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Jornalismo precisa revalorizar o pensamento para combater o achatamento crítico digital

Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas nunca fomos tão manipulados. Em 15 anos, as big techs tomaram de assalto o debate público, sem qualquer contrapeso democrático, guiadas pela busca de lucro que atropela até o bem-estar dos usuários. Enquanto isso, o jornalismo, a instituição democrática mais talhada para impedir abusos de poder, perdeu seu […]

Publicado: 05/03/2026 às 16:28
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7 minutos
Jornalismo precisa revalorizar o pensamento para combater o achatamento crítico digital
Construção civil — Foto: Reprodução

Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas nunca fomos tão manipulados. Em 15 anos, as big techs tomaram de assalto o debate público, sem qualquer contrapeso democrático, guiadas pela busca de lucro que atropela até o bem-estar dos usuários. Enquanto isso, o jornalismo, a instituição democrática mais talhada para impedir abusos de poder, perdeu seu papel de mediador. O resultado é um ambiente em que a verdade compete com a engenharia do engajamento e, na maioria das vezes, perde.

Esse foi o eixo do evento “O jornalismo entre a sobrevivência e a relevância”, que aconteceu no dia 13, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP. O debate foi construído a partir do artigo “Crise do jornalismo deixou terreno fértil para erosão da democracia”, do jornalista e pesquisador Rodrigo Mesquita, que lá estava.

A Internet comercial surgiu em 1995, com a promessa de ser um bem-vindo canal de comunicação democrático e desintermediado. Mas esse ideal idílico caiu por terra em poucos anos, com as plataformas digitais capturando, com seus algoritmos, desejos e sentimentos de toda a humanidade, transformando-os em uma máquina de convencimento eficientíssima, muito maior que a própria mídia, governos e religiões.

O jornalismo, que até então organizava a informação cotidiana do mundo e promovia o debate para que as pessoas construíssem sua sociedade, ficou paralisado. Por um misto de arrogância e incompreensão de que seu público não aceitava mais informação unilateral, ainda sofre para lhe oferecer uma experiência participativa.

A mídia também é um negócio, com poucas empresas importantes controlando muito do que se noticia. Mas elas obedecem a regras claras de funcionamento, que protegem a sociedade. As big techs, por outro lado, apesar de serem muitíssimo mais poderosas, não cansam de demonstrar seu desprezo por qualquer instrumento democrático que ameace minimamente seus lucros.

Diante disso, passa da hora de descobrirmos quem controla hoje a esfera pública e como fazer com que, seja lá quem for, necessariamente trabalhe para os cidadãos.


Veja esse artigo em vídeo:


“A informação deixou de ser um serviço público e passou a ser um insumo para modelos de negócios baseados na vigilância e na previsibilidade do comportamento humano”, afirmou Mesquita, em sua fala de abertura. Para ele, “o que está em jogo é mais do que a sobrevivência do jornalismo: é a reconstrução das formas de mediação que sustentam a democracia”.

E lembrou que, apesar de as big techs adotarem um discurso de neutralidade, seus algoritmos são exatamente o oposto disso. Eles manipulam o público em escala industrial, para garantir unicamente os seus interesses, recusando qualquer controle.

“Foi brutal a metamorfose das promessas de transparência e liberdade expressiva das redes sociais na disseminação do ódio, dos cancelamentos, da guerra cultural, das narrativas conspiratórias e dos extremos destrutivos”, acrescentou Lucia Santaella, professora da PUC-SP. Segundo a professora, uma autoridade global em semiótica, “tudo isso é aliado à monetização da presença, ao capitalismo comunicacional, que transforma qualquer virtude em manipulação consentida”.

Os diferentes pesquisadores que debateram o assunto em diversas mesas ao longo do dia concordam que essa distopia informacional reforça o valor social do jornalismo, mas reconhecem que ele atua em franca desvantagem. “As grandes redações ainda são referências de verificação e responsabilidade pública, essenciais para o debate democrático”, disse Mesquita. “Mas disputam atenção dentro de um sistema projetado não para informar, mas para reter o usuário no ciclo da monetização.”

