Operadoras de conectividade entrarão em choque com integradores de soluções
Antes de falar sobre o futuro, acho importante dar uma recapitulada em como foi 2007. Um dos fatos marcantes foi a disputa entre os mexicanos e os espanhóis para colocar o pé na Telecom Italia. Apesar da decisão também levar em conta diversos fatores não relacionados às operações no Brasil, o impacto seria natural pela participação de todos os envolvidos no mercado local – mais precisamente por causa da operação da TIM Brasil.
Além disso, sem querer assustar, vale lembrar da nacionalização da CANTV na Venezuela, na qual o valor pago à Verizon foi bem menor do que a América Móvil estava disposta a desembolsar. E não podemos esquecer que o Equador mostra que deve seguir o mesmo caminho, tentando cancelar a licença da operadora Porta. Na Bolívia, o discurso de nacionalizar a Entel (Telecom Italia) ficou de lado, por enquanto. No Brasil, o governo continua interessado na criação de uma operadora nacional. Aumenta a cada dia, os rumores da união de Telemar e Brasil Telecom e da possível utilização das redes de energia como backhaul para ligar principalmente os órgãos públicos (escolas, hospitais, administradoras regionais etc.) com acesso banda-larga.
Depois de tanta especulação, a Telemig Celular é agora parte da Vivo. Esta conseguiu resultados positivos relacionados à participação de mercado com o serviço GSM lançado no final do ano anterior. Ela finalmente se tornou nacional e a Oi adquiriu a licença para iniciar sua operação em São Paulo.
Enquanto isso, as operadoras Telefonica e Oi colocaram um pé no mercado de TV a cabo por meio da TVA e Way Brasil respectivamente. A Net Serviços, a Nextel e a GVT continuam investindo em rede e crescendo constantemente. A Net com triple-play nas classes de média e alta renda e a Nextel no corporativo. Apesar de menores do que as incumbents no número absoluto de clientes, elas são maiores em receita média por cliente. A GVT continua empacotando serviços e “roubando” clientes da Brasil Telecom. Mais recentemente, houve a estréia da TV digital e o lançamento da 3G WCDMA pela Claro e a Telemig, ambas utilizando a faixa de 850MHz anteriormente ocupada pelo TDMA.
WiMAX e novas ofertas
Quando este artigo for publicado, os ganhadores dos leilões das licenças de 1.9/2.1GHz já estará definido. Imagino que como grandes vencedores a Vivo, TIM, Claro com licenças nacionais, Oi e Brasil Telecom nas suas áreas de atuação. Apesar da Nextel ter mostrado interesse, e poderia ser o elemento surpresa do leilão, as grandes – Vivo, TIM, Claro, Oi e BrT – devem ter interesse e disponibilidade financeira maior. Além disso, acredito que seria mais provável que a Nextel se interesse mais em WiMax que em 3G. Do lado dos fabricantes de rede, a Ericsson e Huawei provavelmente terão um início de 2008 bem ocupado. A Ericsson deve ser a grande implantadora da migração para o WCDMA nos principais mercados, e a Huawei deve ficar com a implantação em mercados em expansão, não só em 3G mas também em GSM.
Motorola e Nortel devem continuar seu foco na oferta de WiMax, que também é esperado para acontecer em 2008. Apesar dos leilões das faixas de 3.5 e 10.5GHz ainda estarem em discussão, certamente terão as operadoras de telefonia fixa (Telemar, Brasil Telecom e Telefonica) como grandes interessadas. Preocupadas com a substituição do fixo pelo móvel ou portátil (3G e, futuramente, WiMAX) e na tentativa de agregar mais valor aos seus clientes – afinal de contas a portabilidade numérica vem por aí – oferecer IPTV é a grande esperança.
Como o aumento da concorrência na oferta de rede de acesso por variadas tecnologias (3G, WiMAX, ADSL, cabo e satélite), o preço ou os modelos de negócios certamente serão revisados. Conseqüentemente, a demanda de backhaul também será ampliada. Abre-se uma oportunidade para as operadoras que investiram em infra-estrutura como provedores de capacidade. Além disso, empresas procurarão por conteúdo como apelo para massificar e fidelizar seu cliente de banda-larga. Não só pela forma como a legislação está se definindo, mas pela própria demanda local de mais conteúdo nacional.
Da mesma forma, fabricantes de equipamentos colocarão no mercado um portfólio maior de computadores pessoais (laptops e smartphones), tornando a experiência da banda-larga pessoal e sem fio. Com isso, os aplicativos de comunicações unificadas (que possibilitam uma identidade única em diversos equipamentos e serviços pessoais) ganharão espaço. Uma outra estratégia das operadoras será aumentar o foco nos clientes corporativos. As operadoras de conectividade vêm melhorando sua oferta de serviços para aquele que constitui definitivamente o segmento mais importante na análise financeira. Porém, começam a entrar em choque com integradores de soluções. A conseqüência será a formação de ecossistemas de provedores de solução.
Só para esclarecer – mas sem me aprofundar -, estou falando de empresas com afinidade maior em criar soluções complementares, como por exemplo Cisco, IBM, Nokia, NSN ou Microsoft, HP, Nortel, Morotola, entre outras. A “diferença” será que as operadoras, integradores e fabricantes terão que criar ou se posicionar em seus clusters para não ficarem isolados no mercado.
Finalmente, a resposta a uma das perguntas mais questionadas pelos usuários e visitantes do meu blog: Quando o iPhone da Apple estará disponível no Brasil? Críticos de plantão, preparem-se. Como sempre, vão me falar que sou pessimista demais. Mas eu acho que não acontecerá em 2008 por alguns motivos: (1) Não acredito que nem a América Móvil ou a Telefonica aceitarão as condições de compartilhamento de receita com a Apple, como foi realizado com a AT&T; (2) A Apple deve ter a Europa e a Ásia como prioridades antes de olhar para o mercado da América Latina; (3) Nem a loja virtual iTunes, que já existe há um bom tempo em vários países para adquirir músicas e vídeos, está disponível no Brasil por conta de direitos de propriedade, uma questão que ainda vai levar um bom tempo para ser resolvida aqui.
* Luis Minoru Shibata é diretor-geral do Yankee Group América Latina