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Derrubem a porta a machadadas! parte 2

Retomando a história iniciada na coluna passada, a parte 1 , eu estava na delegacia ouvindo as recomendações do delegado, quando ele soltou aquela “pérola”: – Se houver resistência, não há problema. Estamos acostumados, isso é muito normal. Os policiais levam consigo machados. Se não abrirem a porta por bem, derrubem a porta a machadadas […]

Publicado: 13/05/2026 às 10:22
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12 minutos
Derrubem a porta a machadadas! parte 2
Construção civil — Foto: Reprodução

Retomando a história iniciada na coluna passada, a parte 1 , eu estava na delegacia ouvindo as recomendações do delegado, quando ele soltou aquela “pérola”:

Se houver resistência, não há problema. Estamos acostumados, isso é muito normal. Os policiais levam consigo machados. Se não abrirem a porta por bem,

derrubem a porta a machadadas e deixem o oficial de justiça e o perito fazerem seus trabalhos!!!

Pensei comigo, que encrenca que eu fui me meter!!! Mas vamos lá. Chegamos a um condomínio de prédios de bom nível, no bairro de Interlagos em São Paulo. É incrível como um mandado judicial é eficiente! Entramos no prédio sem que fosse necessário sequer interfonar para o apartamento do indivíduo. Será que eu impus tanto respeito?? Nada disso. Provavelmente a visão de três policiais armados, um dos quais com um machado na mão ajudou um bocado! Chegamos à porta do apartamento e tocamos a campainha. Não houve resposta. Tocamos de novo. Mais trinta segundos se passaram, sem resposta. Um dos policiais falou :

Vamos arrombar!! Prepare o machado!!

Quando achei que ia assistir a esta cena bizarra, a porta foi aberta. Não foi necessário destruir nem derrubar a porta (para o alívio de uns e desapontamento de outros). O dono da casa, um rapaz de trinta e poucos anos não estava. Quem atendeu ao oficial de justiça foi sua esposa. Coitada de sua mulher. Deu pena ver sua expressão ao ver entrar em sua casa, um monte de pessoas, incluindo policiais armados e machado na mão. Conversando com ela, que estava “branca” como cera de tanto susto, descobrimos que o dono da casa tinha um serviço de assistência técnica de PCs.

Naquele instante eu não sabia exatamente o que fazer. Fui passo a passo imaginando como levantaria as provas necessárias. Localizei o PC, modem e linha telefônica. Tomei assento e comecei a fazer o meu trabalho. Identifiquei o software de comunicação (havia dois-o TELIX e o PROCOMM), havia números de telefone de acesso ao Mandic BBS cadastrados nos programas. Achei vários arquivos ZIP que pareciam ter sido pegos no BBS, numa pasta de downloads. Todos os arquivos do Mandic BBS tinham dentro do ZIP um TXT com o logotipo e propaganda do BBS. Localizar este TXT nos arquivos ZIP foi moleza. Era a prova final que precisávamos. Tinha o PC, tinha o programa de comunicação, tinha o BBS registrado nos programas e havia arquivos comprovadamente baixados pelo sistema. Na época usuários visitantes do BBS podiam ter acesso sem pagar, mas não tinham direito a fazer nenhum download. Não tinha como negar. Isso comprovava tudo. O fulano estava encrencado!!

O PC foi desmontado e confiscado. Neste meio tempo chegou o dono da casa que tinha sido chamado por sua esposa. Ele manifestou grande surpresa. Informalmente inquirido negou tudo. Disse que nunca acessara o Mandic BBS como assinante. Não era isso que diziam as provas-conta de telefone 0800 e as evidências do PC do rapaz. O objetivo da “visita” era colher provas, mas o JOHN SMITH (vou chamá-lo assim a partir de agora-inspirado em seus nomes de inscrição fraudulentos) continuava a negar tudo. Ele se colocou a disposição de nos acompanhar a delegacia para prestar mais esclarecimentos. Ele teria que ir de toda forma! Por bem ou por mal, com machadada ou sem machadada!

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Voltamos todos para a delegacia, com as provas e o próprio JOHN SMITH. Burocracias cumpridas, depoimentos tomados. Lá pelas tantas ficamos sentados, num tipo de sala de espera, EU e JONH SMITH, frente a frente. Travei um breve diálogo com ele:

Olha eu não tenha nada pessoal contra você. Fui convocado para fazer um trabalho, a perícia de seu micro e tentei fazê-lo da melhor forma possível.

Tudo bem. Entendo a sua posição. Eu só queria entender o que está acontecendo. Não faço a menor idéia do por que disso tudo!

