um “projetinho” para divulgar informações de market share em 400 PDAs de funcionários
das áreas de marketing e peças. A solução baseou-se em uma plataforma de business intelligence (BI) da MicroStrategy
e fornece dados em tempo real. A oportunidade de criar a ferramenta veio do
contato entre TI e a área de negócio.
Equações
Quando olha para frente, o líder da TI da GM no Brasil e dos
demais países do Mercosul mantém vistas nas regulamentações do governo. Por
aqui, em um futuro próximo, a Resolução 245 do Conselho Nacional de Trânsito
(Contran) vai obrigar a instalação de um aparelho antifurto nos veículos saídos
de fábrica. “É um celular que você pode bloquear o carro se ele for roubado”,
simplifica o diretor. Para muitos, trata-se somente de adequação. Já outros
enxergam aí uma plataforma para inovar e agregar valor ao negócio. O CIO não
cita estratégias da montadora, mas deixa clara a intenção de oferecer serviços
sobre esta base tecnológica.
Há vezes que coisas simples fazem toda a diferença. Com
pequenos gestos, a GM mostra que é possível manter elevados níveis de inovação
mesmo em períodos turbulentos.
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