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Sonia Guimarães

Sônia Guimarães, do ITA: a física que inspira nova geração de cientistas negras

“Os semicondutores serão responsáveis por todo o desenvolvimento tecnológico do futuro.” Era 1970 quando um professor da UFSCar fez essa previsão na sala de aula. Entre os estudantes que ouviram essa profecia estava uma jovem que acabara de descobrir sua paixão pela física: Sônia Guimarães. Ela não apenas acreditou nessa visão. Ela a transformou em […]

Publicado: 05/03/2026 às 19:51
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8 minutos
Sonia Guimarães. Créditos: Larissa Isis/Divulgação
Construção civil — Foto: Reprodução

“Os semicondutores serão responsáveis por todo o desenvolvimento tecnológico do futuro.” Era 1970 quando um professor da UFSCar fez essa previsão na sala de aula. Entre os estudantes que ouviram essa profecia estava uma jovem que acabara de descobrir sua paixão pela física: Sônia Guimarães. Ela não apenas acreditou nessa visão. Ela a transformou em sua missão de vida. 

Hoje, aos 67 anos, professora associada do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e primeira mulher negra doutora em Física do Brasil, Sônia pode olhar para trás e constatar: sua intuição científica foi profética. Os semicondutores estão no centro da revolução da inteligência artificial (IA), dos smartphones, da computação quântica, tudo o que ela já antecipava décadas atrás. 

Leia também: “Escolhi a tecnologia, porque era a profissão do futuro”, afirma Simone Okudi

O acaso que mudou o curso

A trajetória de Sônia começou com uma decisão aparentemente trivial. Aos 16 anos, morando em São Paulo, escolheu estudar no Liceu de Artes e Ofícios não pelo prestígio da instituição, mas pela liberdade que isso representava. “Achava tão chique ir para a escola de ônibus”, conta, rindo da própria ingenuidade. “Podia circular pela metrópole, frequentar os cinemas do centro, às vezes até cabulando aula”, confessa. 

Cursou edificações por esse motivo aparentemente fútil, sem imaginar que aquela decisão traçaria uma das trajetórias científicas mais relevantes do País. Quando chegou o momento do vestibular, seguiu o conselho do professor do cursinho de preencher todas as opções. Após listar as engenharias, restavam três vagas. “Falei: física é bem interessante”, e acabou entrando no curso. 

“Dos 50 estudantes de física, só cinco ou seis eram meninas. Mas na minha vida inteira éramos poucas em exatas, então nem reparei”, lembra. O que ela não sabia é que estava prestes a se tornar pioneira em território duplamente hostil, como mulher e como pessoa negra. 

No segundo ano de física, tudo mudou. Nas aulas de física moderna, Sônia descobriu as equações de Maxwell, operadores matemáticos que explicam a origem da luz e de todo o espectro eletromagnético. “Sempre fui muito boa em matemática. Ver um operador matemático explicando fenômenos tão fundamentais foi fascinante.” 

Foi também nesse período que conheceu os semicondutores por meio de um professor, que já alertava sobre a importância futura desses materiais. Sônia mergulhou completamente no tema. “Toda minha carreira acadêmica e profissional — mestrado, doutorado, pesquisas — girou em torno dessa área. Nunca mais quis mudar.” 

A profecia se cumpre

Décadas depois, a visão de Sônia se revelou extraordinariamente precisa. Os semicondutores são hoje a espinha dorsal da revolução digital, da inteligência artificial à internet das coisas. Durante sua carreira, ela desenvolveu pesquisas fundamentais em sensores de radiação infravermelha, área estratégica para aplicações em defesa e tecnologia aeroespacial, resultando em patentes importantes para o País. 

“O interessante da física é que ela explica desde fenômenos cotidianos até tecnologias revolucionárias”, explica. “Um dispositivo microeletrônico combina princípios físicos fundamentais com aplicações práticas transformadoras.” 

A experiência de Sônia também a tornou uma crítica feroz da dependência tecnológica brasileira. “Em determinado momento, fecharam-se todas as fábricas de semicondutores, o centro tecnológico de Campinas que produzia dispositivos microeletrônicos”, relembra com pesar. “Tudo sob a justificativa de que era melhor comprar de fora. Isso foi prejudicial.” 

A pandemia expôs a fragilidade dessa estratégia quando a China, principal fornecedora, não conseguiu atender à demanda mundial. “Ficamos sem dispositivos. Precisamos investir em ciência. Não é gasto, é investimento na nossa soberania”, enfatiza. 

