Em meio às incertezas da economia mundial, executivos do setor de Tecnologia da Informação buscam ilhas de paz para esperar a tempestade passar.
Era o melhor dos tempos. Agora, uma ou duas temporadas depois, algumas pessoas estão prevendo o pior dos tempos. Mas ainda não se sabe quão ruins as coisas realmente estão. Como podemos definir a situação atual? pergunta Howard Rubin, vice-presidente executivo do Meta Group. Desaceleração econômica? Confusão talvez seja um termo mais adequado.
A incerteza faz parte de qualquer mercado, mas não existe nada pior para qualquer mercado. E o de tecnologia não é exceção. A incerteza na economia está refletida visivelmente no comportamento de executivos e empresas de TI, que andam anunciando demissões e reformulando planos de gastos. Previsões de analistas para o resto do ano começaram a aparecer e os números mostram cautela e confusão junto com uma dose estimulante de confiança.
Mar de tranqüilidade
Jerry Miller, CIO da Sears, diz que sua confiança está intacta. Não há desânimo na Sears, afirma. Estamos seguindo em frente com sistemas B2B. Fizemos um dos maiores pedidos neste sentido, 15.000 PDAs palmtop wireless, e o investimento em infra-estrutura de rede, particularmente capacidade IP, continua aumentando. Isso significa, prossegue Miller, que a Sears precisará de mais hardware de networking, incluindo roteadores. Mas ele revela que não existem planos significativos de atualizar servidores e que também está pisando no freio em outras áreas. O que estamos fazendo é optar por não aprimorar sistemas existentes.
Miller acrescenta que a Sears nunca foi grande usuária de software empresarial empacotado e isso não deverá mudar. Os dias de glória destes sistemas se foram e os tempos difíceis atuais talvez sinalizem que eles se foram para sempre.
Dave Boulanger, diretor de pesquisa da AMR Research, acredita que o mercado não verá mais muitos projetos ERP (Enterprise Resource Planning) multimilionários. Estes projetos costumavam consumir dois anos ou mais, diz Boulanger. O período de ROI era ainda mais longo. Agora as empresas têm pouca paciência para projetos que levam mais de nove meses para implementar e esperam obter um ROI expressivo em dois ou três anos, no máximo.
A Sears, na verdade, está cumprindo uma profecia enunciada no ano passado, quando muitos analistas previram que as empresas estabelecidas emergiriam como os players de longo prazo em e-business, enquanto muitas pontocom puras fracassariam. Ainda estamos extremamente empenhados em capacitar a Sears para a Web, revela Miller. E vamos integrar plenamente a Sears.com ao nosso sistema de armazenamento de tijolo e argamassa.
Ainda assim, os comentários de Miller revelam que o investimento em tecnologia não está a todo a vapor. A Sears ainda tem servidores suficientes por algum tempo uma história familiar para fabricantes de hardware, como a Sun Microsystems, que lutam para recapturar o crescimento explosivo que, até pouco tempo, parecia destinado a durar para sempre.
Os planos da Sears de comprar mais hardware de networking são uma boa notícia para fabricantes enfermos, como a Cisco; mas, segundo analistas, estes fabricantes não terão muito motivo para sorrir. As vendas de hardware, tanto de servidores quando de dispositivos de networking, provavelmente vão diminuir em 2001, prevê Ludovica Bruno, analista da IDC. Em 2000 vimos uma queda em relação aos números que havíamos projetado no começo do ano.
Tempestade perfeita?
Rubin, do Meta, viu os gastos com TI como porcentagem da receita caírem de quase 25% para menos 10%. Em agosto, as empresas começaram a pisar no freio, diz Rubin. Em março, elas pisaram fundo. Embora os números indiquem uma grande desaceleração dos gastos com TI, Rubin diz que este fato seria melhor pontuado com um ponto de interrogação do que com um ponto final. Os budgets de TI como porcentagem das receitas estão encolhendo, explica. Mas o que acontece se entramos realmente em uma recessão e a receita começa a afundar? A TI é atingida por um duplo golpe.
Com outros fatores imprevisíveis entrando em cena, como a redução da demanda européia por tecnologia, os budgets de TI poderiam diminuir ainda mais, prossegue Rubin. É um sistema complexo, como o clima no oceano Atlântico. Quando a confluência é exata, acontece uma tempestade perfeita, compara Rubin.
