O executivo partiu para o multisourcing, trocou a cadeia sistêmica e readequou a infra-estrutura
Desde que entrou na Sab Company, uma das maiores companhias brasileira de comércio internacional com faturamento de R$ 1,3 bilhão em 2006, Adriano Aquino implementou projetos que provocaram mudanças radicais na TI. ?Meu primeiro desafio foi destravar a empresa em termos tecnológicos?, conta. Em busca da governança, terceirizou processos que não eram core e com isto reduziu sua equipe de 23 para cinco pessoas. Implementou VoIP e está trocando todos os sistemas ? antes desenvolvidos internamente ? por soluções de mercado. Tudo isto baseando sua plataforma na arquitetura orientada a serviços (SOA). Diretor-executivo de TI, Aquino administra um orçamento anual de R$ 1,7 milhão e também responde pela área de facilites. Aos 39 anos de idade e 18 anos de carreira, com passagem pela Mercosul Assistance, Hospital São Luiz e Hewlett Packard, ele reporta diretamente para o presidente da Sab Company, João Batista de Paula.
InformationWeek Brasil – Quais foram seus primeiros projetos?
Adriano Aquino – Quando entrei, há dois anos, resolvi com a minha equipe trocar a cadeia de sistemas. Exceto o ERP (Datasul), as demais soluções haviam sido desenvolvidas internamente. Estávamos muito focados no modelo de desenvolvimento de software sob encomenda (taylor made) para cada cliente. Então, começamos a pensar na linha de arquitetura orientada a serviços (SOA), na qual reaproveitamos os códigos. O conceito SOA diz que não vale a pena eu ter 20 clientes do mesmo segmento e desenvolver para cada um deles códigos diferentes, porque o custo e o tempo de reposta serão muito maiores para todos.
IWB – Quais as maiores dificuldades da Sab Company hoje?
Aquino – É uma empresa muito nova, com oito anos de mercado, e que cresceu muito rápido. É muito interessante que, ao mesmo tempo em que cresceu muito rápido, ela não se preocupou com a plataforma sistêmica e nem com a integração. Hoje, estamos pensando como fazer mais com menos, por meio da integração com a TI. Dou o exemplo dos bancos, que têm um faturamento estrondoso e estão aumentando os lucros com a ajuda da tecnologia. A SAB tinha muitos processos manuais; e, se tivesse sistemas adequados, não precisaria de toda esta infra-estrutura.
IWB – Diante deste cenário, o que você fez?
Aquino – Meu primeiro desafio foi destravar a empresa em termos tecnológicos. Na minha entrevista com o presidente, percebi este travamento e o medo de usar a tecnologia. Por quê? Uma empresa que cresce muito rápido e gera muitos negócios se depara com o mundo globalizado e muita tecnologia, mas tem pouco tempo para parar e pensar nisto.
IWB – A equipe interna era restrita?
Aquino – Na verdade, por um pouco de tudo. O volume de pessoas até era grande, mas não havia integração com o negócio. Cheguei a ter 21 pessoas na equipe. Não se discutiam novas tecnologias; sempre faltava tempo. Nem se cogitava falar em virtual office, conexão wireless, VoIP ou SOA.
IWB – Isto por cultura da empresa?
Aquino – Sim, a cultura foi uma grande mudança. E você precisa ter uma área de TI inovadora e questionadora para quebrar isto. Quando entrei me passaram a idéia de que as pessoas não iriam aceitar as mudanças. Então, meu primeiro projeto foi adotar VoIP. Eu vinha de 11 anos de call center, no qual minha matéria-prima era o telefone e a despesa de telefonia, o meu o maior gasto. Na Sab, o serviço era terceirizado e decidimos trazer para cá. Fiz uma grande parceria com uma operadora de telefonia fixa (Embratel), que foi muito agressiva nos custos. Uma outra empresa nos ajudou a fazer a negociação. Coloquei a central baseada em voz sobre IP da Alcatel. A economia de telefonia foi de 72%, além da imagem de uma TI inovadora. Tínhamos idéia de payback em dez meses, mas realizamos em menos. Isto foi na virada de 2005 para 2006.
IWB – Como você reduziu a equipe de TI?
Aquino – Hoje tenho cinco pessoas, fiquei só com a equipe de negócios. Terceirizei todas as demais áreas. Foram três grandes linhas de projetos. A primeira foi o projeto de readequação de infra-estrutura da Sab Company. Levamos seis meses nisto e começamos pela parte de telecomunicações, porque envolvia custos e tínhamos a visão clara de que isto ia trazer um benefício enorme para a empresa.
IWB – Este benefício era claro para a direção?
Aquino – Mostrei para a diretoria que não adianta a ação sem a gestão. Normalmente, este é um grande erro do CIO que terceiriza, faz um belo business plan, mas não gerencia para saber se o payback aconteceu. Quando fiz a apresentação do case mostrei a análise do retorno sob investimento com todos os números calculados. Saí da reunião com o consenso de todos de que o projeto era para ontem. As primeiras contas comprovaram a redução de 72%. No plano de negócios, falamos em 50%, no máximo, 60% de redução.
IWB – Quais foram os outros projetos?
