Que eu me lembre, este caso foi o primeiro de fraude digital que teve repercussão na mídia, pelo menos em São Paulo. A história voltou na minha cabeça por um motivo muito interessante e engraçado. Outro dia eu estava em uma empresa, quando encontrei uma pessoa que lhes prestava serviço de suporte nos PCs. Eu […]
Que eu me lembre, este caso foi o primeiro de fraude digital que teve
repercussão na mídia, pelo menos em São Paulo. A história voltou na minha cabeça
por um motivo muito interessante e engraçado. Outro dia eu estava em uma
empresa, quando encontrei uma pessoa que lhes prestava serviço de suporte nos
PCs. Eu estava ali por causa da implantação de um sistema e precisava dos seus
serviços para auxiliar a configuração dos PCs para o referido sistema. Em um
dado momento teve início o seguinte diálogo :
– Eu estou me lembrando de você, você não é o Xandó?
– Sim sou eu mesmo, também tenho uma vaga
lembrança, mas não consigo me lembrar de onde.
– Eu jamais poderia me esquecer.
– Como assim??
Voltando o filme <<<<<< .
Retornemos para ano de 1995. A Internet ainda não tinha decolado, muito menos
nascido no Brasil. Pululavam os BBSs nessa época, sendo que em São Paulo o
MANDIC BBS era o maior, mais organizado e mais profissional de todos. Eu era
usuário desde o começo, em 1990, e como fora um dos primeiros usuários tinha uma
grande proximidade com Aleksandar Mandic. Por conta disso eu era “organizador”
da área de Windows do BBS, como se fosse um “moderador” aqui do ForumPCs.
Provocava debates, respondia perguntas, etc.

Nesta época o
Mandic, visionário como sempre foi tinha implantado no BBS um sistema de 0800
que estimulava e permitia pessoas de outros estados acessarem o BBS (para não
gastar muito dinheiro em interurbanos cobrando uma tarifa de telefonia mais
baixa). Além disso, já aceitava cartões de crédito para pagar a assinatura. Foi
o primeiro sistema on-line pago no Brasil. Até então os BBSs eram todos de
hobistas, pessoas que faziam por diversão e por isso mesmo gratuitos.
Nessa época eu já começava a ouvir falar, como se fosse um boato que se
propaga de boca em boca, de soslaio, que havia programas sendo pegos na internet
para gerar números de cartão de crédito. PAUSA : explicação importante, como se
acessava a internet se não havia internet no Brasil? No mundo já existia. No BBS
tinha um recurso estranho e de difícil uso, que permitia fazer FTP não online.
Uma mensagem era enviada para uma conta especial do BBS com os dados para o FTP,
endereço, usuário, senha, nome da pasta, nome do arquivo e se TUDO estivesse
certo, se o arquivo não fosse grande demais, no DIA SEGUINTE, com uma boa dose
de sorte o arquivo requerido era enviado para a sua caixa de mensagens do BBS.
Os espertalhões de plantão já começavam a colocar as manguinhas de fora
e se aventuravam nessa praia. Acho que era meio inconseqüente, meio na
ingenuidade, mas não deixava de ser um crime o uso desses programas. O Mandic
acumulava prejuízos por conta destes “espertos”. Eles faziam assinaturas no seu
serviço usando estes cartões fraudulentos. Faziam todos os downloads que podiam.
Na época cada usuário só podia acessar 60 minutos. Com este expediente criminoso
eles faziam várias assinaturas e usavam o dia inteiro, ocupando linhas de
telefone (acesso via modem ? claro!). No dia seguinte ao ser processado o cartão
(não havia validação online nessa época) estes eram negados pela administradora
e a assinatura cancelada mas usuários legítimos ficavam sem conseguir usar o
sistema que gerava muitas reclamações.
O Mandic já estava cansado destes
espertalhões. Precisava arrumar um jeito de pegar um deles e fazer do caso um
exemplo. Quem conhece o Mandic sabe de sua incrível tenacidade e persistência.