A próxima revolução: grafeno

Recentemente, Sônia se interessou por uma nova fronteira que pode ser ainda mais transformadora que os semicondutores: o grafeno. Durante uma defesa de tese, ouviu que esse material baseado em carbono supera o silício em propriedades fundamentais. 

“O grafeno é duzentas a quatrocentas vezes mais condutor que materiais tradicionais e ainda é transparente. Imagine células solares feitas com material condutor e transparente, toda a energia solar recebida seria transformada em energia elétrica”, entusiasma-se. 

Para ela, o grafeno representa a próxima revolução tecnológica. “É o que o silício foi nos anos 1970. Quando conseguirmos produzir em escala, as aplicações serão extraordinárias. O computador quântico que vai elevar a inteligência artificial é todo baseado em grafeno.” 

Quebrando barreiras, inspirando gerações

Embora tenha sido pioneira em ambientes tradicionalmente homogêneos, Sônia celebra os avanços recentes na diversidade. Este ano, 49 pessoas que se autodeclararam pardas e pretas ingressaram no ITA, um marco histórico para a instituição. 

“Mudanças importantes estão acontecendo. Eu nunca imaginei que fosse ligar a televisão e ver uma pessoa preta fazendo propaganda de creme dental, de roupa, de cabelo. Isso eu nunca sonhei”, diz, demonstrando como as transformações sociais a impressionam. 

Mas ela também identifica obstáculos persistentes. Um dos maiores é a defasagem no ensino básico, especialmente em matemática. “O cálculo se tornou um grande filtro nos primeiros anos universitários. Instituições renomadas relatam altos índices de evasão nos cursos de engenharia por dificuldades matemáticas.” 

Uma das iniciativas de que Sônia mais se orgulha é receber anualmente estudantes de escolas públicas em suas aulas no ITA. Jovens do ensino médio assistem a demonstrações de física instrumental, muitos pela primeira vez. 

“É emocionante ver o interesse deles. Em São José dos Campos, o ITA é como o céu: ‘nunca vou entrar lá’. Quando esses são-joseenses entram no ITA para assistir a uma aula, é como se estivessem entrando no templo sagrado”, descreve. 

A dinâmica é transformadora para todos os envolvidos. “Meus alunos de graduação têm de explicar conceitos complexos de forma acessível. No final, todos saem enriquecidos da experiência. Os visitantes fazem milhões de perguntas, e meus alunos descobrem que não são ‘nojentos’ como pensavam, são gente como a gente.” 

Ao longo da carreira, Sônia desenvolveu resiliência para lidar com ambientes onde precisou provar sua competência repetidas vezes. “Alguns questionamentos fazem parte da jornada acadêmica. O importante é manter o foco na excelência do trabalho”, pondera. 

Suas mentoradas enfrentam desafios similares. Uma estudante de engenharia eletrônica ouviu comentários desencorajadores logo no primeiro dia de aula. Outra teve dificuldades com um orientador que não respeitava suas práticas religiosas e tentava interferir em suas decisões pessoais. 

“Essas situações precisam ser reportadas às instâncias adequadas. Não podem ser normalizadas”, orienta com firmeza. 

Ser referência

Entre suas mentoradas, uma história a marca especialmente. Bruna conseguiu entrar duas vezes no Instituto Militar de Engenharia, mas questões familiares impediram que cursasse. Quando passou no ITA, a 92 quilômetros de casa, conseguiu o apoio necessário. 

“Ela me ligou e disse: ‘Só entrei porque você disse que eu poderia entrar onde eu quisesse.’ O sonho dela é ser física. Ela está fazendo engenharia eletrônica, mas cursou todas as disciplinas de física possíveis, porque o ITA oferece formação complementar na área.” 

Bruna representa a razão pela qual Sônia decidiu não se aposentar em 2019. “Foi o primeiro ano das cotas raciais no instituto. Eu queria dar aula para estudantes que se pareciam comigo. Valeu a pena ter ficado.” 

Para jovens negras interessadas em ciências exatas, Sônia oferece conselhos práticos e motivacionais: “Preparem-se bem matematicamente desde o ensino médio. Vão atrás daquilo que vocês querem, não o que outros esperam de vocês.” 

“Se alguém disser que vocês não vão conseguir, usem isso como combustível extra. E se uma pessoa que vocês amam disser isso, é porque ela tem receio de vocês se decepcionarem. Não conseguiu na primeira tentativa? Analisem o que pode melhorar e tentem novamente”, encerra. 

*Texto originalmente publicado na Revista IT Forum

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