Depois do caso Enron/Andersen, braços de consultoria das grandes firmas querem evitar qualquer vínculo com as áreas de auditoria. Algumas empresas já promoveram a separação, inclusive com IPOs, e outras estão em processo de rompimento.
Indiciada com uma acusação federal de obstrução à Justiça norte-americana, por ter destruído documentos relacionados às suas auditorias na companhia de energia elétrica Enron, a Arthur Andersen desencadeou um processo de rompimento entre as áreas de consultoria e de auditoria das empresas conhecidas até então como big five.
Não que a imagem das grandes firmas tenha sido arranhada e nem que haja confusão quanto às atividades de uma e de outra unidade de negócio, dizem os porta-vozes dessas empresas, entrevistados pelo COMPUTERWORLD. A desvinculação, segundo eles, é necessária porque os clientes querem se precaver e, por isso, estão reduzindo ou rescindindo contratos com empresas que carregam as duas bandeiras.
Primeira a promover o divórcio das áreas de consultoria e auditoria, a KPMG Consulting hoje respira aliviada por ver que a sua decisão serve de referência. Em fevereiro fizemos o IPO (Initial Public Offer, ou abertura de capital) e agora a KPMG auditoria vendeu a sua participação na KPMG Consulting. Somos, então, uma empresa independente em termos financeiros e de sócios, comemora Oscar Caipo, country manager da KPMG Consulting e vice-presidente da empresa para a América Latina.
A separação é uma tendência irreversível, apenas acelerada pelo ocorrido com a Enron, e o caso Deloitte ilustra claramente a tendência. Corremos o risco de enfrentar dificuldade em trabalhar junto a clientes auditados pela Deloitte, porque a empresa pode achar que neste momento de turbulência talvez seja melhor não fazer a consultoria com a firma responsável pela auditoria, aponta Ulisses de Viveiros, sócio da Deloitte Consulting.
Não está nos planos da consultoria a mudança da marca, mas a realidade das duas empresas hoje já é diferente do que se via no ano passado. A Deloitte Touche Tohmatsu (auditoria) se separou da Deloitte Consulting, apesar de ainda dividirem algumas funções de suporte, principalmente na área administrativa.
Em território nacional, não há, inclusive, participação dos sócios de uma empresa na outra, o que ocorre em outros países. Fora do Brasil, além de haver uma interação entre as duas empresas, existe um vínculo mais formal, com a participação dos sócios em ambas as operações, explica Viveiros.
O situação é inversa a que ocorre com a Ernst & Young. A empresa já promoveu a separação das unidades de negócio ao redor do mundo, mas no Brasil ainda tem uma operação casada. Nos principais países Estados Unidos e Europa a área de consultoria foi incorporada pela Cap Gemini, lembra Rogério Brecha, presidente do escritório brasileiro da Ernst & Young Consulting, ao dizer que não pode revelar quando o processo chegará ao País.
Timidez
Mas o caso Enron não é o único fator que tem levado as consultorias a buscarem novas frentes de atuação para ampliarem a rentabilidade. Segundo José Luis Rossi, sócio-diretor da PwC Consulting, as consultorias vivem, hoje, um momento crítico, já que há um excesso de capacidade tecnológica, o que restringe o crescimento do mercado brasileiro ao máximo de 20% nesta área.
Ociosidade
Soluções até então adquiridas não estão sendo utilizadas em sua plenitude. Sete em cada 10 clientes estão preocupados com otimização e corte de custos, revela o especialista, ao concluir que os contratos são feitos para otimizar a capacidade instalada.
A PwC Consulting segue em frente com o processo de IPO, que deve ter detalhes divulgados ainda esta semana. Em comunicado oficial, a PricewaterhouseCoopers anunciou, em fevereiro, que a mudança do nome e identificação da marca está em curso desde o último dia 31 de janeiro, e vai determinar a separação total entre a consultoria e a auditoria.
Identificamos a necessidade de separação há dois anos, porque o negócio da consultoria é muito voltado para alianças, parcerias etc., e por razões legais não podemos fazer negócios nem com os nossos clientes nem tão pouco com as empresas que têm contrato com a auditoria, explica Rossi.
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