Aquino – Os dois projetos, na seqüência, foram mais delicados, porque envolviam pessoas. Fizemos um multisourcing, no qual terceirizamos o máximo possível da área com diferentes players. Analisei com a presidência as áreas de tecnologia que poderíamos terceirizar, como infra-estrutura, segurança, help desk, programação, administração de banco de dados, web e portal de recrutamento.
IWB – O que foi mais difícil?
Aquino – Não passei ninguém da equipe para o terceiro. Quando você parte para terceirização, você busca mais profissionalismo, redução de custo, desempenho e qualidade. Se eu mantivesse as pessoas de um processo que não estava bom, eu só iria transferir o problema de lado. Preferi não fazer, por mais duro que fosse. Qual foi o resultado? Onde eu tinha nove pessoas, hoje, tenho três e não perdi qualidade, pelo contrário, tenho mais processos, gestão, ferramentas e um custo infinitamente menor.
IWB – Como foi mandar estas pessoas embora?
Aquino – Daí vem o lado Adriano. Em todos os casos, desde o primeiro momento, fui transparente, mostrei o real motivo da decisão de trazer mais governança. Em paralelo, trabalhei forte no processo de indicação destes profissionais. Hoje, todos estão trabalhando.
IWB – O que em segurança é mais crítico?
Aquino – Hoje, sem dúvida, é a conscientização das pessoas. É uma empresa muito nova, com média de idade baixa. O maior foco é o lado de pessoas e para isto estou fechando parceria com consultoria para conscientizar os funcionários. Quando você se depara com a falta ética as pessoas não sabem como lidar. Existem várias coisas que não permitimos e temos de nos explicar o tempo todo. O risco para a empresa é muito grande. Não é só a ferramenta, mas também quanto tempo as pessoas gastam com assuntos pessoais. Estudos mostram que as pessoas perdem de duas a quatro horas. Para quem trabalha oito é 20% a 40% a menos.
IWB – E quanto ao vazamento de informações?
Aquino – Hoje, vazar informação é o mais crítico. Tentamos conscientizar as pessoas em direito digital. Em tecnologia, trabalhamos a prevenção e a preparação do ambiente. A gente se preocupa com a ferramenta, como protejo o meu ambiente, antivírus, VPN etc., mas o vazamento sai na conversa telefônica, na rodinha do corredor. O nosso segmento não é diferente de nenhum outro, as pessoas que estão aqui vieram de outra empresa, por exemplo, e tem amizade ou laço de parentesco. Como você vai garantir que esta informação não vai trafegar? Em dois anos, já tive todos os problemas de segurança, de roubo de equipamento a vazamento de informação. Eu acho que é muito mais conscientização e ética do que ferramenta.
IWB – Qual foi o terceiro projeto?
Aquino – Foi a mudança da cadeia sistêmica, a troca do legado. Eu tinha um altíssimo custo de manutenção, um monte de consultores, analistas e programadores para manter uma caixa preta. E qual era o ganho de eu produzir in house uma ferramenta de CRM, se há várias melhores no mercado? Trocamos quase tudo, só fiquei com o ERP (Datasul). E baseamos tudo em SOA. Isto foi a partir de começo de 2006. Estamos com os projetos desde lá e implementando alguns deles.
IWB – Como foi sua experiência com SOA?
Aquino – Nossa vantagem foi que partimos do zero. É diferente de pegar uma empresa multinacional que tenha de mudar tudo, o que levaria anos. Adotamos sistema de comércio internacional, CRM (Microsoft), sistema de propostas comerciais ? plataforma que se integra com o CRM (desenvolvimento nosso em linguagem Dot.Net) ?, e-procurement, BI (MicroStrategy) e sistema de workflow (Datasul). Todos falando um com os outros, que é o princípio de SOA.
IWB – Quanto foi investido?
Aquino – Cerca R$ 1,5 milhão.
IWB – Qual é o seu orçamento de TI? Está aumentando ou diminuindo?
Aquino – Mais ou menos R$ 1,7 milhão. A idéia é diminuí-lo, principalmente, porque já fizemos os grandes projetos. Agora, parto para o modelo de serviços.
IWB – Quais os planos ?
Aquino – O próximo passo é a terceirização do data center. Não quero mais ter infra-estrutura tecnológica comigo. Não há razão para isto. O avanço é muito rápido, não faz sentido comprar uma máquina para ficar aqui depreciando por anos; ela fica obsoleta rapidamente e tem de comprar de novo antes de terminar a depreciação.
IWB – Como você avalia o modelo de serviços?
Aquino – Está maduro, há bons parceiros no mercado. Acho que o futuro será a infra-estrutura como serviços. Ter custos no modelo de serviços é mais inteligente do que em ativos, além de você manter o parque sempre atualizado.
IWB – Que balanço você faz deste último ano?
Aquino – 2006 foi o grande ano de desenvolvimento dos projetos; 2007 está sendo o ano de implementações e, em 2008, vou focar no modelo de terceirização de serviços, buscando serviços de internet data center, reforçar ainda mais os parceiros e consolidar este modelo.
IWB – O fator inovação na Sab parte da TI ou do presidente?
Aquino – Dos dois. O presidente tem muita visão de futuro, de novos negócios; e escolheu bem a equipe. Meu time pensa muito parecido comigo ? eles estão sempre buscando de que maneira podem gerar negócio e receita para a empresa. Esta é a diferença entre alinhar e integrar.