A sociedade tem tido muito sucesso ao encontrar maneiras diferentes e criativas de aplicar as novas tecnologias para ajudar a facilitar e simplificar diversas tarefas e processos do dia a dia de profissionais das mais variadas áreas e consumidores com os mais diferentes perfis. Isso tem sido muito positivo para evoluir soluções e ferramentas e […]
A sociedade tem tido muito sucesso ao encontrar maneiras diferentes e criativas de aplicar as novas tecnologias para ajudar a facilitar e simplificar diversas tarefas e processos do dia a dia de profissionais das mais variadas áreas e consumidores com os mais diferentes perfis. Isso tem sido muito positivo para evoluir soluções e ferramentas e entender melhor e acompanhar o comportamento de consumo da população.
Mas as inovações tecnológicas podem ter um outro papel que, ainda que menos comentado, não deixa de ser extremamente importante: o de tornar a vida mais acessível para aqueles que precisam e criar novas possibilidades para grupos que não seriam contemplados sem a ajuda delas.
Um exemplo recente foi o desenvolvimento de um batom inteligente pelo Grupo Boticário em parceria com a CESAR, centro de inovação e pesquisa. A ideia é que o aparelho, por meio da inteligência artificial, consiga mapear a pele dos lábios e diferenciá-la do restante da face com exatidão, o que traria independência para pessoas com deficiência visual ou nos membros superiores na hora de se maquiar.
Esse é apenas mais um caso de investimento em inovação com propósito que tem um potencial enorme de impactar positivamente a vida daqueles com deficiência, trazendo inclusão em aspectos e situações que vão além daquelas classificadas como essenciais e de necessidades básicas.
Ainda que a procura por soluções cada vez mais avançadas e que sejam capazes de atender os desejos atuais sejam o foco das companhias, muitas delas investem nisso principalmente pelo viés do lucro. Devido a isso perdem ótimas oportunidades de atrelar uma mentalidade mais sustentável e preocupada em trazer acessibilidade real para os usuários, o que não apenas ajudaria a transformar o mundo em um local menos desigual, mas também exploraria toda uma comunidade que não costuma ser notada, porém está ávida e animada para consumir produtos que sejam pensados para de fato responder às suas demandas “especiais”.
E vale ressaltar que dentro dessa luta por utilizar a inovação como uma ferramenta para trazer acessibilidade, há uma batalha ainda mais antiga e que já vem sendo travada há algum tempo: a de tornar o acesso à própria tecnologia em si mais acessível. De acordo com relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 1 bilhão de adultos e crianças com algum tipo de deficiência não conseguem acessar instrumentos tecnológicos de apoio. Esse dado é muito significativo e mostra que estamos atrasados nessa questão.
Outro ponto importante é trazer essas pessoas também para dentro dos processos de criação e desenvolvimento dessas soluções, pois só com um olhar mais diverso será possível contemplar a todos. Mas, infelizmente, esse cenário ainda está longe do ideal: segundo uma pesquisa realizada pela Relevo, empresa especializada em recrutamento no setor de tecnologia, apenas 1,6% dos convites das organizações de TI são direcionados para candidatos com deficiência.
Acredito que não alcançaremos um mundo igualitário sem nos atentar a isso. Defendemos com unhas e dentes que a inovação só é verdadeira quando chega para simplificar processos e retirar atritos, mas erramos ao excluir dessa lógica grupos que lidam diariamente com essas deficiências. Precisamos correr atrás do tempo perdido para incluir essas pessoas e transformar verdadeiramente esse ciclo.
* Gustavo Caetano é fundador da Sambatech e Samba Digital