Boston – Considerado um dos ‘gurus’ da indústria, VP do Deloitte Center for Edge Innovation aborda como deixar de lado velhas ideias, encontrar novos horizontes e viver no limite.
John Seely Brown, vice-presidente do Deloitte Center for Edge Innovation, foi cientista chefe na Xerox e diretor do centro de pesquisas da mesma empresa em Palo Alto. Considerado um dos gurus da inovação, cultura digital, arquitetura de serviços web, novas formas de computação, além de formas de aprendizagem individual e organizacional. Em entrevista para o Computerworld/EUA, Brown mostra como as empresas podem olhar adiante da crise e encontrar novas oportunidades no mercado.
Computerworld – Há alguma luz no fim do túnel da crise que estamos atravessando?
John Seely Brown – Todas as vezes que me sento em alguma reunião de diretoria, as pessoas mostram-se amedrontadas com a crise financeira que estamos vivemos. Eu sempre pergunto a elas quais são as novas oportunidades que a crise pode propiciar? Como podemos acelerar um realinhamento da indústria? Só assim para enxergar as oportunidades além da crise.
CW – Como ajudá-los a fazer isso?
JSB – O valor reside na pergunta que você faz, não necessariamente nos problemas que você resolve. Questionar alguém de forma útil e produtiva geralmente faz com que as pessoas descubram as coisas elas mesmas. A luz no fim do túnel surge se você souber fazer as perguntas certas para fazer as pessoas refletirem. Claro que deve ser de uma maneira que não pressione e não ofenda.
CW – Qual é o seu conselho para os líderes de tecnologia amedrontados pela crise?
JSB – Olhar ao redor e perguntar-se: “Quais são as grandes mudanças estruturais na indústria de tecnologia? Como nós utilizamos a computação como utility? Quais são as novas maneiras de economizar energia elétrica? Como começamos a utilizar cloud computing de forma interna e externa? Um exemplo: se eu inicio uma start up hoje, eu não gostaria de investir meu precioso dinheiro em mais servidores. Eu procuraria saber como utilizar a nuvem da Amazon e pagar somente pelo que uso e, ao mesmo tempo, ter um modelo inteiramente novo que dá agilidade e escalabilidade.
CW – Como se utiliza cloud computing de forma interna?
JSB – Basicamente, o líder pode estabelecer métricas para cada departamento, para que cada um pague o quanto usa da infraestrutura da empresa. Se você fizer a computação como utility funcionar bem de forma interna, você provavelmente terá a capacidade de trazer recursos externos sob demanda sem problemas.
CW – O que você quer dizer quando fala sobre inovação além dos limites?
JSB – Quando você vai além dos limites, vê a verdadeira ação. Gerações mais jovens, por exemplo, vão além dos limites e sempre surgem com diversos tipos de novas idéias. Estes jovens aparecem no mercado com práticas de trabalho diferentes. Então como você pode implementar essas práticas de forma a somar em vez de presumir que eles precisam aceitar suas velhas práticas? No nível da indústria, você tem players que vão além dos limites, geralmente as startups. O que elas estão fazendo sobre o que você ainda não pensou? Quais estão crescendo e desafiam as lógicas do mercado? Ir além dos limites também pode significar procurar respostas além das suas fronteiras geográficas, como nos países asiáticos. Muitas revelações vêm de locais como a Índia, onde se trabalha com excelência e multidisciplinaridade. É bom lembrar que todos esses elementos são fontes de incerteza. São arriscados, pois não possuem caminhos certos, mas é aí que está o desafio, descobrir a inovação nesse ambiente. Com o tempo, você vai detectar e antecipar novas idéias e tendências.
CW – Você costuma dizer que as companhias geralmente reagem às mudanças tecnológicas em vez de agir de forma próativa quando elas surgem. Como uma empresa grande e tradicional, como a GM, pode fazer esse tipo de coisa?
JSB – Vamos pensar em um elemento específico, a saúde, que tem grande necessidade de inovação. Vamos supor que a GM determine que cada consultório médico, clínica e hospital tenham de revelar suas métricas e comprovar eficiência por meio de registros eletrônicos para aceitar reembolsar o que os funcionários pagam por esses prestadores de serviço. Além disso, os registros deveriam ser compartilhados entre todos os players da rede médica. É um exemplo simples, mas é uma forma de inovar.
CW – O que são as redes de inovação sobre as quais você fala?
JSB – Vamos pegar o exemplo da Ásia. Essas redes são uma constante, construindo novas ideias com centenas ou milhares de pequenas empresas que trabalham de forma independente, mas têm acordos de longo prazo para a realização de trabalhos conjuntos. O iPhone, por exemplo, veio de uma rede como essas. A HP, quando quer uma impressora ou PC, determina especificações e pergunta para essas redes se elas podem fazer aquilo dentro de um determinado preço. As redes interagem e montam o melhor projeto, dividindo responsabilidades sofre os componentes. O Steve Jobs tinha todo o conceito e a superfície do iPhone em mente, mas não tem idéia do que se passa internamente no produto. Para as pessoas que dizem que o mundo está ficando plano, eu digo que ele fica cada vez mais diversificado. Se você conseguir ser um dos primeiros a se aproveitar das redes de inovações, então você pode usar o fato de que todos pensam que o mundo é plano para conectar as inovações e realizar o melhor para você.
CW – Que lições você aprendeu trabalhando no centro de pesquisas da Xerox?
JSB – Em primeiro lugar, sabedoria pode ser um dos maiores obstáculos para a inovação. Em um mundo de rápidas mudanças, o que se presumia baseado na sabedoria do passado pode ser inválido hoje. Uma ideia que não funcionou cinco anos atrás, por outro lado, pode ser fantástica agora. Outra coisa: nós tendemos a acreditar em certas premissas por mais tempo do que deveríamos. Se as deixarmos de lado e buscarmos alternativas, ideias inteiramente novas serão criadas. Em terceiro, quando eu tomei a frente do centro de inovação, eu imaginava que nós, geeks, éramos os gênios e que as pessoas de marketing não eram muito espertas. No entanto, inovações não são nada sem uma posição no mercado. A genialidade muitas vezes está na realização e viabilização de determinada idéia.