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Uma entrevista perdida com J. Presper Eckert, co-inventor do Eniac

No ano em que o Eniac faz 60 anos, uma entrevista recém-descoberta com Presper Eckert, falecido há 10 anos, destrói alguns mitos sobre o primeiro computador eletrônico da História.

Publicado: 25/03/2026 às 06:25
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Uma entrevista perdida com J. Presper Eckert, co-inventor do Eniac
Construção civil — Foto: Reprodução

A história do computador é dividida em duas eras: antes do Eniac e depois do Eniac. O primeiro computador totalmente útil foi apresentado em 14 de fevereiro de 1946, na Moore School of Electronics, da Universidade da Pensilvânia.

Embora haja controvérsias quanto a quem inventou o que, existe um consenso universal de que o Eniac (Electronic Numerical Integrator And Computer) foi o projeto divisor de águas que mostrou que a computação eletrônica era possível.

Eniac_124_98Era uma obra-prima da engenharia elétrica, com confiabilidade e velocidade sem precedentes. Os dois maiores responsáveis por seu sucesso foram J. Presper Eckert (foto, ao lado de sua criação) e John W. Mauchly.

Como as máquinas de calcular funcionavam antes do Eniac?

Bem, uma pessoa com papel e lápis é capaz de somar dois números de 10 dígitos em cerca de 10 segundos. Com uma calculadora de mão, o tempo cai para 4 segundos. Harvard Mark 1 foi o último dos computadores eletromecânicos – somava dois números de 10 dígitos em 0,3 segundo, cerca de 30 vezes mais rápido do que com papel e lápis. Quando eu fazia pós-graduação, a Moore School of Electronics tinha dois analisadores que eram, essencialmente, cópias da máquina de Vannevar Bush, do MIT.

O que aquela máquina fazia?

Resolvia equações diferenciais lineares, mas somente equações lineares. Tinha uma longa estrutura dividida em seções, com duas dúzias de hastes fincadas. Você podia colocar engrenagens diferentes nas hastes usando chaves de fenda e martelos e ele tinha “integradores”, que permitiam que o produto de duas hastes entrasse enquanto uma terceira haste saía. Ao escolher a relação de engrenagens certa, você obtinha as constantes certas na equação. Usamos tabelas publicadas para obter as relações de engrenagens para ter qualquer número desejado.

O limite da precisão desta máquina era o deslizamento das rodas mecânicas no integrador. Isso me fez dizer: “Vamos criar integradores eletrônicos e colocá-los nesta máquina ao invés desse sistema de aros”. Acrescentamos várias dúzias de motores e amplificadores e circuitos usando mais de 400 válvulas eletrônicas, o que, do modo como as coisas eletrônicas são, não é banal. O rádio só tem cinco ou seis válvulas e as televisões, até 30. O órgão musical Nova Chord foi criado antes disso e tinha cerca de 170 válvulas. O Analisador de Bush era, essencialmente, um dispositivo mecânico.

Isso me levou a tentar descobrir uma maneira de multiplicar o número de pulsações juntas para não precisar de engrenagens – então eu fiz a coisa inteira eletricamente. Existe um teorema em cálculo pelo qual você pode usar dois integradores para fazer uma multiplicação. Conversei com John Mauchley sobre isso. É difícil dizer exatamente quem fez o quê, mas a idéia de fazer as integrações por contadores foi minha.  O Eniac foi o primeiro computador eletrônico digital e podia somar estes números de 10 dígitos em 0,0002 segundo – ou seja, 50 mil vezes mais rápido do que um humano, 20 mil vezes mais rápido do que uma calculadora e 1,5 mil vezes mais rápido do que o Mark 1. Era ainda mais veloz em cálculos científicos especializados.

Então é um mito que o Eniac só conseguia somar, subtrair, multiplicar e dividir.

Sim, isso seria uma calculadora. O Eniac fazia equações diferenciais de segunda ordem tridimensionais. Estávamos calculando tabelas de trajetória para artilharia. Naquela época, as tabelas de trajetória eram calculadas por centenas de pessoas operando calculadoras de mesa – indivíduos que eram chamadas de “computadores”. Então, a máquina que fazia esse trabalho foi chamada de computador.

