*Carolina Maestri Você já parou para pensar no que acontece toda vez que armazenamos uma foto na nuvem, fazemos uma busca na internet ou interagimos com uma Inteligência Artificial (IA)? Tudo isso é processado em data centers – estruturas invisíveis no nosso dia a dia, mas absolutamente essenciais para o funcionamento da vida digital moderna. […]
*Carolina Maestri
Você já parou para pensar no que acontece toda vez que armazenamos uma foto na nuvem, fazemos uma busca na internet ou interagimos com uma Inteligência Artificial (IA)? Tudo isso é processado em data centers – estruturas invisíveis no nosso dia a dia, mas absolutamente essenciais para o funcionamento da vida digital moderna.
Com o avanço acelerado da digitalização e, especialmente, com o boom da IA, a demanda por data centers tem crescido de forma exponencial. Esse crescimento está diretamente ligado ao aumento no volume de dados armazenados e à imensa capacidade computacional exigida para treinar e operar modelos cada vez mais sofisticados. O impacto? Um salto expressivo no consumo de energia – e, consequentemente, nas emissões de gases de efeito estufa. Segundo a MIT Technology Review (2023), uma única busca baseada em IA pode consumir até 100 vezes mais energia do que uma pesquisa tradicional no Google.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers já são responsáveis por 1% a 1,5% do consumo global de eletricidade. Além disso, as projeções mais recentes indicam que esse número pode mais que dobrar até 2030, chegando a 945 TWh – o equivalente a quase três vezes o consumo anual do Reino Unido. Nos Estados Unidos, estima-se que os data centers representarão quase metade do crescimento da demanda elétrica do país na próxima década, superando setores tradicionais como aço e alumínio.
A crise climática exige respostas concretas em todos os setores da economia, alinhadas aos compromissos globais de descarbonização, como a meta de emissões líquidas zero da ONU até 2050. Nesse cenário, os data centers – verdadeiros pilares da economia digital – ocupam uma posição estratégica na transição para uma infraestrutura mais limpa, por meio da adoção de tecnologias eficientes, energias renováveis e gestão ambiental responsável.
A boa notícia é que essa transformação já começou. Segundo o ESG Perception Survey da IDC (2023), mais de 70% das organizações já utilizam tecnologias digitais para fortalecer suas estratégias de sustentabilidade – com foco na coleta de dados, monitoramento de indicadores ESG e melhoria de desempenho operacional. E a IA tem se consolidado como uma aliada poderosa: automatizando análises, prevendo riscos e apoiando decisões mais inteligentes e sustentáveis.
É fato que, se mal gerida, a IA pode ampliar o impacto ambiental da infraestrutura digital. Mas e se ela também for parte da solução?
Apesar do aumento no consumo de eletricidade, a IEA aponta que as preocupações com o impacto climático da IA podem ser exageradas. Pelo contrário: a agência prevê que a IA pode contribuir de forma significativa para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa. A adoção em larga escala de soluções de IA já disponíveis pode resultar em uma redução de até 5% nas emissões relacionadas à energia até 2035.
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E é aí que os data centers sustentáveis ganham protagonismo. Quando operada em infraestrutura limpa, a IA pode ser uma grande aliada no enfrentamento da crise climática: monitorando emissões em tempo real, prevendo eventos extremos, otimizando redes elétricas, impulsionando práticas agrícolas regenerativas e acelerando descobertas em energia limpa. Ou seja, os mesmos recursos computacionais que hoje representam um desafio ambiental podem – se bem direcionados – se transformar em pilares de uma solução climática global.
A Microsoft reforça esse compromisso. Em artigo publicado em 2025, a empresa destacou que o desenvolvimento de modelos de IA precisa estar diretamente atrelado a energia limpa, eficiência operacional e transparência. Descarbonizar a infraestrutura digital não é apenas necessário – é urgente.
Esse movimento tem impulsionado uma nova onda de investimentos. De acordo com a Research and Markets, o mercado de data centers sustentáveis deve crescer a uma taxa média de 9,72% ao ano entre 2022 e 2028, impulsionado por regulamentações ambientais e pela busca por certificações como LEED e ISO 50001.
E o Brasil? Está entre os países com maior potencial para liderar essa revolução digital sustentável. Com mais de 80% da matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, o país oferece condições únicas para a implantação de data centers de nova geração com baixíssima pegada de carbono. Segundo a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), o Brasil está entre os cinco maiores produtores de energia renovável do mundo – e tem um dos menores índices de emissões por quilowatt-hora gerado.
Esse potencial já começa a se materializar: parcerias com parques solares e eólicos, contratos de fornecimento de energia limpa e expansão de data centers verdes em várias regiões. A América Latina, rica em recursos naturais e cada vez mais conectada, desponta como protagonista em uma nova era digital – mais resiliente, eficiente e sustentável.
O setor de data centers tem um papel central na construção de uma economia de baixo carbono. Com planejamento, inovação e responsabilidade, essas infraestruturas – antes vistas apenas como grandes consumidoras de energia – estão se tornando aliadas estratégicas na luta contra as mudanças climáticas. Ao alimentar soluções baseadas em IA e operar com energia limpa, os data centers do futuro terão a capacidade de equilibrar avanço tecnológico e preservação ambiental.
A pergunta agora não é mais se precisamos mudar: é quando. E a resposta é clara: o momento é agora.
*Carolina Maestri é Diretora de ESG e EHS na ODATA.
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