Empresas do setor sofrem com instabilidades políticas e macroeconômicas há quase duas décadas
Para muita gente, a ligação entre a tecnologia e o setor têxtil é íntima e dinâmica. Afinal, foi com a transformação dos teares manuais em máquinas a vapor que o mundo se transformou durante a Revolução Industrial. Mas não é bem assim. Se o setor se preocupa com a linha de produção, o investimento na tecnologia da informação é pra lá de conservador. No estudo que mostra que companhias brasileiras investirão R$ 46,2 bilhões em TI em 2008, feito pela e-Consulting, o setor têxtil nem aparece. O destaque é para as áreas financeira, de telecomunicações, de bens de consumo e governamental. “O segmento vem perdendo vantagem competitiva desde a década de 1990 e ainda não se recuperou”, analisa Daniel Domeneghetti, sócio-fundador da E-Consulting.
Nesse período, as indústrias foram massacradas com a abertura de mercado aos produtos importados, no governo de Fernando Collor de Mello. Quem não fechou, ficou em frangalhos. Ainda por cima, os sobreviventes tiveram de se adaptar à realidade do Código de Defesa do Consumidor, lei criada em setembro de 1990, e, no fim da década, ver as dívidas adquiridas com a modernização do parque serem lançadas para a estratosfera com a desvalorização do real durante as crises financeiras internacionais (Rússia, México e Ásia) que se seguiram. “Informatização acaba sendo somente uma das preocupações atuais do setor”, aponta o superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel.
A associação trata do assunto em um fórum que junta os mais variados tipos de tecnologia, de bens de capital às inovações da nanotecnologia e fibras ecológicas. Qualquer conversa sobre as maravilhas de um ERP ou o momento ideal de implantar um sistema de business inteligence (BI) ficam em segundo plano. Setorialmente, as principais preocupações atuais dizem respeito ao surpreendente déficit da balança comercial, à pirataria, à China e às cobranças para um plano de desenvolvimento nacional de longo prazo (veja quadro na página 46).
As variáveis macroeconômicas desfavoráveis e a diferença de competitividade com a concorrência estrangeira fazem o setor “trocar o pneu com o carro andando”, como gosta de citar o superintendente da Abit. “O investimento em TI vem junto com a pesquisa de novas fibras, cortes, máquinas e ainda com a reivindicação de um câmbio favorável e uma carga tributária justa”, aponta Pimentel.