“Você precisa usar a palavra ‘empatia’ no seu artigo”, foi com essa mensagem que a Dra. Sambhavi Chandrashekar encerrou nossa conversa de quase uma hora, dedicada ao impacto de uma das tecnologias mais relevantes da atualidade, a inteligência artificial (IA), na vida de pessoas com deficiência (PcDs). Pesquisadora, educadora e referência mundial no tema de […]
“Você precisa usar a palavra ‘empatia’ no seu artigo”, foi com essa mensagem que a Dra. Sambhavi Chandrashekar encerrou nossa conversa de quase uma hora, dedicada ao impacto de uma das tecnologias mais relevantes da atualidade, a inteligência artificial (IA), na vida de pessoas com deficiência (PcDs).
Pesquisadora, educadora e referência mundial no tema de acessibilidade digital, ela é líder global em acessibilidade na D2L, empresa canadense de tecnologia educacional. Atua também como vice-presidente do Comitê Técnico de Sistemas de IA Acessíveis e Igualitários da agência Accessibility Standards, do governo do Canadá.
Em entrevista com o IT Forum dias antes do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado neste domingo (21), a recomendação deixada por ela sobre a importância da empatia resume sua visão sobre o assunto: a discussão a respeito da acessibilidade digital não trata apenas de tecnologia, mas de dignidade, autonomia e agência para PcDs.
“O problema não está na tecnologia. O engenheiro não precisa ser ensinado a programar acessibilidade: ele precisa aprender a enxergar com o coração, a perceber que não está vendendo um produto, mas agregando valor à vida de outros seres humanos”, defendeu.
Isso não significa, é claro, que a Dra. Sambhavi não questione o uso dessas tecnologias. Para ela, vivemos uma espécie de encruzilhada quando o tema é a IA. Não há dúvidas de que a tecnologia pode, em muitos casos, representar uma oportunidade ainda maior para o público PcD do que para pessoas sem limitações. Mas há também riscos.
“Elas podem ser deixadas para trás ainda mais rápido do que foram com os computadores ou os celulares, se não fizermos nada”, alerta. Até hoje, vale lembrar, os índices de acessibilidade digital ainda são baixíssimos. Em 2024, apenas 2,9% de 26,3 milhões de sites ativos no Brasil foram aprovados em todos os testes de acessibilidade de um estudo realizado pela BigDataCorp em parceria com o Movimento Web para Todos (WPT).
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Na prática, a IA generativa já tem impactado positivamente a vida destas pessoas. Resumos de conteúdos complexos e extensos, conversões de texto em voz e até legendas automáticas são exemplos de avanços diretos para quem tem deficiências cognitivas, auditivas ou barreiras linguísticas.
Mas a velocidade do desenvolvimento ameaça a inclusão, lembra a pesquisadora. “Se os programas são produzidos dez vezes mais rápido, há menos tempo para pensar em acessibilidade. Isso significa que muitos sistemas simplesmente não funcionarão para PcDs”, afirma.
Dois conceitos aparecem como sinais de alerta. O primeiro é a discriminação estatística. “Dados sobre pessoas com deficiência quase sempre são descartados dos cálculos por representarem números pequenos. Quando não há representação no treinamento, o algoritmo simplesmente não aprende sobre elas – e, depois, exclui candidatos e usuários por não ‘encaixarem’ no padrão”, explica.
O segundo é o dano cumulativo: pequenos riscos, considerados aceitáveis quando vistos isoladamente por avaliadores sem deficiência, somam-se e tornam o sistema impraticável para quem tem múltiplas limitações.
Há ainda a dimensão socioeconômica. O alto preço de dispositivos e serviços de IA, além da exigência de conectividade são desafios. Até preocupações com a privacidade dos usuários precisam ser debatidas. “Se tudo que você fala com um sistema de IA é capturado, se seus movimentos são capturados, se sua deficiência é capturada… Quanto isso vai te afetar?”, questiona. “Não sabemos.”
Para mudar o rumo, ela propõe empatia como prática – e como política. Do lado de quem desenvolve, equipes devem trabalhar com PcDs em todas as etapas. É essencial testar produtos com funcionários com deficiência antes da adoção e, quando necessário, garantir processos manuais alternativos para que ninguém seja obrigado a usar um sistema que não traz benefício e pode até prejudicá-lo.
“Traga pessoas usuárias de leitores de tela, de lupas, de comando por voz. Pague pelo tempo deles. Mostre aos engenheiros como essas pessoas realmente usam o software: isso muda tudo”, afirma. “PcDs não podem ser apenas consumidores de tecnologia. Com as ferramentas e treinamento certos, elas podem ser produtoras”.
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