Nesta hora o próprio Mandic já estava na delegacia (ele não participara da operação de busca e apreensão). Não tinha mais motivo para eu estar ali. O Mandic me disse que seu advogado ia tentar trazer a imprensa à delegacia para que houvesse alguma cobertura sobre o assunto. Se tinha uma coisa que eu não queria era aparecer. Fui embora. Soube depois que a delegacia ficou como um formigueiro, lotado de pessoas da imprensa, jornais, rádio, etc. Não tenho certeza se foi o primeiro caso “policial” de fraude digital no Brasil ou em São Paulo. Se não foi a primeira foi uma das primeiras.

O Mandic obteve o resultado que queria. O ocorrido ganhou página inteira (capa!) no caderno de informática do jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, grande destaque em outros jornais da cidade, caso citado em vários noticiários e estações de rádio. Soube depois que o “perito” fora procurado para entrevistas. Ufa! Ainda bem que eu tinha caído fora. O Mandic e seu advogado respeitaram meu pedido, de não citar meu nome neste caso. Não queria meu nome envolvido com isso, nem precisava. Não era e nunca foi minha atividade profissional participar deste tipo de situação.

O Mandic gastou uma grana preta com o processo e advogado. Com certeza dezenas de vezes mais que os R$ 450 que ele tinha sido ludibriado pelo JOHN SMITH. Mas ele atingiu seu objetivo. Com todo este “barulho” e publicidade, caiu a ZERO o número de fraudes no Mandic BBS por vários meses. Depois de algum tempo as fraudes voltaram a acontecer, talvez pela habitual memória curta do brasileiro, ou pela mudança do perfil do larápio virtual. Já na fase da Internet, como todos sabem, fraudes de todos os tipos só aumentaram. SPAM, PHISHING, roubo de identidade, etc. Infelizmente foi a evolução natural deste tipo de atividade criminosa.

Avançando o filme >>>>>> . Estamos novamente no presente. Continuando o diálogo com a pessoa que disse que me conhecia, lá no comecinho desta matéria, na parte 1 , da coluna anterior.

Você esteve na minha casa.

Na sua casa?? Nossa! Desculpe-me. Não me lembro mesmo.

Você esteve lá com a polícia, foi investigar o meu PC, lembrou?

Nossa cara. Que situação!! Agora me lembrei de tudo. Olha eu nunca quis te prejudicar, só fiz o trabalho que fui convocado a realizar!Mas depois o que aconteceu?? Não fiquei sabendo!!

Tive que responder a um processo, contratar advogado. Foram meses de dor de cabeça, depoimentos, audiências, ameaça de prisão -Um imenso desgaste e sofrimento. Depois dessa canseira toda, o próprio Mandic não quis mais levar o assunto para frente e o processo foi retirado. Mas olha, foi um super desgaste!! Minha família ficou muito abalada. Graças a Deus isso está no passado, passou, acabou! Retomei a minha atividade profissional, que ficara prejudicada. Agora está tudo bem.

Mas foi uma bobeira, se queimar por conta de uma dúzia de assinaturas do BBS!!?!?!

Se eu te contar, você não vai acreditar! Eu fiquei totalmente atônito com o que aconteceu. Não sabia MESMO como aquilo tinha acontecido. Depois descobri tudo. Meu filho, na época com 12 anos tinha ouvido falar do BBS, que era legal que podia fazer download de programas… Mas como ele ia fazer a assinatura? Um amigo dele, um japonesinho, super esperto e inteligente, já era hacker desde essa idade. O japonesinho disse que sabia como usar cartão de credito sem pagar nada! Eles dois na maior inocência (mais inocente o meu filho que de fato não tinha essa maldade) usaram o tal programa para gerar números de cartão de crédito fraudulentos. Usavam o meu PC quando eu não estava em casa. Eu até já tinha acessado o Mandic BBS, mas como visitante, não tinha assinatura. Eles iam fazendo assinaturas. Quando eram cortados faziam outra assinatura e mais outra, e mais outra. QUE BOBAGEM!! Tive que chamar os pais do amigo e ter uma conversa com eles. Foi muito chato. Meu filho foi duramente repreendido. Ele tinha que perceber que aquilo que estavam fazendo não era correto. Ficou sem usar computador por muito tempo por conta disso, como um dos vários castigos que ele teve. Hoje ele é grande, faz faculdade. É um ótimo garoto, e tem um excelente caráter.

Nossa que história! Eu jamais poderia imaginar que tinha sido isso que aconteceu! Que experiência hein!!??

