Hoje, Bill Gates é reconhecido como o criador da Microsoft que atua como filantropo. Mas qual será a visão sobre ele daqui 50 anos?
Uma pergunta é inevitável perante a
iminente aposentadoria de Bill Gates: como o fundador da Microsoft será
visto na história?
Como o criador da maior empresa de software do mundo e um
dos maiores responsáveis pelo desenvolvimento da humanidade ou como um barão
monopolista do mundo digital?
Na verdade, Gates pode ser lembrado mais por seu trabalho
filantrópico por qualquer uma dessas coisas – talvez até como o maior
filantropo que o mundo jamais viu. (Acompanhe a cobertura completa da aposentadoria
do Bill Gates na página especial).
Da mesma maneira que Andrew Carnegie, até hoje conhecido por
sua caridade, e não por explorar a indústria de metais, o legado econômico de
Gates pode ser apagado com o tempo por conta da fundação que leva seu nome,
criada por ele em parceria com sua esposa Melinda.
Durante a época dos “barões da indústria”, Carnegie foi uma
figura muito controversa. Nos anos 1870, ele fundou a Carnegie Steel, que se
tornou a maior e mais lucrativa corporação do mundo.
Seu sucesso se deve, pelo menos em parte, aos baixos
salários pagos e ao combate contra os sindicatos. Na infame greve de Homestead,
em 1892, que se iniciou quando Carnegie cortou parte do pagamento de seus
funcionários, sua empresa contratou trabalhadores substitutos e uma pequena
milícia composta por detetives de Pinkerton para protegê-los. Vários grevistas
acabaram feridos e mortos.
Após o incidente, Carnegie foi bastante criticado. Mas, em
1901, ele vendeu a empresa para J. P. Morgan (que a transformou na U.S. Steel)
e embarcou em uma massiva cruzada filantrópica, doando milhares de dólares para
bibliotecas e instituições educacionais e financiando pesquisas científicas e
esforços para promover a paz mundial. No final das contas, dizem, Carnegie teria
doado praticamente todo seu dinheiro.
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De maneira semelhante, Gates já disse que vai doar toda a
sua fortuna via a fundação Bill & Melinda Gates, que está focada
primordialmente em melhorar a assistência médica, especialmente na África e em
outras partes subdesenvolvidas do mundo, e em reduzir a pobreza.
Inicialmente, Gates deu 126 milhões de dólares para a
fundação em 2000 e, em 2006, ele e a sua mulher deram outros 26 bilhões de
dólares. Essa doação transformou Bill & Melinda Gates Foundation na maior fundação
de caridade do mundo. Em março, a fundação contava com ativos avaliados em 37,3
bilhões de dólares, graças também às doações do megainvestidor Warren Buffet, amigo
de Gates que disse que tem planos de doar cerca de 31 bilhões de dólares para a
fundação.
Peter Krass, autor de uma biografia de Carnegie, acha que o
exemplo do magnata do aço impressionou Gates e ajudou na decisão do executivo
de TI em devotar a maior parte do seu tempo para a filantropia após a sua
aposentadoria da Microsoft aos 52 anos.
“Gates confirmou ter lido sobre Carnegie, e também
disse conhecer o famoso ensaio de Carnegie sobre saúde pública,” disse Krass.
Neste ensaio, Carnegie conclui: “The man who dies thus rich dies
disgraced.” (“O homem que morre rico morre desgraçado”, em uma tradução
livre).
“Parece que Gates está seguindo à risca a filosofia de Carnegie,”
acrescentou Krass, dizendo que o co-fundador da Microsoft também está seguindo
o modelo de Carnegie ao se envolver diretamente com o trabalho na Gates
Foundation.
“Carnegie sentiu que precisaria atuar ele mesmo com a o
trabalho filantrópico, por que ele acreditava que se ele sabia a melhor maneira
de ganhar dinheiro, ele também sabe a melhor maneira de gastar o dinheiro.
Aparentemente, Gates também pensa assim”, completou.
