No mês passado acomunicaram à imprensa a nova parceria para a produção de placas no Brasil, sob a marca Gigabyte. Essa notícia, para os mais antigos no mercado, pode ter pouca relevância, pois não é a primeira parceria para a fabricação de placas de vídeo que a Digitron anuncia, mas dessa vez a coisa parece […]
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No mês passado acomunicaram à imprensa a nova parceria para a produção de placas no Brasil, sob a marca Gigabyte. Essa notícia, para os mais antigos no mercado, pode ter pouca relevância, pois não é a primeira parceria para a fabricação de placas de vídeo que a Digitron anuncia, mas dessa vez a coisa parece ser bem diferente.
Eu tive a oportunidade de entrevistar o Diretor de Marketing da Digitron, Vicente B. Soares , por mais de uma hora abordando vários aspectos dessa parceria e da história da Digitron no Brasil. Em seguida tive uma conversa por telefone com o Diretor de Marketing da ATI, Paul Ayscough , direto de Toronto, no Canadá. Gostaria de apresentar pra você um resumo dessas conversas, mas antes disso, vamos conhecer melhor esses senhores:
Vicente Soares está no ramo de tecnologia no Brasil desde 1983, mecânica fina e instrumentos de precisão fazem parte de seu currículo desde o início, com destaque para o desenvolvimento do primeiro drive de disquetes de 3 e ½ polegadas no Brasil, para o micro computador MSX, muito popular na época. Desde 2001 está na Digitron como Diretor de Marketing e é um dos responsáveis pela presença cada vez maior da empresa no mercado de “retail”, ou como conhecemos melhor, o mercado de varejo que vende produtos “box”, embalados em suas caixas originais. A Digitron, pouco conhecida pela maioria dos consumidores, é líder no mercado de OEM no Brasil, produzindo atualmente mais de um milhão de placas ao ano com a marca Gigabyte para integradores como Novadata, Positivo, Itautec, Procomp e muitas outras.
Paul Ayscough, Diretor “mundial” de Marketing da ATI é “quase” um brasileiro. Adora o Brasil, já morou em diversas oportunidades por aqui, deu aulas de inglês em Ribeirão Preto e Maceió e por isso fala português com aquele indescritível sotaque. Uma grande figura, e é o principal responsável pela expansão da marca no Brasil, incluindo todos os programas de incentivos para lan houses, parcerias para fabricação local e distribuição em larga escala (Connec3D, Sapphire, Powercolor, entre outras já estão no Brasil). Confidenciou-me que no seu passaporte tem nada menos do que 29 viagens ao Brasil, e no mês que vem estará aqui novamente…
A negociação entre a Digitron e a ATI durou quase um ano, mas ambos concordam que não foi difícil. Foi o tempo necessário para um bom planejamento estratégico e uma boa integração, mas o fundamental para o negócio foi o “timing” dessa parceria e a presença de ambos no mercado legal do Brasil, e é isso que pretendo mostrar pra vocês com mais detalhes.
A Digitron, como já disse, sempre atuou no segmento OEM ( Original Equipment Manufacturer ), que é por sua natureza um segmento 100% legalizado. Porém, o mercado “retail” antes dominado pelo contrabando, está passando por mudanças e viu, partindo dos próprios distribuidores, a necessidade de um produto “box” produzido no país. “Três fatores foram determinantes para essa mudança de percepção, e surpreendentemente a pressão do governo contra o contrabando é citada em terceiro lugar” , diz Vicente.
O primeiro fator foi a percepção que o produto fabricado em Manaus chega ao canal de distribuição com uma variação de 5% (para mais ou para menos, dependendo do produto) em relação ao mesmo produto oferecido pelo mercado “cinza”, especialmente sacoleiro do Paraguai. Essa diferença de custo, mesmo quando é para cima, é plenamente justificável pela garantia da entrega, do RMA, do suprimento constante e outros benefícios típicos de uma indústria organizada, coisa que o fornecimento irregular do contrabando é impossível de atender.
O segundo fator, e o mais positivo, é que há uma mudança de mentalidade entre os consumidores e empresários do segmento no sentido de que não devemos incentivar a criminalidade (sim, contrabando é crime), e sim favorecer o desenvolvimento local. Não é a primeira vez que ouço isso, pois converso muito com os parceiros aqui do fórum e essa mudança de mentalidade é um senso comum.
O terceiro fator, como não poderia deixar de ser, é a irregularidade do canal cinza, ainda mais com a crescente atuação do governo federal com suas políticas contra o contrabando e a pirataria. Alguns grandes fabricantes, que sempre usaram o Paraguai e sua respectiva malha de sacoleiros como “canal de distribuição oficial”, estão repensando sua posição no Brasil, e eu não estou falando nem da ATI nem da Gigabyte.