O que lhe deram? Disseram: “Eis uma sala, algumas ferramentas, alguns caras – mãos à obra”?

É. Foi isso mesmo.

Como era a sala do Eniac?

Criamos o Eniac em uma sala de nove metros por 15, no primeiro andar da Moore School, oeste da Filadélfia.

Existe a história de que o Eniac diminuía as luzes na Filadélfia quando estava em uso.

Esta história é ficção total, inventada por algum jornalista. Tiramos energia da rede elétrica. Tínhamos reguladores de voltagem para 150 kilowatts de fornecimento regulado.

Os militares que trabalhavam no Eniac batiam continência para a máquina?

Outro mito do Eniac.

Você disse que a maior máquina com válvulas em 1943 era o órgão eletrônico Nova Chord. O que o Eniac usava?

O Eniac tinha 18 mil válvulas eletrônicas. Elas estavam prontas, nós pegávamos o que o distribuidor podia fornecer em lotes de mil. Usamos 10 tipos de válvulas, mas poderíamos ter usado quatro tipos; apenas não conseguíamos obter em número suficiente. Achamos que os filamentos das válvulas não durariam muito se os mantivéssemos abaixo da voltagem adequada. Nem alto demais, nem baixo demais. Muitos circuitos eram comuns, mas também inventei outros tantos. Os registradores eram uma idéia nova, assim como os circuitos integrados.

A função da máquina foi dividida em oito componentes de circuitos básicos: acumulador, iniciador, programador mestre, multiplicador, divisor/raiz quadrada, gate, buffer e tabelas de funções. O acumulador era a unidade aritmética básica do Eniac. Consistia de 20 registradores, cada um com 10 dígitos de largura, que faziam adição, subtração e armazenamento temporário. O acumulador pode ser comparado aos registradores das atuais CPUs.

Algum dos seus circuitos ainda está em uso nos PCs de hoje?

Não, mas é o que acontece com qualquer primeira invenção. A lâmpada elétrica original de Edison não se parece em nada com uma lâmpada elétrica moderna. Elas fazem a mesma coisa, mas com componentes totalmente diferentes. O mesmo se dá com o computador.

O que sobreviveu foram os conceitos, não o hardware. A idéia de uma sub-rotina era original no Eniac. Mauchly teve esta idéia com base em seu conhecimento sobre o funcionamento interno das calculadoras de mesa e me apresentou sua idéia para uma sub-rotina na máquina.

Em Mark-1, se eles quisessem fazer um cálculo repetidamente, tinham que alimentá-lo com a mesma fita repetidamente. Inventamos maneiras de executar a mesma sub-rotina sem qualquer input mecânico. A idéia de usar memória externa também foi original no Eniac.

Existe uma história de que alguém ficava muito ocupado, com uma caixa de válvulas, tendo que mudar uma válvula a cada poucos minutos.

Outro mito. Tínhamos uma falha de válvula a cada dois dias e conseguíamos localizar o problema em 15 minutos. Inventamos um esquema para montar o computador sobre chassi removível para que, quando uma válvula falhasse, pudéssemos trocá-la em segundos. Executamos uma idéia muito radical de uma maneira muito conservadora.

Quantas pessoas trabalharam no Eniac?

Ao todo, cerca de 50 pessoas, 12 de nós engenheiros ou pessoal técnico. Mauchly lecionava meio-expediente, outros também tinham empregos em meio expediente. Eu trabalhava nele em tempo integral como engenheiro-chefe.

Quantos anos você tinha?

Assinamos o contrato no meu 24.o aniversário: 9 de maio de 1943.

O Eniac era programável?

Sim e não. Programamos a máquina conectando fios de lugar em lugar. Não é hard-wired; não é software; não é memória. É programação plugável. E tínhamos chaves para configurar as funções.

Qual foi a primeira coisa que você fez com o Eniac?