“A arrogância impediu que as redações e as empresas entendessem o que vinha pela frente”, afirmou o jornalista Eugenio Bucci, professor da USP. “Mas à parte dessa face econômica e dessa face tecnológica, a crise da imprensa é uma crise de pensamento”, sugeriu.

De fato, quando o papel do jornalismo de ajudar a sociedade a se organizar com informações de qualidade se enfraquece, ele perde parte de sua razão de existir. Isso fortalece os grupos de poder que se beneficiam da desinformação e que, por isso, justamente combatem a imprensa.

Instituições sob ataque

O jornalismo é uma força civilizatória por oferecer elementos para que a sociedade se reconheça, converse consigo mesma e melhore a partir de informações confiáveis. As redes sociais, por sua vez, vampirizam a mesma sociedade, pois dependem de tecnologias de segmentação e de vigilância, que fragmentam a conversa pública e dissolvem o terreno comum da deliberação para construção de consensos.

Uma das maiores tragédias disso é observar diferentes instituições democráticas, como as universidades, representação política e até a Justiça, sendo forçadas a adotar essa lógica distorcida, para não serem alvejadas pelos seus públicos, polarizados e incendiados pelas redes sociais. E o jornalismo também sofre desse problema, quando critérios editoriais sérios são tragicamente subjugados por uma suposta “otimização do noticiário” que garanta audiência.

Leia também: IA redefine como se usa a Internet na “Terceira Guerra dos Navegadores”

Assim, esses pilares sociais vêm sendo carcomidos pelo digital, perdendo sua essência e levando a própria democracia com eles. “Sem dispositivos concretos de accountability, toda a ética corre o risco de ser convertida em mero adereço discursivo, uma fachada moralizante que encobre, sem enfrentar, as estruturas que perpetuam as assimetrias”, afirmou Santaella. “O que se exige, em última instância, é uma prática que não apenas nomeie os problemas, mas que atue sobre eles com densidade política, coerência institucional e compromisso de cada um de nós.”

No mundo todo, e no Brasil com muita força, o meio digital se permitiu instrumentalizar para hostilidades a adversários, ataques ao jornalismo e deslegitimação de instituições. “Uma sociedade que não discute com base na razão e nos fatos os seus problemas comuns começa a discuti-los com base no fanatismo”, conclui Bucci.

Se a imprensa tivesse conseguido manter o seu papel de mediador social, a crise criada pela desinformação não teria sido tão grande. Basta observar os países escandinavos, que teimosamente combinam indicadores altos de qualidade de vida, felicidade do povo, ótima educação e uma imprensa forte e atuante.

Se desejamos resgatar uma sociedade mais civilizada e buscar uma vida melhor para todos, o jornalismo precisa deixar de ser apenas um produtor de conteúdos e retomar seu papel na reorganização da esfera pública em torno de vínculos mais legítimos e mediações mais civilizadas. Isso exige a sua reinvenção, tornando-se mais transparente e interativo, inclusive valendo-se dos recursos digitais, mas sem se submeter à lógica algorítmica.

Devemos entender que os cidadãos, mesmo os de bom nível educacional, não conseguem fazer frente ao controle das redes sociais, e isso tende a se agravar com a inteligência artificial. As big techs disfarçam seus interesses e a resistência feroz a qualquer tipo de regramento como se fossem “liberdade de expressão”. Essa é uma mentira perversa, pois faz muita gente atuar contra seus próprios interesses, em favor dos dessas empresas.

A sociedade precisa se organizar para que essa máscara caia, e os cidadãos possam usar os recursos digitais para seu benefício, sem pagar com sua própria autonomia e até saúde mental. Os mais diferentes atores sociais precisam se engajar nessa causa, incluindo, entre outros, governos e universidades.

O jornalismo, obviamente, tem papel central nisso, mas precisa fazer as suas próprias necessárias transformações. Como disse Mesquita, “essa é, em essência, a tarefa histórica do jornalismo no século XXI: reconstruir as bases cognitivas da democracia em um mundo mediado por máquinas”.

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