Déficit no setor de telecom chega a US$ 222 milhões nos primeiros cinco meses do ano
O déficit na balança comercial de equipamentos de TI e telecom – incluindo equipamentos de informática e telecomunicações e seus componentes – cresceu 62,1%, para US$ 6,620 bilhões, de janeiro a maio deste ano, em relação aos US$ 4,083 bilhões do mesmo período do ano passado, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
O último mês trouxe um alerta especialmente ruim para a balança. O déficit de maio aumentou 61,4% em relação ao mesmo mês do ano passado, atingindo US$ 1,463 bilhão depois de ter registrado US$ 907,1 milhões.
O segmento de componentes, que durante toda esta década foi o de maior peso negativo na balança comercial de eletroeletrônicos, mantém em 2008 sua tendência de ampliação de déficit, puxado principalmente pelos semicondutores, que acumularam importações de US$ 1,665 bilhão no ano, um crescimento de 26%.
Mas a novidade registrada, entre janeiro e maio, foi a reversão dos resultados de telecomunicações, setor que exportou mais do que importou nos primeiros cinco meses de 2007 e agora apresenta déficit, de US$ 222 milhões. O segmento tinha registrado um saldo positivo de US$ 44,8 milhões em maio de 2007 e fechou o último mês em déficit de US$ 40,6 milhões.
Mesmo o mercado de telefones celulares, que ainda registra forte saldo positivo, vivencia uma tendência de entrada de aparelhos mais sofisticados no País, que ainda não são produzidos aqui mas estão em demanda ascendente, enquanto as exportações perderam força, caindo 1%.
A chegada da terceira geração (3G) de telefonia móvel é a principal responsável pela reversão do setor de telecomunicações. “Apesar de terem sido anunciados investimentos em [infra-estrutura de] banda larga, os valores envolvidos nos projetos de 3G foram mais significativos. E como é uma nova tecnologia, é importada”, analia o consultor do Yankee Group, Julio Pushel.
Das três fabricantes de equipamentos que ganharam a maior parte dos contratos para construir as redes de 3G das operadoras móveis, Ericsson, Nokia-Siemens e Huawei, apenas a primeira fabrica os produtos necessários para a realização desses projetos localmente.
Segundo informações da Abinee, sempre que surge uma nova tecnologia, as fabricantes atendem à demanda inicial com importações de suas coligadas fora do Brasil. Com a maturação da tecnologia, as encomendas locais são ampliadas de forma gradual e a produção adquire um nível de escala suficiente para justificar a nacionalização da produção.
“Foi assim quando os telefones evoluíram do sistema analógico para o digital, quando se optou pela tecnologia GSM em detrimento das americanas que já estavam no País, TDMA e CDMA, e, mais recentemente, com a evolução das celulares para terceira geração (3G), que se constitui na banda larga móvel.
No período de janeiro a maio deste ano foi constatado um aumento das importações de telecomunicações de 75,2%, saindo de US$ 704 milhões no ano passado para US$ 1,23 bilhão este ano. Motorola na contramãoNa condição de maior exportadora de telefones celulares do País, a Motorola não acompanha o movimento de desequilíbrio progressivo entre importações e exportações. Pelo contrário, continua avançando com seus embarques e registrou, de janeiro a abril de 2008, exportações de US$ 100,3 milhões, um total 15% superior ao embarcado no mesmo período do ano passado.
Segundo o diretor de finanças da Motorola para América Latina, Paulo Freitas, a manutenção do patamar das exportações este ano está em linha com as ações agressivas de busca da produtividade e investimentos em mercados latinos, bem como aos investimentos feitos na fábrica brasileira nos últimos três anos. “A fábrica de Jaguariúna foi concebida para ser um pólo exportador para América Latina e ao mesmo tempo atender ao mercado local. Hoje somos o maior exportador brasileiro de eletroeletrônicos líderes em celulares no Brasil”, afirmou.
Entre os principais destinos dos embarques da Motorola incluem-se a Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Colômbia e países da América Central. “Vamos continuar explorando as oportunidades de expansão na região”.
Enquanto isso, a Nokia, que no ano retrasado transferiu a base de exportações da fábrica de Manaus para uma coligada situada no México, informa não ter abandonado os embarques da Zona Franca de forma integral, muito embora seu foco continue sendo o mercado doméstico, para o qual inclusive já está fabricando um modelo de 3G. De janeiro a maio últimos, a finlandesa exportou US$ 150 milhões, mais que o dobro do ano anterior, quando os embarques totalizaram US$ 72,7 milhões.
Pólo montador
“O Brasil está virando um grande importador de tudo o que é eletroeletrônico. Hoje parece tudo bem porque o saldo comercial das commodities está compensando na balança total, mas está ficando pesado. Sinto que a tendência é de piorar”, afirma o consultor da IT Data, Ivair Rodrigues. “O País está se tornando apenas um montador, e de alguns poucos produtos.”
De volume relevante, são só os computadores, impressoras, monitores e telefones celulares. E mesmo esse pequeno grupo vem perdendo força de exportação. “A Samsung, a LG e mesmo a AOC exportavam monitores. Hoje só a Samsung faz isso e pouco”, diz o consultor.
Questões como a desvalorização do dólar frente ao real, problemas de logística e infra-estrutura pesam para a diminução de exportações.
Reverter a tendência de aumento das importações dos componentes, o que mais pesa na balança, parece ainda mais difícil. “Hoje 90% dos itens de um computador são importações”, conta Rodrigues.
Alguns componentes, como disco rígido e memória de computador, têm uma pequena produção local, às vezes com só uma empresa, insuficiente em abastacer o mercado local.
O governo vem demonstrando nos últimos anos que pretende atrair fabricantes de semicondutores, criando incentivos a instalação de empresas no País, mas a opinião geral de quem acompanha o mercado é de que essa oportunidade já passou. A produção está se concentrando cada vez mais na Ásia e muitos outros países são concorrentes do Brasil, com incentivos agressivos. Nos anos 80, o País possuía duas dezenas de fábricas de semicondutores, e estava à frente de Coréia do Sul e China. “Não sou a favor da reserva de mercado dos anos 80, mas da forma como a abertura foi feita, nos anos 90, não sobrou nenhuma empresa”, afirma Rodrigues.