Mesmo assim, Krass não está certo se Gates vai ser lembrado
mais por ser um filantropo do que pela força motivadora por atrás do sucesso da
Microsoft. “Não existem empresas chamadas Carnegie, mas há livrarias
espalhadas pelos EUA com esse nome.
É por isso que ele é reconhecido por ter
sido filantropo,” acrescentou Krass. “Mas, passados 50 anos, é
possível que sejam vistos produtos da Microsoft. E, pela maneira que Gates escolheu
para doar seu dinheiro, seu nome não vai estar estampado em vários prédios,
então não estará tão exposto ao público como Carnegie.”
Filantropo único?
Peter Frumkin, professor do centro de filantropia na Universidade
do Texas, EUA, disse que o tamanho da fundação Gates e a estratégia única de
Bill Gates garantem que ele será lembrado como um dos mais proeminentes
filantropos que já existiu.
“O escopo do que ele está fazendo é tão grande que
mandou ondas de choques pelo mundo da filantropia. O valor produzido pela
fundação Gates vai ser enorme e pode obscurecer o fato de ter criado a Microsoft.”
Frumkin diz que Gates é diferente dos outros filantropos não
só pelo montante gigantesco de dinheiro investido, mas pelos métodos que ele
usa. “O que ele faz é eficiente e embasado por dados.”, diz.
“E Gates
apenas foca em problemas que ele acredita que tenham solução com os recursos
que tem. Por exemplo, quando ele viu os gráficos sobre mortalidade em relatórios
do governo dos EUA, ele indicou que gastar uma grande quantidade de recursos na
prevenção de doenças pode fazer a diferença”, completou.
Stacy Palmer, editora da The Chronicle of Philanthropy, jornal
que cobre organizações não governamentais, disse que vê Gates sendo lembrado tanto
como filantropo quanto como homem de negócios. “As mudanças tecnológicas
motivaram as transformações da sociedade. Então, ao menos que ele consiga
acabar com todas as doenças da África, ele vai ser lembrado pelas duas funções,”
disse.
Ainda assim, Palmer diz que a contribuição de Gates à filantropia
será enorme. “A quantidade de recursos que ele está dando não tem
precedentes na história,” disse.
A editora destacou também o fato de Gates ter obrigado a
fundação a doar todo o dinheiro após 50 anos da morte dos dois fundadores. “As
fundações que existem por muito tempo tendem a perder sua efetividade. Gates
queria evitar que isso acontecesse,” Palmer completou.
Um grande criador de
monopólios além da tecnologia?
George Colony, CEO da Forrester Research, não está
convencido que o trabalho de Gates na Microsoft vai aparecer como nota de
rodapé em sua história. “O júri ainda está discussões para saber se Gates
escolheu as causas e os locais corretos para investir seu dinheiro,” disse
Colony. “Nós não saberemos disso nos próximos 10 a 15 anos.”
Gates será visto como “um dos maiores criadores de
monopólios na história dos Estados Unidos,” resumiu Colony. Mas ele não
diz isso negativamente. Ao estabelecer o Windows e o Office como tecnologias
dominantes, Gates “criou um enorme valor na padronização de sistemas. Por
causa dele, não damos valor ao fato de compartilhar facilmente arquivos de
texto, planilhas e outros documentos,” disse Colony.
Colony, contudo, não vê Gates como um visionário em TI.
“A tecnologia criada pela sua empresa não era original, era derivada de
outras. Seus produtos foram sempre muito bons, não fantásticos, e o preço nunca
foi abusivo”, completou Colony.
Para o CEO da Forrester, Gates é um visionário de negócios –
que viu e criou oportunidades de negócios que foram boas para os usuários de
tecnologia assim como para a Microsoft e seu vasto ecossistema de parceiros de
negócios.
“Todos nós nos beneficiamos pelo monopólio que ele
criou. E esse vai ser seu maior legado”, completou Colony.
Preston Gralla – Computerworld, EUA