Quando recebeu a notícia de que sediaria a Copa a África do Sul arregaçou as mangas e deu início a uma modernização jamais vista
O relógio no site oficial segue em contagem regressiva para o pontapé inicial para a Copa do Mundo 2010. O tempo é opressor. A organização corre para entregar tudo dentro do prazo. Algumas coisas já rodam, outras passam por testes e outras, ainda, necessitam ajustes. A meta é deixar tudo em ordem até 11 de junho (e manter o desempenho impecável nos 30 dias seguintes). A África do Sul teve seis anos para se preparar para sediar um dos maiores eventos esportivos do globo. “Estaremos prontos”, garante Phumlani Moholi, diretor de TI e telecom do comitê organizador local (LOC, na sigla em inglês). De fato, o país passa por um período de modernização único em sua história.
O CIO assumiu as estratégias de TI do evento em junho de 2008 e aproveitou a Copa das Confederações, no ano seguinte, para ver em que pé andava a infraestrutura tecnológica e de telecomunicações do país para o Mundial. Encarado como um bom teste e uma chance de conferir experiência ao time organizador, a prévia ajudou a dimensionar acertos e encontrar pontos para promover melhorias, afinal, ainda restavam 12 meses para colocar tudo no lugar.
Estarão disponíveis aproximadamente 3 milhões de ingressos para os 64 jogos da Copa. A África do Sul calcula que o evento criará cerca de 129 mil empregos e incrementará em 21 bilhões de rands o Produto Interno Bruto, com impacto positivo direto de 0,6% no PIB projetado para 2010. O retorno estimado em tributos gira na casa dos 7,2 bilhões de rands. Estimativas apontam para um fluxo de 350 mil visitantes, gastando um total de 9,8 bilhões de rands nas quatro semanas do campeonato. As projeções apontavam que o governo sul-africano investiria mais de 1,5 bilhões de rands em TI e telecom para suportar o evento. A Copa, como um todo, consumiria recursos na casa dos 30 bilhões de rands.
Especial Copa 2010: os bastidores da TI no Mundial da África
Quando o LOC nomeou Moholi – até então, ele era CIO da empresa de telecom MTN South Africa – como líder de TI da Copa, o mercado sul-africano reagiu de forma diversa. Analistas apontavam que o diretor encontraria desafios relativos à organização e à governança, pois havia sensação de que o comitê organizador pensava que o evento estava a quatro anos de distância, passava por muitas desavenças internas, que, de certa maneira deram a tônica política dos bastidores. O conselho para o executivo, diziam, era desapegar-se um pouco das escolhas técnicas para manter foco nos objetivos “de negócio” do Mundial. Com o calendário como um adversário a ser batido, a mentalidade empresarial deveria prevalecer.
Mas, entre os desafios, o diretor precisaria ajustar a infraestrutura para a interconexão entre os dez estádios (veja gráfico na pág. 72) que receberão jogos e o centro de mídia do evento (International Broadcasting Center ou IBC). A título de comparação, a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, foi vista por 26,3 bilhões de telespectadores. A organização local da Copa da África espera superar estes números. Os contornos se acentuam se considerarmos que o Mundial será intensivamente transmitido em alta definição para o mundo inteiro e algumas emissoras programam jogos em 3D.
Suporte a todo o resto
“O grande mote não é TI. Aliás, ela é a menor parte investimento”, avalia Robson Calil Chaar, um dos responsáveis pelo grupo da Deloitte dedicado à Copa do Mundo de 2014, no Brasil. De acordo com ele, os requerimentos tecnológicos estão basicamente relacionados à transmissão dos jogos e em proporcionar condições para o trabalho da mídia. “Mas o que toca a tecnologia é muito mais do que isto; passa por mobilidade urbana e gestão de crises”, acrescenta o especialista que visitou a África do Sul após a Copa das Confederações e identificou avanços latentes em infraestrutura aeroportuária e mobilidade urbana. Os impactos positivos são consideráveis e a modernização emerge. No comparativo anual, o setor de telecom evoluiu 2,4% em 2009 naquele país.
O Gartner prevê que o mercado sul-africano de TI cresça 6% ao longo de 2010. A consultoria estima que, no ano passado, as tecnologias movimentaram US$ 24,6 bilhões. A expansão será puxada por negócios com software (8,3% sobre 2009), serviços (7,7%), hardware (5,5%) e telecomunicações (5,4%). O reflexo da Copa impulsionará a venda de computadores e oportunidades de negócio aos provedores de serviços de gestão de documentos. Isto sem contar nos retornos intangíveis propiciados por questões como, por exemplo, expansão das redes de fibra e construção de backbones.