Vicente me disse que as primeiras experiências com a venda de produtos “retail” para os distribuidores, que vendem paras as lojas que por sua vez vendem aos consumidores finais, foram surpreendentes e os estoques se esgotavam em questão de dias. A produção anual da Digitron, de um milhão de placas, não foi capaz de atender adequadamente esse mercado e esse foi o primeiro sinal de que seriam necessários novos investimentos.
A coisa não é pequena, pois foram investidos 10 milhões de dólares na expansão das unidades produtivas, que aumentarão a produção anual de 1.000.000 placas para 2.500.000 a partir de agosto de 2005 atingindo 3.500.000 em agosto de 2006. Isso mesmo, esses números estão sendo divulgados com orgulho pela Digitron: 3.500.000 milhões de placas por ano!
Isso colocará a Digitron em sexto lugar entre as maiores fabricantes de placas do mundo, o que é surpreendente para uma empresa nacional, especialmente no setor de tecnologia. A Gigabyte participa desse processo cedendo tecnologia, treinamento e fazendo a compra de componentes compartilhada no mercado mundial, por isso tudo que é produzido aqui é feito com o mesmo capacitor, o mesmo PCB, o mesmo chipset, que a Gigabyte usa nas suas fabricas na Ásia. E mais, a Gigabyte participa do processo de “tropicalização” dos produtos que visam mercados específicos, como é o caso da placa mãe GA-8IG1000MK ASF (chipset Intel 865G para soquete 478) que recebeu uma versão exclusiva para o Brasil, desenvolvida em conjunto com os engenheiros locais, com três sensores térmicos para o gerenciamento de ventoinhas e sua monitoração, uma necessidade técnica encontrada nos clientes do nordeste brasileiro.
A fabrica da Digitron é homologada pela Gigabyte e atende as principais certificações mundiais, e como não podia deixar de ser, o intercambio entre os engenheiros da Digitron e da Gigabyte é constante, há uma rotina semanal de vídeo conferencia entre os grupos de engenheiros dos dois países.
Aproveitando todo esse “Know How” e a capacidade de produção, a ATI, que tem na Gigabyte um parceiro a nível mundial-quem não se lembra que a Gigabyte foi a primeira empresa entre as grandes a romper o contrato de exclusividade com a nVidia e partir para as placas de vídeo da ATI-vem agora introduzir um plano de produção em larga escala para placas de vídeo no mercado brasileiro.
A Digitron já produziu outras placas (nVidia) anteriormente, mas segundo Vicente foram ocasionais, em lotes pequenos, visando atender exclusivamente alguns pedidos de seus clientes. Agora com a ATI a parceria é diferente e muito mais completa, pois haverá uma produção regular de placas de vídeo tanto para o mercado OEM quanto para o Retail, essas com embalagens “Gigabyte” completas, iguais ao produto comprado no exterior.
Os primeiros produtos vêm atender o mercado de baixo custo, com as placas AGP Radeon 9250 e 9550, e com as novas X300SE e X600Pro na versão PCI-Express. Sim, é isso mesmo, já temos placas PCI-Express sendo produzidas no Brasil nesse momento.
Até o final do ano serão introduzidas as novas Radeon X700 e espera-se para o ano que vem as X800. Isso vem de encontro com as novas necessidades dos integradores de grande e pequeno porte do Brasil, bem como dos usuários que montam suas próprias máquinas. Quem poderia imaginar que em 2005 teríamos condições de comprar peças nacionais em uma loja de rua para montar um micro de ponta?
Vicente não está mais surpreso com essa visão. Aliás, ele ficou surpreso só no início, quando enviou um lote de placas mãe PCI-Express para os distribuidores (para Pentium 4, soquete LGA775 e chipset i915) e em menos de uma semana estava tudo esgotado, mostrando como esse mercado está maduro e carente de soluções de ponta.
Hoje a Digitron vende 75% da sua produção para os integradores OEM, e 25% para os distribuidores, mas a taxa de crescimento é inversa, com os OEM crescendo cerca de 30% ao ano contra mais de 60% do segmento de retail. As projeções indicam que os volumes totais devem ser similares dentro de pouco tempo. A ATI por sua vez espera que 25% do total de placas produzidas pela Digitron sejam placas de vídeo com chips da ATI. A média mundial mostra que 50% das placas do mundo têm um vídeo onboard-o que coloca a Intel na liderança do mercado de vídeo, coisa que poucos sabem-e 50% vão receber uma placa de vídeo dedicada.
Segundo Paul, em países como o Brasil, Índia e China essa proporção tende mais para 75% com vídeo onboard e 25% com placas de vídeo dedicadas, por isso a expectativa mais conservadora em relação ao mercado brasileiro.
Na Digitron a participação de placas mãe para processadores Intel é muito maior do que para os processadores AMD, uma característica do mercado OEM, e a vinda do PC Conectado não parece que irá mudar isso, pois estão em desenvolvimentos soluções de baixo preço para os processadores Celeron D, mas a empresa está de olho nos processadores da AMD, afinal, a Digitron, Gigabyte e ATI estão aqui para fornecer o que for preciso.