Há dez anos na empresa, onde estruturou a TI, Raposo mostra como o desenho de uma arquitetura tecnológica fez a diferença para seu trabalho
Do ingresso como gerente de TI até hoje se passaram dez anos de Redecard. Alessandro Raposo ocupa o posto de diretor de TI da companhia há quatro anos e, desde março de 2009, responde também pelas operações da processadora. Ao longo deste tempo, o CIO presenciou uma revolução no mercado brasileiro de cartões de débito e crédito. O volume de transações mantém crescimento a uma taxa anual de 20%. A tecnologia surge cada vez mais fundamental neste contexto. Para se ter uma ideia, a companhia capturou R$ 36,8 bilhões em transações só no terceiro trimestre de 2009. Na entrevista que segue, o executivo conta como estruturou a área, fala sobre os desafios que virão com o fim da exclusividade do mercado onde atua e explica por que o desenho de uma arquitetura tecnológica fez a diferença para seu trabalho ao longo da década.
InformationWeek Brasil – Quais são os principais projetos que você tocou à frente da TI da Redecard ao longo destes dez anos?
Alessandro Raposo – O marco foi o downsizing da suíte de captura. Um aplicativo de missão crítica em ambiente risk que, na época, era um dos sistemas transacionais que processavam mais volume no mercado brasileiro. Agora, estamos fazendo a troca para uma plataforma mais nova. Lá atrás, ele foi projetado para fazer cem operações de cartão por segundo e, hoje, está pronto para 1,2 mil por segundo. Ao longo dos anos, conseguimos escalar este sistema sem crescer em custo. Do lado mais estratégico, introduzimos a governança de TI baseada em Cobit há cerca de três anos, o que trouxe um grau de maturidade sem igual para a área. Outra iniciativa-chave, mas que é cíclica, se trata da arquitetura tecnológica. Em 2002, trabalhava como diretor de arquitetura desenhando como a Redecard deveria estar em termos de sistema. Quando assumi a TI, há quatro anos, parte do projeto já estava implementada. No ano passado, fizemos um refresh de todo esse plano de trabalho para implantar uma nova arquitetura em função dos desafios de mercado que vemos pela frente.
IWB – Nesse tempo, a demanda também sofreu alterações
Raposo – A questão da gestão de demanda também mudou completamente a forma como as áreas de negócio enxergam a TI. Criamos um comitê para identificar quais as oportunidades e, a partir disso, demos um pontapé a um a nova abordagem para não sermos apenas um prestador de serviço e sim uma área mais consultiva que trabalha para impulsionar o negócio. Temos um budget centralizado gerido por esse comitê que abriga todos diretores de áreas de negócio. Procuramos gastar o dinheiro para trazer um bom retorno ao business e com isso conseguimos fazer um alinhamento por intermédio da área de TI.
IWB – Ao longo de todos esses anos, o negócio da Redecard mudou?
Raposo – O que mudou foi a forma de fazer negócio. Hoje, há um uso mais intenso de tecnologia. Temos presença em todos municípios brasileiros, atendemos mais de 1,3 milhão de estabelecimentos comerciais por meio de uma solução que processa mais de 1,8 bilhão de transações por ano. Nesse contexto, a tecnologia não pode parar em momento nenhum. O que evoluiu nos últimos dez anos decorreu do aumento crescente de volume.
IWB – Ninguém mais carrega cheque e pouca gente tem consigo um grande volume de cédulas. Como vocês se preparam para atender à demanda sempre crescente?
Raposo – Procuramos desenvolver uma habilidade forte de integrar tecnologia. Isto significa, também, juntar capacidades. Para capturar este volume de transações apostamos em uma estrutura escalável, rodando em vários provedores de serviço, em diferentes geografias. Pelo lado de telecom, temos pontos de presença em diversas localidades do País, que trazem as operações para dois data centers terceirizados, em São Paulo e Campinas, que operam ao mesmo tempo. As transações chegam e são processadas metade em um e metade em outro para garantir disponibilidade e contingência.
IWB – Como pensar a TI no contexto do dinheiro cada vez mais “virtual”?
Raposo – Estamos antenados ao que vai acontecer no futuro. A Redecard é uma das primeiras empresas a investir em larga escala e ter base considerável de transações operadas por intermédio do celular. Isso é concreto. Procuramos sempre observar a tecnologia em prol dos conceitos mais importantes de cada segmento dentro de preceitos como conveniência, segurança e velocidade da operação. Capturamos isso em cima do planejamento estratégico de TI. Preciso ver onde a empresa quer chegar e qual o desafio de negócio. Isso serve de insumo para estruturar um trabalho de três anos. Preciso me antecipar.
IWB – Vocês lançaram um software para celular destinado aos revendedores de produtos porta a porta. Qual foi a participação da TI?
