André Doro demonstra, na prática, como o conhecimento do negócio pode transformar a TI em fator de competitividade.
Entre as prioridades dos executivos de tecnologia, segundo a consultoria Gartner, uma tarefa se recusa a sair da lista: alinhar a tecnologia da informação (TI) aos negócios da companhia. O cenário, diz a empresa de pesquisas, não deve mudar pelo menos até 2012.
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Mesmo gastando tempo e recursos para tentar entender as demandas das áreas de negócios, os CIOs parecem não atingir o objetivo. Um dos principais problemas, de acordo com o Gartner, está na dificuldade das áreas de TI em definir métricas adequadas e, posteriormente, comunicar os resultados de modo que outros profissionais, não familiarizadas com o mundo da tecnologia, entendam.
Em geral, os executivos de negócios têm dificuldade para enxergar o valor da tecnologia por conta da demora em obter os resultados. “Os custos sempre vêm primeiro que os benefícios”, afirma a vice-presidente de pesquisas para América Latina do Gartner, Ione Coco. Por esse motivo, se a área de tecnologia não souber comunicar corretamente o que foi agregado à companhia, terá dificuldade para justificar novos investimentos.
A habilidade de criar um ambiente integrado entre o departamento de tecnologia da informação e as demais áreas de empresa é o que faz o CIO da Electrolux, André Doro, IT Leader na categoria Indústria (Bens de Consumo). O trabalho do executivo permitiu que a fabricante de eletrodomésticos tivesse a agilidade necessária para driblar a recessão e não perder as vendas, mesmo em um momento de forte apreensão por conta da crise econômica.
A transformação
Deixar de ser uma área voltada para execução e manutenção para falar a linguagem dos negócios. Este era o objetivo de Doro para o departamento de TI da Electrolux. O primeiro passo dado nesta direção foi trazer para a tecnologia pessoas de outras áreas da empresa. “É muito mais fácil ensinar a TI para alguém de negócios do que o contrário”, afirma o executivo. Em pouco tempo, os resultados começaram a aparecer.
Um dos principais projetos realizados no ano passado, segundo o CIO, só foi possível justamente pela aproximação das duas áreas. Trata-se de um sistema para controlar o fluxo de matéria-prima no processo de produção dos eletrodomésticos. Com a solução, a empresa evita desperdícios e reduz os custos de fabricação dos produtos, desconto que é repassado para o consumidor. Em um mercado altamente competitivo, esse tipo de inovação pode ser a diferença entre afundar com a crise, ou ganhar mercado depois dela.
O desafio enfrentado pela companhia era entender exatamente a quantidade de matéria-prima necessária para fabricar cada componente dos produtos. O poliuretano, por exemplo, passa por diversas transformações até se tornar uma prateleira de geladeira, ou uma gaveta. Com a exata noção de quanto do material é gasto no processo, além de possibilitar a diminuição do consumo, foi possível aprimorar o nível de estoque, reduzindo ainda mais os custos. Somente com essa ferramenta, a Electrolux economizou cerca de 1,2 milhão de reais em 2008.
Alinhar a área de TI com os negócios também significa dimensionar corretamente o departamento, explica Doro. A empresa conta com 42 funcionários de tecnologia internos, além de outros 178 terceirizados. O executivo explica que a terceirização é usada de forma estratégica. “Tudo o que pode ser colocado como commodity pode ser repassado para um parceiro”, afirma. A capacitação dos colaboradores é outra forte preocupação do CIO.
Inovação em pauta
Os investimentos da Electrolux em tecnologia da informação compreendem, ainda, novos conceitos, a exemplo do software como serviço (SaaS, da sigla em inglês software as a service), modalidade de entrega de TI onde a infraestrutura necessária fica a cargo do fornecedor e o cliente apenas utiliza o sistema por meio da web. A empresa está iniciando um processo para substituir seu sistema de gerenciamento do relacionamento com clientes (CRM, da sigla em inglês customer relationship management).
A nova ferramenta está sendo desenvolvida junto com a Salesforce, empresa americana pioneira no SaaS e uma da principais fornecedoras desse tipo de sistema. Segundo Doro, foram desenvolvidos indicadores de desempenho intuitivos e o sistema permite a utilização de dados externos, como informações geográficas. A solução foi totalmente customizada para a companhia e deve gerar economia de 1 milhão de reais.
Introduzir o conceito de software como serviço em um sistema crítico para os negócios foi uma quebra de paradigma. “A maioria das empresas considera o SaaS apenas para aplicações que não estão próximas do negócio principal”, afirma Doro. Convencer a direção da empresa, no entanto, não foi fácil.
O executivo explica que o primeiro desafio do projeto foi balancear a expectativa dos usuários e os benefícios a serem gerados. Em seguida, foi feito um intenso trabalho de qualificação da solução e do fornecedor. “Fizemos visitas a empresas usuárias e buscamos conhecer clientes anteriores”, diz. Todo o processo foi ajudado pelo fato da equipe de TI estar alinhada às áreas de negócios da Electrolux.