– “Menino, larga o videogame e vá fazer o dever de casa!” – “Já fiz, mãe!” – “Como assim? Você chegou há 15 minutos do colégio!” – “O robô fez o dever para mim!” O nosso bravo estudante, de uma escola do ensino médio da cidade de Nova York, usou para realizar em “tempo recorde” […]
– “Menino, larga o videogame e vá fazer o dever de casa!”
– “Já fiz, mãe!”
– “Como assim? Você chegou há 15 minutos do colégio!”
– “O robô fez o dever para mim!”
O nosso bravo estudante, de uma escola do ensino médio da cidade de Nova York, usou para realizar em “tempo recorde” seu dever de casa o ChatGPT, aplicativo de Inteligência Artificial que produz textos com muito conteúdo sobre temas complexos a partir de comandos de voz! O fabricante do software é a empresa OpenAI, fundada em 2015 pelo Elon Musk com o objetivo de democratizar o uso da Inteligência Artificial, não permitindo o uso majoritário ou exclusivo das aplicações de IA pelos governos. O ChatGPT é gratuito e foi disponibilizado em novembro de 2022 com milhões de downloads nestes poucos meses.
O assombro da mãe do nosso esperto rapaz juntou-se ao de milhares de outras mães nos EUA e levou o Departamento de Educação da cidade de Nova York a proibir o seu uso nas escolas públicas municipais e na elaboração de seus trabalhos para casa.
A polêmica sobre o uso de tecnologias para educação é bem antiga.
Em 1622 o matemático inglês William Oughtred, criou a Régua de Cálculo. Esse dispositivo engenhoso, considerado o tataravô das calculadoras digitais, permitiu que cálculos complexos como exponenciais, logaritmos e raízes fossem realizados de forma simples e imediata. Antes dele esses cálculos levavam dias para serem realizados, com grandes possibilidades de erros.
Imaginem agora os professores daquele período, que levaram toda uma vida fazendo estes cálculos manualmente, como devem ter tratado o tema. Seguramente o proibiram por muitos anos.
No meu curso de engenharia, nos longínquos anos 1970, as calculadoras inteligentes como a da HP e da Texas eram proibidas nas provas de Cálculo Diferencial e Integral e Álgebra Linear. Competição desigual com os alunos que não as tinham, afirmavam os mestres. Mas todos já as possuíamos!
O uso de computadores pessoais em sala de aula levou décadas para ser aceito aqui no Brasil. A justificativa era que o computador acelerava o aprendizado, mas não desenvolvia o raciocínio lógico.
E hoje ainda existe a polêmica sobre o uso ou não de smartphones e iPads pelos alunos do ensino fundamental e médio em sala de aula, embora seu uso já seja aceito de forma majoritária, mas com os devidos cuidados.
Em todos os casos citados, apesar da resistência inicial, justificada na maioria das vezes, a tecnologia acaba sendo incorporada com grande ganho de produtividade dos alunos e de eficácia do ensino. A questão fundamental na polêmica é se as novas tecnologias, como o citado aplicativo de IA, desenvolvem a inteligência cognitiva da mesma forma que o ensino tradicional com quadro negro, giz, caderno, listas de exercício e provas sem consulta.
Estudos feitos por instituições que aplicam o mesmo teste de Quociente de Inteligência (QI) em vários países do mundo há décadas comprovaram que, desde o final da Segunda Grande Guerra em 1945, o QI médio da população mundial vem aumentando. A partir do final da década de 1990, a tendência foi revertida. Nossa inteligência cognitiva vem caindo. Há controvérsias sobre as causas, mas esse ponto de inflexão ocorre justamente quando a internet e os aplicativos mais famosos como os de busca, as redes sociais e os corretores ortográficos começaram a ser massivamente utilizados em todo o mundo! O empobrecimento da linguagem, fenômeno detectado em todo o mundo conectado, é uma das causas da diminuição do QI da população.
Quanto livros por ano nossos jovens estão lendo?
Por outro lado a produtividade mundial dos trabalhadores percebeu um forte aumento a partir do ano 2000, caindo somente em 2008 com a crise do sub-prime.
Resumindo, estamos mais produtivos e menos inteligentes do que nunca. Não devemos, entretanto, deixar essa polêmica nos levar a uma dicotomia: produtividade ou inteligência não podem ser mutuamente exclusivos! Há que se achar um ponto de equilíbrio e usar a tecnologia sem deixar de usar nosso cérebro! Mas não precisa exagerar: não vá tentar fazer de cabeça a raiz cúbica de 1477 elevado a 13ª potência sem calculadora!! Se conseguir me avisa!
* Sergio Basilio é Diretor de Soluções e Inovação da TD SYNNEX Brasil