Raposo – Há uns três anos, conversando com o time de produto, identificamos que o celular seria uma tecnologia interessante para atender ao desafio de negócios para entrar no novo segmento [o de porta a porta]. Começamos a explorar como viabilizaríamos o lado tecnológico. Construímos um protótipo em semanas para conceitualizar a captura de informações. Os requisitos vieram com o desenvolvimento do case, quando chamamos os players da cadeia de valor para compreender como desenvolver esse business novo. Não é nosso papel criar algo que venha a conflitar com o modelo existente.
IWB – Você acha que o celular mudará o modelo de negócios da Redecard?
Raposo – De forma alguma. Temos sempre de levar em consideração que as entidades da cadeia de pagamento são as mesmas. A tecnologia é um facilitador da relação. Quando você olha a história do mobile, 100% dos cases que falharam procuraram fazer a carreira solo, não respeitando a existência de entidades que geram esse tipo de equilíbrio devido a suas habilidades.
IWB – Vocês participam da definição de desenvolvimento da ponta?
Raposo – Tenho um time de pesquisa e desenvolvimento para rastrear mundo afora e ver aquilo que pode se conectar à estratégia da companhia, trazendo conceitos para testar, desenvolver com os fabricantes, apresentar para as áreas de negócio e tocar o projeto. Hoje, cinco pessoas fazem esse processo. Não sei dizer quantas tecnologias rastreamos anualmente, mas colocamos em prática, nos últimos 18 meses, três soluções: uma para comércio eletrônico, uma de cartão sem contato e outra para celular.
IWB – Como está estruturada a área de TI da companhia?
Raposo – Me reporto diretamente ao CEO e cuido de operações e tecnologia. Quando olho só a parte de TI tenho outros três diretores abaixo de mim e uma estrutura de 140 funcionários.
IWB – De uma forma geral, a Redecard programou investimentos de R$ 170 milhões ao longo de 2009. Quanto disto é para TI?
Raposo – Esse valor é o guia de todo investimento da companhia. Grande parte disto está voltada para o lado de tecnologia, mas contempla a aquisição de equipamentos da operação, como também novos sistemas e aplicativos.
IWB – Há um movimento importante no setor para o fim da exclusividade de cartões. Isto impactará você de alguma forma?
Raposo – Acho que impacta, um pouco, na pressão das áreas de negócio para aumentar o time to market. É natural.
IWB – Mas o fim da exclusividade significa acirramento da concorrência e compartilhamento da infraestrutura com novos players.
Raposo – A Redecard já é interoperável com outras bandeiras, menos com a Visa, mas não por questões técnicas. Porém, uma vez terminada a exclusividade, estaremos prontos. Além de Mastercard e Diners, temos operações de private labels e vouchers diversos do mercado brasileiro.
IWB – Como você enxerga o futuro da TI da Redecard?
Raposo – Vamos trabalhar muito a atualização tecnológica voltada a sistemas. Procuramos habilitar novas formas de fazer tecnologia. No ano passado, terminamos um trabalho em cima de SOA [arquitetura orientada a serviço, na sigla em inglês]. Agora, olhamos para frente para potencializar o uso destas plataformas. Enxergamos também o lado de streaming computing, pois o mundo será cada vez mais online e queremos uma transação de ponta a ponta. Vejo a TI habilitando este tipo de coisa.
IWB – Você fala bastante sobre negócio.
Raposo – Gosto de falar de business. Para as próprias áreas de negócio é difícil compreender um linguajar muito técnico. Apesar de ter um background técnico, procuro fugir um pouco disto. Não adianta repetir o jargão do alinhamento da TI com negócio. Não é por aí. A TI é uma área de negócio. Outro papel importante é ser o catalizador. Hoje, os projetos acabam passando, em algum momento, pelo departamento. Quando você maximiza isto, como grande ouvinte, consegue potencializar os resultados.
IWB – E quando você acha que conseguiu que a TI da Redecard fosse reconhecida como parceira de negócio?
Raposo – Acho que a partir da abertura de capital [em julho de 2007]. Depois do IPO, começamos a mudar um pouco a forma como a tecnologia era percebida pelo negócio. Os processos que fizemos para a oferta pública de ações deu este tipo de respaldo, como governança, controle e desenhos muito bem-montados. A partir daí, comecei a trabalhar o lado de satisfação do cliente e a colocar meu grupo mais presente nas áreas. Em questão de um ano tínhamos um reconhecimento muito intenso.
IWB – Questões mais “convencionais”, tipo sistemas de BI, CRM e ERP, estão na sua pauta?
Raposo – Isso é algo continuo. Temos um ERP no ar há três anos. CRM é um projeto importante e estamos olhando para uma atualização, assim como BI. Implantamos, recentemente, um CRM para força de vendas e os usuários estão encantados. Mas isso faz parte dos 200 projetos que tocamos anualmente. Cada iniciativa destas é encarada como de negócios.