Não costumo escrever sobre aquilo que se convencionou chamar de “redes sociais”. Mas já abri exceções quando achei que abordar o assunto tinha alguma relevância. Hoje abrirei mais uma para discutir um novo tipo de atitude empresarial que o colunista Michael Arrington, do sítio TechCrunch, classificou muito apropriadamente de “protecionismo de dados“. E pretendo discuti-la […]
Não costumo escrever sobre aquilo que se convencionou chamar de “redes sociais”. Mas já abri exceções quando achei que abordar o assunto tinha alguma relevância. Hoje abrirei mais uma para discutir um novo tipo de atitude empresarial que o colunista Michael Arrington, do sítio TechCrunch, classificou muito apropriadamente de “protecionismo de dados“. E pretendo discuti-la porque, de um jeito ou de outro, ela acabará atingindo todos os usuários da Internet ? e não apenas os que frequentam as ditas redes.
Vamos começar do começo, como convém.
Quanto valem seus dados?
Explicando melhor: quanto vale para uma empresa conhecer seu nome completo, seu endereço e telefone, seu CPF, sua data de nascimento e coisas que tais? Ou saber o que você costuma comprar com maior frequência, se é do tipo que gosta de apalpar e examinar o objeto antes da compra ou se satisfaz em ver apenas a foto em uma página da rede, se costuma comprar pela Internet, a que forma de pagamento recorre com maior frequência, qual o número de seu cartão de crédito?
Bem, em alguns casos nem é preciso explicar. Com o número de seu cartão de crédito e mais um pequeno punhado de dados pessoais, qualquer pessoa mal intencionada pode comprar o que bem entender e deixar a conta em seu nome. E quem vai ter que se explicar junto à operadora do cartão é você. Com seu número de CPF, este mesmo pilantra pode, por exemplo, ligar para uma operadora telefônica, mandar instalar um telefone em seu nome, gastar alguns milhares de reais em chamadas internacionais, não pagar sequer a primeira conta e gerar uma dívida que, ou você pagará, ou a mesma operadora telefônica que aceitou seu CPF da boca de um qualquer sem questionar, incluirá seu nome nas listas de inadimplentes das empresas de proteção de crédito tipo SERASA e similares e, invertendo o ônus da prova, obrigar-lhe-á a demonstrar que você nada teve a ver com aquilo. Incidentalmente: eu nunca entendi como a legislação brasileira e a ANATEL permitem tal absurdo, deixando que uma empresa prestadora de serviços públicos aceite a palavra de um malfeitor por telefone para abrir uma conta em seu nome e recusando-se a aceitar a sua quando você exige o cancelamento. Eu já tentei proibir que contas fossem abertas em meu nome sem que eu estivesse presente portando um documento de identidade, mas fui informado pela prestadora que isto seria impossível porque “violava a política da empresa”. E não há como mudar isto, nem mesmo apelando para a ANATEL que por mais de uma vez já demonstrou estar muito mais interessada em defender os interesses das prestadoras que os do contribuinte que custeia sua manutenção pagando impostos escorchantes com o suado dinheiro que ganha com seu honesto e suado trabalho. Mas isto, quem sabe, é papo para outra coluna.
Voltemos então ao ponto: qual será o valor de dados não tão sensíveis, como a lista de seus “amigos” nas redes sociais, suas preferências pessoais, de que músicas mais gosta, como emprega seus momentos de lazer, de que esportes é aficionado, que marcas de produto prefere, coisas assim, digamos, “genéricas”? Será que valem algo?
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Devem valer sim, e uma boa grana. Afinal, uma briga se armou em torno deles. E briga de cachorro grande: Google e Facebook. Que acabou virando um bate-boca descarado, destes que casais mal resolvidos acabam travando em público lavando a roupa suja na frente dos circunstantes. Uma discussão de comadres que só vendo para acreditar.
Pois acontece que no começo era tudo muito bem organizado. O caos veio depois. Porque, antes, as empresas eram tão dadivosas com os dados de seus usuários que até criavam meios para facilitar a troca destas informações umas com as outras.
Por exemplo: empresas que prestam serviço de correio eletrônico através da rede (o chamado “webmail“, cujas mensagens são lidas e editadas no próprio programa navegador e não em um aplicativo de correio eletrônico) ofereciam a seus pares uma API (interface de programação de aplicativo) com rotinas que facilitavam a exportação de sua lista de usuários e dos dados pertinentes. Todas faziam isto. Inclusive o Google, que ano passado deu uma “pisada na bola” quando alegou razões técnicas (que não se sustentaram) para impedir que os dados dos usuários de um de seus aplicativos, o Orkut, fossem exportados, mas logo voltou atrás diante das reclamações dos próprios usuários.
Corrigindo: todas elas menos uma. O Facebook.