Ele passava horas analisando os LOGs do sistema para descobrir alguma pista. Um
belo dia ele achou um belo rastro e pegou o fio da meada, pelo menos de um dos
meliantes.
Um dos fraudadores não só usava os cartões fajutos como não
queria gastar nem os impulsos do telefone. Este em especial começou a acessar o
sistema pelo número 0800. Este tipo de serviço apresenta uma conta detalhada,
com todas as ligações, número que discou, dias, horários etc. O Mandic conseguiu
achar e cruzar alguns dados da conta telefônica com o LOG do BBS. Dizem que a
mente criminosa tem um padrão definido. Isso de fato aconteceu. O bandidinho
virtual fazia inscrições no BBS com nomes do tipo JOHN SMITH, senha BURRO,
WILLIAM JONHSON, senha BA8ACA, PAUL BRIAN, senha ESTÚPIDO, e assim por diante.
Eram nomes em inglês e as senhas eram insultos de algum tipo, como se dirigidos
ao próprio Mandic. Estas inscrições tinham seus cartões recusados e
insistentemente outros usuários com nomes e senhas assim eram criadas. Mas seu
azar, seu erro, foi querer dar todos os golpes de uma só vez. Usar a linha 0800
deixou a chance de cruzar os dados do log e associar estes usuários falsos com
um número de telefone (denunciado pela conta do 0800).
Pronto, já ele
sabia atrás de quem ele deveria ir. O valor da fraude era baixo. Este fulano
tinha feito 10 ou 15 inscrições, a valores como R$ 30 por mês (algo perto de R$
300 a R$ 450). Mas não era só um, eram vários que faziam isso. O Mandic, queria
pegar alguém e dar o exemplo, por isso não mediu esforços. Acionou seu advogado,
que conseguiu mandado judicial para ir atrás dos dados do fulano. Descobriram,
por este caminho, nome completo e endereço do indivíduo.
Os membros do
ForumPCs que são advogados podem explicar melhor, mas pelo que entendi
precisavam obter provas mais concretas contra o fraudador. Por causa disso o
advogado conseguiu um mandado de busca e apreensão, na casa do camarada, para
colher mais provas. As execuções destas diligências judiciais são feitas com o
apoio da polícia. E precisam ter um “perito” para dar apoio técnico e obtenção
de provas. Adivinhem quem foi o escolhido para ser o “perito” para investigar a
casa e o computador do fraudador? EU!!
Fiquei sem jeito e meio preocupado, jamais me imaginei fazendo este tipo de
coisa. Mas o Mandic confiava em mim. Fui formalmente convocado por seu advogado
e pelo delegado para esta missão.
No dia combinado apresentei-me na
delegacia de do bairro de Pinheiros em São Paulo. O delegado, o advogado, três
policiais, e acho que mais um agente do poder judiciário, mais eu mesmo, nos
reunimos para obter as instruções. O delegado tomou a palavra:
– É uma operação de rotina. Os policiais acompanharão apenas
para garantir que o mandado judicial será cumprido. Isso é muito comum. O perito
vai nos acompanhar e ao obtermos acesso à residência do meliante, daremos
cobertura para que você possa efetuar o seu trabalho de colher as provas
necessárias. O investigado pode se recusar a colaborar. Às vezes nem nos deixam
entrar.
Ai ouvi a “pérola”, que dá título a esta coluna :
– Se houver resistência, não há problema.
Estamos acostumados, isso é muito normal. Os policiais levam consigo machados.
Se não abrirem a porta por bem, derrubem a porta
a machadadas e deixem o oficial de justiça e o perito fazerem seus
trabalhos!!!
Como essa história vai longe, para não ficar grande
demais vou dividir esta história em duas partes. Na próxima coluna, conto o
resto. A diligência policial e todas as surpresas que tive no desenrolar da
história. Será que a porta foi arrombada a machadadas? Não percam o próximo e
derradeiro capítulo!!
Clique aqui para ler a parte 2 desta história.