Necessidade de maior flexibilidade nos sistemas e troca de versão reaquecem as vendas dos sistemas ERP. Prova disso foi o aumento de 32% no faturamento da fabricante SAP.
Uma das maiores ondas já levantadas pelas tendências que ditam o mercado de tecnologia da informação foi a do ERP.
Há cinco anos, empresas de todos os setores – mas o industrial em especial – descobriram os sistemas de gestão empresarial, que uniformizariam processos e melhorariam a comunicação entre setores.
Fornecedores internacionais como Oracle, Peoplesoft (hoje comprada pela Oracle), SSA Global, Baan (comprada pela SSA) e a líder SAP, além de nacionais como Microsiga, Logocenter (comprada pela Microsiga) e Datasul venderam seus softwares como pão quente.
Depois da grande onda, veio a calmaria. Os anos de 2000, 2001 e 2002 não foram bons para 95% do mercado, incluindo a gigante alemã SAP. Em 2005, no entanto, o mercado começa a se reaquecer.
De acordo com José Ruy Antunes, presidente da SAP Brasil, neste primeiro semestre a empresa conquistou mais 24 clientes, fechou 88 contratos em clientes antigos e 14 contratos em SMB (empresas de pequeno e médio porte). Em relação ao semestre passado, isto significa um crescimento de 32% em faturamento.
“Nossa meta de crescimento para o ano é de 22%. Devemos passar este número”, prevê Antunes.
Pesquisa realizada pelo IDC este ano indica que sistemas ERP são a prioridade de investimentos em TI para o setor industrial.
Nada menos do que 22% dos entrevistados afirmaram que projetos de gestão empresarial são prioridade, seguidos de 18% que priorizam segurança e 10% que deverão privilegiar e-commerce e internet em seus orçamentos.
Na categoria “Principais preocupações dos CIOs para 2005”, ERPs em geral figuram em terceiro lugar, com 25% das respostas. Governança em TI, com 42%, e sistemas de contingência e continuidade dos negócios, com 32%, estão em primeiro e segundo lugares, respectivamente.
“No entanto, este quadro muda bastante quando se fala em projeções para 2006”, afirma o analista do IDC, Mauro Peres. No mercado de indústria e manufatura, a importância dos sistemas de gestão empresarial cai para 12º lugar em 2006 e 2007. Entre as maiores prioridades estão governança em TI, sistemas de business intelligence e centralizar TI na matriz, nesta ordem.
De acordo com Peres, há dois fatores que estão levando as empresas a voltarem-se novamente aos sistemas de gestão empresarial, ambos ligados a necessidades de negócios. “Um dos grandes desafios neste setor é melhorar os processos de produção logística e compras”, analisa Peres.
Em sua opinião, determinados módulos implementados podem ajudar a reduzir perdas com armazenagem, melhorar a gestão de estoques ou inventários e de frotas.
Foi exatamente com este objetivo que o Grupo Votorantim investiu em um projeto para melhorias na área de logística florestal. Os principais benefícios seriam ter informações online e em tempo real integradas via SAP, além de rastreabilidade do ciclo da madeira e obtenção de números corretos na volumetria e no mix de madeira entregues na fábrica.
Um dos pontos altos do projeto é uma maquete eletrônica de um dos pátios da empresa, que melhorou a gestão de transportes, movimentações e abastecimento.
Esta maquete foi feita com tecnologia SAP Netweaver, integrada ao ERP. Com o projeto, a Votorantim conseguiu melhor aproveitamento do mix de madeiras e gestão de estoque, redução nos valores dos fretes e outras reduções de custos.
De acordo com Rodrigo Marim Wertz, diretor de consultoria da Neoris, integradora de sistemas e parceira da SAP, além de trabalhar com Oracle, Datasul, BO, MicroStrategy, Cognos e Microsoft, o reaquecimento do mercado para a empresa alemã está se dando por dois motivos: “Migração de versão, que faz parte do ciclo do software, e a proposta conceitual do Netweaver”.
“A SAP tem uma política em que o preço de manutenção fica praticamente impossível a partir do quarto ou quinto ano”, comenta Wertz. Segundo o executivo, empresas que estão ainda na versão R3 do SAP estão pagando “uma fortuna” de manutenção.
Pelo valor mensal da licença, vale mais a pena migrar para uma versão mais nova, com funcionalidades como o próprio Netweaver, do que continuar customizando a versão antiga. “Há um fator importante: esta funcionalidade traz uma filosofia, que é a arquitetura orientada a serviço, o que pode levar a organização a estar mais voltada a seus clientes, e não aos produtos”, ressalta.
Início de um, fim de outro
Embora tenha implementado Netweaver, este não foi principal motivo que levou a holding Camargo Corrêa a investir 40 milhões de reais no SuperAção e em outros projetos “satélites”.