Boulanger, da AMR, diz que até agora o apetite da Europa por TI continua saudável. Vimos uma pequena queda nos Estados Unidos, mas a Europa parece estar agüentando firme. Ele afirma que também ocorreu uma redução dos planos de gastos, mas, em cerca de 40% das empresas que seu grupo pesquisou recentemente, não há mudanças sensíveis. Os números, porém, não contam toda a história.
Mesmo onde o investimento continua estável, a qualidade dos aportes mudou, diz Boulanger. No início do ano passado o talão de cheques era ilimitado para projetos de e-commerce e portais. Agora, CFOs e COOs olham para estes projetos de forma mais crítica. Hoje, os projetos que são financiados têm que satisfazer dois critérios rigorosamente: trazer um ROI esperado em um período de tempo razoável e proporcionar alguma diferenciação estratégica, observa.
O último implica que CRM (Customer Relationship Management) ainda pode ter um forte desempenho este ano. E.P. Rodgers, CIO do MONY Group, empresa de serviços financeiros, diz que, sem dúvida, este é o caso de sua instalação. O primeiro trimestre deste ano será mais disciplinado na avaliação de projetos de TI, acredita Rodgers. Mas ainda planejamos gastar o dobro de 2000 em CRM. No nosso negócio, a capacidade de se comunicar com mais eficiência com nossos clientes e oferecer-lhes mais serviços online se tornou essencial.
Rodgers tem a maior parte do hardware de que precisa. Apenas cerca de 10% do nosso budget irá para hardware novo, explica. O resto está dividido uniformemente entre software e serviços de integração.
Um raio de esperança?
Uma nuvem negra pode estar se formando, mas existe um raio de esperança, segundo um consultor. Vejo os executivos de TI seniores dando um grande e coletivo suspiro de alívio, diz Rod Hall, vice-presidente de serviços de consultoria da Compass America, empresa de consultoria em gestão.
De acordo com Hall, a fase de vitalidade e urgência da última década dificultou que os executivos de TI entendessem plenamente o que estavam gastando e porquê. Muita coisa foi fomentada pelas demandas de diversas unidades de negócio, diz Hall. Elas queriam acesso à Web e pipes maiores, uma reação em cadeia. Agora CIOs, CTOs e seus pares finalmente têm a chance de recuperar o fôlego.
Hall cita o seguinte exemplo de um de seus clientes. A empresa tem 5.000 servidores e apenas 20.000 funcionários. Agora o CIO finalmente pode dar-se ao luxo de perguntar como isso foi acontecer e por que ele precisa de tanto hardware de alto valor. O cliente agora planeja reduzir o número de servidores pela metade ao mesmo tempo que mantém a qualidade do serviço.
Modelo
Isso exemplifica os desafios e as oportunidades que acompanham os tempos atuais um tanto difíceis. Quando se trata de gastos com TI, existe uma maneira inteligente de usar o freio e outra nem tanto, afirma Rubin, do Meta. A coisa inteligente a fazer é beneficiar-se da oportunidade de repensar a plataforma de tecnologia inteira. Então você pode reestruturar e consolidar onde faz sentido. A abordagem menos inteligente é simplesmente matar muitos projetos que você estava planejando para o ano.
Das 8.000 empresas pesquisadas para um relatório recente, apenas cerca de 8% seguem a abordagem inteligente, contabiliza Rubin. A maioria está no meio, fazendo alguma consolidação, mas não se beneficiando realmente da situação para descobrir como fazer mais com menos.
Rubin compara a situação atual da TI com a crise de combustível dos anos 70. A TI é, essencialmente, um motor econômico, explica. Quase três décadas atrás, quando o preço da gasolina disparou, de repente os motores que bebiam muita gasolina perderam a preferência. Agora, em TI, está dada a largada para descobrir um motor mais eficiente.
Esta meta, que segundo Rubin está dentro das possibilidades de muitas empresas, deverá reduzir os gastos com TI em um terço ou à metade nos próximos três anos, enquanto, ao mesmo tempo, triplica o resultado do trabalho.
| Gastos com hardware nos Estados Unidos: | |
| Em 2000 | US$ 178,8 bilhões |
| Projetados para 2001 | US$ 178,5 bilhões |
| Gastos com hardware na Europa Ocidental: | |
| Em 2000 | US$ 106,4 bilhões |
| Projetados para 2001 | US$ 115,1 bilhões |
| Taxa média prevista de crescimento dos gastos com TI: | |
| Início de 2001 | 4% |
| Fevereiro de 2001 | 0% |
| Março de 2001 | -10% |
| Fonte: Meta Group | |
|Computerworld – Edição 348 – 22/08/2001|