Uma pesquisa divulgada pela Fifa no começo de 2009 mostrava um povo sul-africano entusiasmado. Dentre as vantagens reconhecidas na Copa, 87% dos entrevistados acredita que o evento trará avanços estruturais em aspectos como estradas, transporte e telecomunicações. Na imprensa, o presidente do país, Jacob Zuma, afirmou que o Mundial culminou no maior investimento em infraestrutura da história da África do Sul. Dentre as 17 garantias exigidas pela organização do campeonato figuram questões relativas a TI e telecom. Justamente por isto, o governo acredita em redução de custos de telecomunicações e ampliação da capacidade de banda larga.
“A África do Sul nos surpreendeu positivamente”, afirma Carlos Octávio de Alexandre Queiroz, diretor de operações, tecnologia e planejamento da central de informática, administração e patrimônio da Rede Globo, que visitou cidades-sede para ajudar a mapear as demandas locais e traçar planos de suportar a cobertura do evento. “O que percebemos é uma rede local é muito boa em velocidade de tráfego e área de cobertura”, completa. A emissora enviará 225 profissionais para a África do Sul, dos quais sete são de TI. Além disto, a empresa embarcou três servidores para lá e dedicou outros seis, que permanecerão aqui no Brasil.
Fora da TV
Tirando a infraestrutura, há todo um aparato de sistemas para gerir um evento do porte da Copa do Mundo. Grande parte fica sob encargo da indiana Satyam que, no fim de 2007, fechou um contrato com a Fifa para prover TI aos mundiais da África do Sul e do Brasil. A companhia atua em frentes que vão desde o desenvolvimento do sistema de gestão do evento até o gerenciamento e manutenção da intra e extranet da entidade máxima do futebol mundial.
Nesse intervalo de tempo, a provedora passou por maus bocados e quase faliu devido à postura antiética de seu fundador, que inflou balanços. Todavia, conseguiu se reerguer e manteve os trabalhos depois de ser comprada pela também indiana Mahindra. “Temos um time de suporte a infraestrutura e aplicações. Neste momento, só na África do Sul, são 150 funcionários de TI trabalhando”, dimensiona Alberto Rosati, diretor-geral da companhia para a América Latina.
A equipe da provedora atua na África do Sul há dois anos e deve voltar para seus países de origem apenas após setembro de 2010. Na época da entrevista, no início de abril, o executivo citava que havia muitos desenvolvedores trabalhando e que o projeto encontrava-se na fase de testes. Nas semanas dos jogos, este perfil de colaboradores dará lugar a profissionais de suporte.
Os sistemas criados pela Mahindra Satyam controlam quase tudo da Copa. Desde o gerenciamento dos colaboradores e voluntários, passando por materiais e espaços, controle de transporte e logística. “Tudo que envolve a gestão foi feito por nós”, resume o executivo, que não revela números, mas classifica o contrato de “interessante”. “É um projeto de um porte bom, com engajamento de 200 pessoas”, ilustra, citando como ponto positivo a visibilidade que a marca ganha.
Outro fornecedor da Fifa é a suíça Match Services AG. Com contrato também até 2014, a companhia provê soluções de venda e distribuição de ingressos, além de acomodações e hospitalidade. Em comunicado no site da entidade organizadora da Copa do Mundo, a companhia anuncia, inclusive, a criação de uma subsidiária em território brasileiro para gerenciar e operar localmente as iniciativas para 2014.
Assim como o CIO, Phumlani Moholi, usou a Copa das Confederações para ajustar a estratégia, a Satyam pretende adotar a mesma postura no Mundial da África do Sul já de olho na Copa verde-amarela. Para tanto, a subsidiária nacional enviará 20 profissionais brasileiros para trabalharem na parte de suporte. A experiência serve como um início do projeto do evento de 2014. “Esse grupo fará parte do time que trabalhará aqui”, afirma o diretor, projetando grandes evoluções na parte tecnológica dentro de quatro anos.
Na visão de Rosati, o desafio primeiro encontrado foi delimitar o escopo do que estaria no sistema e como integrar a ferramenta a terceiras partes como Fifa, Match e o LOC. “Outra questão crítica é o dimensionamento de toda a infraestrutura para que ela ocorra de maneira plena durante o evento.” A empresa simulou muitas possibilidades. “Em última instância, o suporte durante a Copa será fundamental para o sucesso do projeto”, comenta o diretor, citando que o trabalho de dois anos depende de como tudo correrá em apenas 30 dias de evento.
Agora é torcer para que, além de um bom desempenho da Seleção Brasileira, seja possível tirar boas lições da Copa na África do Sul, replicando os acertos e evitando erros, para quando os olhos do mundo estarão no Brasil, em quatro anos.
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