Com ele, o grupo pretende obter benefícios anuais da ordem de 60 a 100 milhões de reais, ano a ano. A São Paulo Alpargatas recebeu, pela primeira vez, o sistema da SAP, e outras empresas, como a de construção civil e de cimentos, estão sofrendo atualização de versão.
“Nosso plano é aumentar a vantagem competitiva de cada uma das empresas, utilizando o máximo de padrões e pouquíssimas customizações”, explica Ricardo Gomes de Castro, diretor de TI da holding Camargo Corrêa.
Mas o projeto de TI tem origem em uma iniciativa maior, criada em 2002, cuja meta é estar entre os maiores grupos privados não financeiros do País até 2012.
Para atingir este patamar a companhia vem se internacionalizando e fazendo aquisições, como foi o caso da compra, no mês passado, do controle da cimenteira argentina Loma Negra, por mais de 1 bilhão de dólares. A compra transformou a Camargo Corrêa no segundo maior fabricante de cimento da América Latina.
“Estas fusões e aquisições mostram à nós (de TI), que a empresa está se internacionalizando e vamos responder a isto”, ressalta Castro. Com o projeto, o executivo pretende simplificar e padronizar processos e trazer uma gestão multi-país e multi-moedas, viabilizando, entre outras coisas, as compras compartilhadas.
Um dos pontos mais importantes ressaltados por Castro é o fato de que, “pela primeira vez, gerentes de TI de negócios completamente distintos estão juntos, no mesmo andar, discutindo melhorias em processos por meio da tecnologia da informação”.
Na São Paulo Alpargatas, por exemplo, está sendo implementado o módulo AFS, que contempla a questão da grade (tamanhos e cores de um mesmo produto). O projeto é pioneiro na América Latina.
Na empresa de engenharia e construção está sendo utilizada a Industry Solution, para a qual um especialista mundial está sendo deslocado dos Estados Unidos para o Brasil, durante a migração.
O SuperAção deve estar finalizado em 12 meses para todas as empresas e em 18 meses para a Alpargatas. Três empresas pilares estão sendo os modelos para o roll-out: Engenharia e Construção (serviço), Camargo Corrêa Cimentos (indústria de base) e São Paulo Alpargatas (bens de consumo).
Das 120 pessoas fulltime envolvidas no processo de migração, 80 são internos e o restante são consultores externos. Ao contrário da primeira implementação feita, em 1997, a diretriz deste projeto é fazer o menor número de customizações possível.
De acordo com Antunes, da SAP, um dos dois motivos do reaquecimento no mercado são soluções que permitem maior integração e flexibilidade no controle dos negócios. “O momento do mercado é de maturidade, de busca por CRM, BI, oferecidos por novas funcionalidades”, afirma o executivo.
A empresa de eletrônicos Gradiente é um dos 24 novos clientes da SAP. O projeto, que teve início há exatamente um ano, foi finalizado em 6 de junho (dia em que a Camargo Corrêa dava o seu kick off).
De acordo com a gerente executiva de projetos da empresa, Ana Paula Ribeiro Tozzi, o sistema de gestão então utilizado, da Datasul, não estava acompanhando o crescimento da empresa.
A versão 4.7 do sistema SAP foi, então, eleita a solução de gestão que melhor se adaptava às necessidades da companhia. “Precisávamos de mais infra-estrutura e resposta às mudanças”, conta Ana Paula.
Para que as ferramentas tecnológicas não impedissem e limitassem o crescimento da companhia, Ana Paula afirma que fez um plano detalhado de quais eram os prazos, custos e objetivos almejados pela Gradiente. Os quatro meses seguintes à decisão, a empresa passou realizando o processo de seleção e fazendo o diagnóstico de suas necessidades.
Assim, a implementação de diversos módulos, que incluem indústria, logística e escritório, iniciada em outubro de 2004, acaba de ser concluída. “Apesar de ainda estar vivendo a estabilização, que em geral leva três meses, já podemos perceber um aumento significativo do dinamismo das informações e a motivação que isso gerou nos funcionários”, comemora.
Outro benefício, segundo Ana Paula, é que a integração do sistema gera a necessidade de revisar processos – para garantir a qualidade das informações – e isso resulta em mais organização na companhia.
A executiva acredita ainda que o momento de crescimento e estabilização da economia nacional, somado ao aquecimento dos negócios internos da Gradiente e do setor em geral, foram fundamentais para que a empresa optasse pela migração naquele momento.
“Quando a economia melhora, as organizações tiram da gaveta projetos que estavam arquivados”, deixa escapar.
O retorno do investimento na migração do ERP, de acordo com Ana Paula, deverá aparecer entre três e cinco anos, mas deve ser mais significativo em termos qualitativos.
“Estamos satisfeitos com o SAP porque hoje percebemos que o sistema é adequado para a Gradiente pelos próximos dez anos”, aposta.
* colaborou Luiza Dalmazo