Os data centers já respondem por 2% do consumo global de energia, percentual que deve crescer 16% ao ano até 2028 com a expansão da computação em nuvem e inteligência artificial, segundo o Boston Consulting Group (BCG). Durante o IoT Solutions Congress Brasil 2025, Negar Feher, CEO da Spacedock, apresentou uma proposta radical para enfrentar […]
Os data centers já respondem por 2% do consumo global de energia, percentual que deve crescer 16% ao ano até 2028 com a expansão da computação em nuvem e inteligência artificial, segundo o Boston Consulting Group (BCG). Durante o IoT Solutions Congress Brasil 2025, Negar Feher, CEO da Spacedock, apresentou uma proposta radical para enfrentar esse desafio: migrar os centros de processamento para o espaço.
“Precisamos mover esses centros de dados da Terra para o espaço, onde há energia ilimitada do sol. Não existem ciclos de dia e noite – eles podem funcionar constantemente”, explica a executiva, veterana de 20 anos no setor aeroespacial e mestre em engenharia aeroespacial pela Universidade de Stanford. No espaço, esses centros operariam com energia solar pura, eliminando a dependência de combustíveis fósseis.
A proposta de Negar vai além dos data centers, abrangendo indústrias intensivas em energia que poderiam operar em ambiente orbital com energia renovável constante, transmitindo energia de volta para a Terra através de feixes direcionados.
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Para viabilizar essa visão, a Spacedock (antiga Orbital Outpost X) desenvolve soluções que tornam a infraestrutura espacial mais modular e automatizada. A tecnologia funciona como “um USB-C para o espaço”, permitindo conectar diferentes equipamentos de forma integrada e transferir energia, dados, combustível ou água entre eles.
O sistema realiza operações autônomas de encontro, proximidade e acoplamento, eliminando a necessidade de intervenção humana para conectar equipamentos em órbita. “Você consegue conectar qualquer coisa a qualquer coisa de forma integrada”, detalha. Isso representa uma mudança significativa no modelo atual, onde essas operações exigem controle manual e braços robóticos complexos.
A empresa atende desde pequenas startups que querem enviar sensores IoT até grandes corporações e governos com missões de pesquisa ou espionagem. Oferece também um serviço de “matchmaking”, conectando quem tem carga para enviar com quem possui plataformas disponíveis – funcionando como “Expedia para o espaço”.
A Spacedock busca democratizar o acesso ao espaço, que hoje ainda é restrito por custos elevados. Enviar algo ao espaço custa entre US$ 200 mil e US$ 300 mil por pessoa, mas ela prevê quedas drásticas nos próximos cinco a dez anos com projetos como o Starship da SpaceX.
“Não é simples como comprar uma passagem aérea. Você precisa passar por testes de qualificação – ciclos térmicos extremos, vibração, ruído, radiação”, explica. A empresa oferece suporte integral durante todo o processo, desde a qualificação técnica até a certificação final.
A executiva acredita que o espaço seguirá o mesmo caminho da indústria automobilística: “Quando carros surgiram, eram só para ricos. Hoje, todo mundo tem um carro. Será igual com o espaço – em cinco a dez anos, você poderá fazer lua de mel na Lua”.
Entretanto, a implementação dessas soluções enfrenta obstáculos consideráveis. O ambiente espacial exige componentes resistentes à radiação, que podem custar 100 vezes mais que versões terrestres. Um chip de US$ 50 para uso terrestre pode custar US$ 5 mil na versão espacialmente qualificada.
Para contornar isso, a Spacedock está testando materiais de revestimento que protegem componentes comerciais da radiação. Em junho, a empresa planeja validar essa abordagem no espaço usando foguete da SpaceX, comparando componentes revestidos com não revestidos.
Outro desafio são as limitações volumétricas dos foguetes. A solução proposta é mudar o paradigma: ao invés de montar tudo na Terra, enviar componentes modulares para montagem no espaço usando robôs. “É como enviar caixas da IKEA no foguete e depois montar no espaço usando robôs”, compara.
Negar, que também atua na promoção da diversidade no setor aeroespacial, destaca um problema estrutural da indústria: mulheres representam apenas 20% dos profissionais, percentual que diminui ainda mais em posições de liderança.
A executiva, formada em engenharia aeroespacial e com mestrado por Stanford, trabalhou por duas décadas em empresas como Lockheed Martin, Maxar Technologies e Momentus antes de assumir a Spacedock em 2024.
“Muitas mulheres nem pensam em começar suas próprias empresas. Quando não veem modelos, ficam receosas ou suas famílias as desencorajam”, observa. A especialista busca quebrar essa barreira, mostrando que a indústria espacial não é “playground só para homens”.
A executiva enfatiza que o setor precisa de profissionais de todas as áreas, não apenas engenheiros aeroespaciais: “Precisamos de jornalistas, marketing, vendas, contabilidade. Muita gente não se candidata porque acha que precisa ser astronauta – eu também não sou astronauta”.
Para ela, a Spacedock representa uma nova geração de empresas espaciais que buscam tornar o acesso ao espaço mais eficiente e democratizado. A validação técnica dos próximos meses será crucial para determinar se soluções como data centers orbitais podem sair da teoria para a prática.
O sucesso de iniciativas como essa depende não apenas da viabilidade técnica, mas também da evolução do ecossistema regulatório e da redução contínua dos custos de lançamento. Se bem-sucedida, pode oferecer alternativas concretas para os desafios energéticos e de sustentabilidade que preocupam líderes de tecnologia globalmente.
Para Negar, a infraestrutura espacial é fundamental para garantir recursos suficientes para as futuras gerações: “Temos recursos limitados na Terra. Precisamos acessar asteroides ricos em minerais raros e estabelecer presença em outros planetas. É a única forma de evitar guerras futuras por recursos e garantir sustentabilidade de longo prazo”.
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