Ele foi projetado para calcular tabelas de trajetória, mas chegou tarde demais para poder ajudar realmente na guerra. Quem primeiro utilizou o Eniac de verdade foi Edward Teller, para fazer cálculos para a bomba de hidrogênio.

Qual foi a maior esquisitice que você fez quando estava desenvolvendo o Eniac?

A gaiola de ratos foi muito engraçada. Sabíamos que ratos comeriam o material isolante dos fios e por isso pegamos amostras de todos os fios disponíveis e as colocamos em uma gaiola com um bando de ratos para ver de qual material isolante eles não tinham gostado. Só usamos fio que passou no teste do rato.

O que o preparou para criar um computador eletrônico?

Naquela época, a Filadélfia era o “Vale da Válvula Eletrônica”. Rádios e aparelhos de televisão eram fabricados predominantemente na Filadélfia. Trabalhei na televisão primitiva em Farnsworth, quando era adolescente, e na Pensilvânia eu tinha trabalhado em vários problemas de radar, tentando cronometrar o tempo que uma pulsação leva para sair e voltar. Calculei isso com contadores. Tudo isso foi um bom impulso para criar um computador eletrônico.

Você se preparou ou foi o tempo que o preparou?

Bem, talvez eu tenha sido excepcionalmente preparado. Eu era muito bom em matemática e estava fascinado pela eletrônica. Projetava gadgets eletrônicos quando era garoto e não só estudei matemática acadêmica, como também matemática comercial. Talvez eu tivesse a combinação certa de interesses. Mas cada inventor fica no pedestal criado por outras pessoas.

Se eu não tivesse feito, alguém teria. Tudo que qualquer inventor faz é acelerar o processo. O mais importante foi que criamos uma máquina que não falhou na primeira vez. Se tivesse falhado, talvez tivéssemos desencorajado esta linha de trabalho por muito tempo. As pessoas, geralmente, criam protótipos, vêem seus erros e tentam de novo. Não podíamos fazer isso. Tínhamos que fazê-lo funcionar logo na primeira vez.

Você tem dúzias de patentes para suas invenções. O que o motiva?

Quando fico mais feliz é quando estou trabalhando na vanguarda de alguma coisa – onde não há muitas pessoas que já fizeram. Quando ninguém fez, é bárbaro. Isso me deixa empolgado.

Quando você estava trabalhando no Eniac, tinha alguma noção de que estas coisas teriam o tamanho do laptop e todo mundo possuiria um?

Mauchly achava que o mundo precisaria, talvez, de seis computadores. Ninguém tinha a menor idéia de que tecnologias de transistor e chip apareceriam tão depressa. É chocante ter o trabalho de toda uma vida reduzido a um décimo de uma polegada quadrada de silício.

Muitas pessoas reivindicam a invenção do primeiro computador. E quanto a John Atanasoff?

No decorrer de uma disputa de patentes, o outro lado trouxe Atanasoff e tentou mostrar que ele criou um computador eletrônico antes de nós. É verdade que ele tinha algo como um controlador de bancada de laboratório e John [Mauchly] foi olhá-lo e escreveu um memorando, mas nunca usamos nada dele. A coisa não funcionava. Não tinha um sistema completo. Invenções são assim: você precisa ter um sistema completo que funcione

John e eu não apenas criamos o Eniac. Ele funcionou. E funcionou durante uma década fazendo o que foi projetado para fazer. Nós seguimos em frente e criamos Binac e Univac e outras centenas de computadores. E a empresa que fundamos continua em atividade, depois de muitas mudanças de nome, como Unisys, e continuo trabalhando nesta empresa.

Atanasoff pode ter ganhado um ponto no tribunal, mas voltou a lecionar, e nós criamos o primeiro os primeiros computadores eletrônicos programáveis reais, os primeiros computadores comerciais. Produzimos muitos computadores e ainda estamos produzindo.

E John Von Neumann?

Ele veio, olhou nosso equipamento, voltou para Princeton e escreveu um longo documento sobre os princípios. Ele recebe muito crédito, mas as invenções eram nossas. Um dia vou escrever um livro sobre quem realmente inventou o computador. Não foi Atanasoff, nem Von Neumann. Fomos nós.

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