Informações online podem ser usadas contra você. O que faria se seu concorrente tivesse acesso a dados pessoais e a arquivos confidenciais?
Ao se preparar para
curtir o feriadão de 12 de outubro, a jornalista Rosana Hermann não tinha a
mínima ideia da tragédia que lhe aconteceria. Junto com a família viajou sem
preocupações para balneário de Águas de São Pedro, a 180 quilômetros de
São Paulo. No sábado, dois dias antes da data comemorativa da padroeira do
Brasil, ela curtia a casa e os cachorros. Foi quando aconteceu algo que tirou a
paz de seu fim de semana.
Twitteira incansável,
Rosana é daquelas que fotografa o prato do almoço e publica para todo mundo
ver. Naquele dia, não foi diferente. Filmou a cadela Lilly nos braços e tentou
enviar para o arquivo para o Twitcam, um serviço que mostra vídeos ao vivo na
internet. Não funcionou. De repente, ela foi desconectada do Twitter. Em seguida,
descobriu que seu nome de usuário (username) havia sido mudado para
Brunomalhaes.
Rosana sentiu um
aperto no coração. Alguém havia roubado sua senha e controlava seu perfil. “Fiquei
muito preocupada”, confessa. “Primeiro porque tive medo que o hacker postasse
coisas horríveis em meu nome.” O que estava em jogo era a própria credibilidade
da profissional, caso o intruso começasse a teclar por ela.
Além disso, se não
fossem recuperados os registros, Rosana perderia, num só dia, sua audiência no
Twitter, cerca de 40 mil pessoas que acompanham suas mensagens. Além disso, os quatro
mil perfis que ela segue e mais de vinte mil mensagens postadas, registradas ao
longo de mais de 2,5 anos de atividade “tuiteira”.
O que Rosana passou
qualquer pessoa pode um dia viver. Num mundo em que se envia uma quantidade enorme
de informações pessoais em arquivos digitais, algumas informações que precisam
ficar sigilosas podem cair em mãos perversas. A privacidade online passa então a
ser um bem de valor fugaz e inestimável. O ruim disso é que, geralmente, só damos
valor a ela, quando a perdemos. E a pior notícia: parte da culpa é do próprio
usuário, por causa de hábitos descuidados e por não adotar recursos de
segurança.
“As pessoas se expõem
muito no ambiente online, achando tudo muito natural”, alerta André Carrareto, gerente
de engenharia da Symantec. “É preciso refletir que algumas informações
inseridas em sites de relacionamento podem ser usadas para prejudicar o próprio
autor.” Segundo ele, ainda estamos todos aprendendo a lidar com o ambiente de
liberdade digital oferecido pelas redes sociais.
O grande desafio é
saber onde termina o público e começa o privado. Pouquíssima gente, por
exemplo, lê os enunciados da política de privacidade de um site. Ninguém tem
paciência para isso. Clica-se o botão de “aceito”, respira-se fundo e se começa
a usar os serviços oferecidos. Este inocente hábito pode ser o início de uma
tremenda dor de cabeça.
“A quebra de
privacidade pode gerar problemas graves e levar à abertura de processos
criminais”, expõe o advogado Renato Opice Blum, especializado em crimes
digitais. De acordo com ele, sempre que existe a “expectativa de privacidade” e
ela é violada, é possível a vítima
exigir reparação por perdas e danos. “Já existe jurisprudência sobre o assunto,
mas ainda há 5% dos casos em que não existe nenhuma cobertura.”
Quer um exemplo? Se um
cracker invade o computador de alguém e bisbilhota todos os seus segredos, sem
praticar outros atos, a legislação brasileira não tem como enquadrar sua ação como
crime. No entanto, geralmente, o invasor não fica somente na “xeretagem”. É
quando começa a praticar atos puníveis pela lei.
No caso da jornalista
Rosana Hermann, por exemplo, caso fosse descoberta a identidade do invasor, ele
poderia responder a um processo criminal por falsa identidade. Além disso, uma
causa cível de perdas e danos poderia ser aberta. É claro que Rosana se sente
vitimada. A comunicadora reclama: “É um transtorno sem sentido, como se você
recebesse uma multa por infração de trânsito sem nem ao menos ter um carro.
Pagar uma pena sem ter feito nada de errado é muito injusto.”
Seu caso teve um final
“quase” feliz. A equipe do Twitter a ajudou a recuperar a maioria dos
registros. Voltaram seus seguidores e seguidos. A felicidade só não foi
completa porque o hacker apagou mais de 20 mil postagens. Elas foram
parcialmente recuperadas. Mas o prejuízo foi perpetrado. “Perdi muito tempo da
minha vida pesquisando no Google, pegando posts em memória cache, colocando os favoritos
ou repostando-os”, diz Rosana.
Depois do acontecido,
a jornalista não mudou muito seu comportamento. “Apenas troquei de senha, tornando-a
bastante complexa”, revela. Rosana, apesar de comentar praticamente tudo que
lhe acontece no dia a dia, não sente sua privacidade invadida. “Nunca conto
intimidades”, explica. “Não falo sobre minha família, só sobre mim.”
É perfeitamente
possível, por exemplo, saber onde Rosana está durante seu cotidiano. Ela já foi
prejudicada por isso, quando viajou ao México e teve seu cartão clonado no hotel.
Segundo ela, o fraudador gastou milhares de dólares sem sua autorização. “Acho a
localização o menor dos problemas”, opina. “A vida real é totalmente
interligada com o mundo online, não há diferença em termos de segurança.”
Rosana parece
conformada com a perda da privacidade. “Na minha opinião, ela só vai existir
num círculo de raio muito pequeno, numa parte da sua casa. Neste momento, por
exemplo, se seu celular estiver ligado, sua operadora saberá onde você está. A
privacidade acabou.”
Será mesmo que é assim
tão simples? Acompanhe nas próprias reportagens da série o que você pode fazer
para zelar por sua intimidade. Aprenda também como proteger informações
confidenciais pessoais e de sua empresa.
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Esta é a primeira matéria
de uma série de reportagens que o IT Web publica sobre privacidade e direitos digitais.
Acompanhe!