Instituto cria solução para levar computador a beira do leito, melhorando atendimento aos pacientes e vencendo barreiras culturais
A qualidade dos serviços de saúde depende de informações
precisas para ações rápidas e efetivas. Os hospitais sabem: os ganhos são
significativos quando iniciativas de informatização e mobilidade incorporam-se
às rotinas. As vantagens são sistêmicas. O computador ajuda no armazenamento e na
troca de informações, contribui para a redução dos índices de erro, provê
melhor acesso a dados históricos o que, por fim, facilita o trabalho na hora de
tratar os pacientes.
Dito assim, tudo parece muito simples. Mas não é. Barreiras
culturais erguem-se como muros dentro de instituições do setor. A computação,
por imensos benefícios que agregue, tem sido vista apenas como mais um processo
burocrático a ser seguido por médicos e enfermeiros. Os argumentos dos que
refutam o computador passam pela dificuldade no manuseio de equipamentos,
teclados e telas pequenos, baixa autonomia das baterias, pouca integração entre
sistemas, falta de robustez e por aí vai. Tudo isto é válido. Por que não seria
se durante anos as coisas foram feitas da mesma forma e funcionaram?
Não se muda uma cultura moldada pelos séculos a força. Marco
Antonio Gutierrez, CIO do Instituto do Coração de São Paulo (InCor), ganhador
na categoria PME, sabe disto. Mas o executivo sabe também que alinhar TI com
negócio e facilitar a vida dos usuários contribui – e muito – para mudar
paradigmas. Por mais que a modernidade tente impor-se no estabelecimento de
novas formas de fazer o trabalho, sem benefícios claros, as máquinas não
vingam. Quando os gestores de tecnologia conquistaram a sensibilidade de
compreender a melhor maneira de resolverem equações envolvendo pessoas e
computadores elevam o índice de sucesso de seus projetos.
Ponto de mudança
Voltemos a 2003. O departamento de tecnologia da informação
do instituto vinculado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo trabalha no desenvolvimento de um grande sistema de
gestão que irá controlar todas as etapas da assistência ao paciente. No final
do ano seguinte, a solução começa a rodar, englobando módulos de prescrição
eletrônica, resultados e pedidos de exames, imagens médicas nos mais variados
formatos. Mais ou menos naquela época, a figura do Prontuário Eletrônico do
Paciente (PEP) surge como um importante aliado, impulsionando profundas
mudanças na forma de se praticar medicina.
Já nos primeiros momentos com o novo sistema, os avanços
mostraram-se animadores. Mas, para Gutierrez, embora todo processo de
informatização tivesse gerado diversos ganhos acarretou alguns ônus ao corpo
médico que “possuía informação do paciente, mas não no ponto de cuidado”. Ainda
faltava algo. O desafio residia em adaptar a tecnologia à grande mobilidade dos
profissionais. O problema, na visão do CIO, estava “última milha”, que restringia
a abrangência do projeto uma vez os benefícios não chegavam até o ponto de
cuidado do paciente (POC, na sigla em inglês).
Para tentar resolver a questão, surgiu a ideia de utilizar pocket PCs. “O resultado foi muito ruim,
porque estes aparelhos têm várias limitações”, comenta Gutierrez, citando como
problema identificado o teclado para inserção de dados, a baixa durabilidade
das baterias e a fragilidade das máquinas. “Adotar estes dispositivos não era a
solução”, sentencia. O hospital, então, começou testes com tablets. “Mas também foi ruim devido ao peso, autonomia de bateria,
dificuldade de colocar à beira do leito e o custo”, pontua. Ficou claro que a
saída não viria de uma tecnologia de mercado.
Dentro de casa
O time de TI do InCor, então, começou a desenhar um projeto
próprio de mobilidade em medicina (que acabou batizado de MobMed). Como parte
integrante da iniciativa desenvolveu-se o conceito e o MedKart: um carrinho
ergonômico com um notebook embarcado, protegido por um bloco de alumínio criado
para que médicos e enfermeiros levem o computador até onde o paciente está.
O dispositivo possui periféricos para leitura de códigos de
barra, um monitor de LCD de 15 polegadas, teclado resistente à água e com
limpeza simplificada, no-break com
autonomia de até 6 horas e acesso à rede Wi-Fi do hospital. “O médico leva esse
carro à beira do leito, podendo consultar todo o histórico do paciente
centralizado no sistema”, detalha Gutierrez, mencionando que a solução foi
desenvolvida no primeiro semestre de 2008 e entrou em operação na segunda metade
do ano.
Em termos tecnológicos, a iniciativa se baseia em uma
arquitetura aberta, seguindo padrões públicos de interfaceamento e
interoperabilidade. Para o desenvolvimento do projeto foi necessário ampliar a
infraestrutura de rede sem fio do complexo hospitalar. A solução garante
agilidade, controle e confiabilidade no atendimento ao paciente. De acordo com
o executivo, podem ser citados como exemplos o registro em tempo real de
medicamentos, materiais, pedidos de exames e a possibilidade de visualização de
laudos, resultados laboratoriais, imagens médicas, sinais vitais e indicadores
assistenciais diretamente no POC.
O projeto foi conduzido pela equipe de TI em parceria com o
departamento de engenharia do hospital e, para romper barreiras culturais, teve
participação fundamental dos médicos da unidade de terapia intensiva (UTI) na
etapa de avaliação da usabilidade e funcionalidade da ferramenta. A solução opera
há seis meses. Atualmente, oito carros percorrem os corredores das UTIs
cirúrgicas, unidades de internação e pronto-socorro do InCor. Pelas contas do
CIO, hoje há um dispositivo para cada dez leitos, pois o equipamento pode ser
compartilhado com diversos pacientes.
De acordo com o diretor, a iniciativa foi patrocinada pela Dell
e apoiada sob o âmbito da Lei de Informática. “Tínhamos recursos de pesquisa e
desenvolvimento e fizemos um protótipo”. O auxílio da fabricante de
computadores permitiu escalar o projeto, que consumiu aproximadamente R$ 150
mil. Ao todo, cinco pessoas se envolveram no trabalho, três destas do time de
TI do hospital, que possui 32 funcionários na área de tecnologia.
Este é o segundo ano que As 100+ Inovadoras no Uso de TI contempla a categoria PME, voltada
para empresas com faturamento inferior a R$ 250 milhões.
Confira o especial completo sobre a nona edição de As 100+ Inovadoras.