Essa é a história. Eu e JOHN SMITH demos boas risadas lembrando-nos do que nos acontecera há mais de 10 anos. Foi muita coincidência termos nos encontrado neste dia e termos descoberto um cliente em comum. Ele no papel da empresa que presta assistência e suporte e eu implantando um sistema. Eventualmente ainda nos encontramos por lá. JOHN SMITH é um cara super sério, um excelente profissional, e sem querer e principalmente sem saber foi o pivô de um dos primeiros casos de fraude digital no Brasil!!

Ainda bem que não foram necessários os machados, não acham?

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UM DOS COMENTÁRIOS DA COLUNA – O

REAL AUTOR DO DELITO APARECEU

E CONTOU A HISTÓRIA!!

(respondeu em um dos comentários da coluna – era usuário do ForumPCs)

Olá a todos,

Primeiramente gostaria de me apresentar. Sou realmente o filho de JOHN SMITH, como foi chamado meu pai pelo Xandó nessa matéria.

Hoje tenho 27 anos, sou gerente de TI e gerente de exportação (áreas totalmente diversificadas) de uma indústria. Sou um apaixonado por tecnologia porém computadores pra mim atualmente, somente para uso profissional. Sou também, piloto privado de avião (minha maior paixão desde criança).

Bom, voltando ao assunto; Como o Xandó citou, meu pai não tinha conhecimento das coisas que eu aprontava em casa enquanto ele não estava. Antes de sair de casa, ele trancava o computador (Lembram daquela chave que você conseguia travar o funcionamento da CPU?) mas eu, sabia onde ficava a chave reserva…… destravava a máquina e passava horas usando. Umas duas horas antes dele chegar em casa, eu desligava o computador para dar tempo de esfriar o monitor, para não dar pistas de que usei a máquina.

Lembro-me direitinho, naquela época nosso computador era um 386 DX 40 com 8MB de RAM…. MS DOS 6.22 e Windows 3.11 para Workgroup (heheheheh faz tempo….), só para constar, era top de linha.

Meu amigo da escola, o tal japones, tinha inclusive a própria BBS… tenho que reconhecer que o cara era bom mesmo. Um certo dia, ele chegou na escola com uma lista de numeros que eu não tinha ideia do que eram. Ele me explicou que eram números de cartões de crédito inativos, ou seja, nunca conseguiriam ser processados pela operadora pois nunca haviam sido confeccionados, dessa forma, não debitando na conta de ninguém o valor da assinatura.

No começo, ele ia la em casa e acessavamos a Mandic para baixar programas para montarmos a tal BBS que ele já estava desenvolvendo….. eu queria muito naquela época aprender e colaborar nesse desenvolvimento.

Depois de um certo tempo, comecei a usar sozinho e baixava os programas, grava em disquetes (5 1/4 ou 3 1/2 …. heheheh) e passava para ele. E assim foi até o dia que tudo aconteceu.

Lembro-me como se fosse hoje quando o nosso advogado conseguiu com que eu fosse até a delegacia dar depoimento. Lembro-me de estar muito nervoso, pois fora a primeira vez que pisara em uma delegacia. Comecei a falar … horários, usuários que eu cadastrava, arquivos que baixara, etc.

Depois disso, creio que o Mandic tenha retirado o processo.

Sinceramente, não tenho certeza se todo o alarde público foi para repreender os outros que faziam a mesma coisa que eu, ou foi simplesmente um ato publicitário, uma vez que exatamente uma semana antes do acontecido, a polícia americana havia prendido Kevin Mitnik (Primeiro Hacker descoberto nos USA), ou seja, se os americanos conseguiram, eu também consigo.

Bom, mas isso não vem ao caso. Reconheço desde aquela data que fiz besteira, me arrependo, e muito pelo que fiz pois além de ter prejudicado alguém, prejudiquei a minha própria família.

Mas sempre temos que ver o lado bom da história. Com esse fato duas coisas muito importantes aconteceram comigo para que eu me tornasse quem eu sou hoje.

Primeiramente aprendi a pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa, pois de bobeira você pode se prejudicar e a segunda coisa boa é que, passado todo o episódio meus mais me colocaram para trabalhar de verdade, e desde então não parei de trabalhar, aprender e crescer profissionalmente. Hoje tenho 13 anos de carteira de trabalho assinada, onde comecei como auxiliar de produção e hoje tenho um cargo de confiança da empresa (fato esse, muito dificil de se ver em pessoas da minha idade).

Para finalizar, gostaria de dizer que meus pais são pessoas muito honestas, corretas e boas ….. o grande vilão da história fui eu.

Xandó, parabéns pela matéria…… quando li, senti-me revivendo aqueles momentos de angústia, medo do que iria acontecer, etc.

Achei extremamente profissional a sua imparcialidade.

PS: Peço desculpas for esse texto enorme, mas podem ter certeza que encurtei o máximo que pude, pois isso é papo para horas e horas.

Obrigado

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