Disputando vaga em um mercado de trabalho cada vez mais seletivo, os profissionais de Tecnologia da Informação que querem uma oportunidade melhor só têm um um caminho a trilhar: investir na formação pessoal. Especialistas orientam a ficar de olho nas tecnologias que começam a fazer barulho e adquirir qualificações específicas nessas áreas.
Há mais de dois anos enfrentando um mercado de trabalho adverso, os profissionais de Tecnologia da Informação (TI) perguntam-se quando a situação vai melhorar. A resposta é em parte negativa consultores e analistas do setor são unânimes em afirmar que os bons tempos do final dos anos 90 não voltam mais “, mas não é desesperadora. Embora em menor número, existem vagas no mercado. A disputa por um lugar ao sol, no entanto, aumentou muito.
A situação do mercado se reflete nas próprias empresas de recolocação de profissionais. A Laerte Cordeiro Consultores em Recursos Humanos, por exemplo, saltou de uma média de 1.900 ofertas de trabalho por ano para 2.600 oportunidades em 2000, considerando-se todas as áreas de atuação. O fenômeno foi puxado em grande parte pelos setores de TI, Internet e telecomunicações. No ano passado, houve uma queda para menos de 1500 vagas o mesmo patamar do início da década de 90.
Diante desse quadro, qual é o melhor caminho para quem saiu do mercado de trabalho nos últimos tempos ou está insatisfeito com o emprego atual e busca uma oportunidade melhor? Não há muita margem para manobra, mas algumas orientações ajudam. A principal: conhecer as tecnologias que prometem movimentar o mercado nos próximos anos e adquirir qualificações específicas nessas áreas. O analista de pesquisas da IDC Brasil, Mauro Peres, lista Business Intelligence (BI), .Net, Web services e segurança da informação como tendências para os próximos anos.
Peres afirma que mesmo projetos “tradicionais”, como sistemas de gestão empresarial (ERP), de gerenciamento de cadeia de fornecimento (SCM) e de relacionamento com os clientes (CRM) ainda são importantes, mas nesses casos o currículo tem de estar recheado de casos práticos. “O que conta hoje é experiência. Quem só fez cursos será obrigado a trabalhar de graça no primeiro projeto.
Além disso, vale a pena ficar de olho em software livre, já que o governo federal sinalizou que vai priorizar as soluções de código-fonte aberto. Telecomunicações constituem uma área ainda muito delicada, mas uma das saídas são as aplicações wireless, que tendem a ganhar espaço nos próximos anos.
Para o especialista em engenharia de software da Rational, Paulo Miranda Porto Filho, existe demanda por profissionais com conhecimentos nas diversas áreas relacionadas com fábrica de software, como modelagem visual e arquitetura de sistemas. A diretora da empresa de contratação de profissionais Mariaca&Associates, Danielle Sarraf, lembra que é importante ter uma visão de prestador de serviço, até porque grandes companhias de TI, como IBM e HP, apostam em serviços para crescer nos próximos anos.
O vice-presidente para a América Latina do Gartner, Cassio Dreyfuss, não acredita que alguma nova tecnologia terá força para, ainda em 2003, servir de válvula de escape ao grande contingente de profissionais de TI desempregados. Dreyfuss critica a falta de método nas demissões. “Se as empresas fazem um estudo de negócios para investir, também devem fazer para desinvestir. Quando isso ocorre, surgem surpresas agradáveis para a área de TI, que se mostra mais estratégica do que se pensava.”
Foco em negócios
Já o sócio-diretor da e-Consulting, Daniel Domeneghetti, aconselha buscar especializações em áreas relacionadas com interoperabilidade de tecnologias, modelagem de processos de TI, padrões de convergência e segurança. Mas Domeneghetti alerta que a curva salarial para qualquer tecnologia é sempre descendente. No início, quem detém conhecimento em uma nova tecnologia é valorizado. À medida em que mais pessoas se especializam na área, a balança se inverte: o excesso de mão-de-obra derruba os salários.
Exatamente por isso, os desenvolvedores que têm ambição de ser mais do que “recurso”, como são denominados os profissionais baratos contratados para um projeto de TI, terão de entender de negócios. Para quem ocupa cargos de analistas sênior para cima é fundamental ter visão de negócios”, afirma Alexander Lucinski, presidente da consultoria homônima.
Adquirir capacidade de negociar, de traçar estratégias e fechar acordos é imprescindível, concorda Dreyfuss, do Gartner. Isso é extremamente válido em um cenário de fusões e aquisições, porque na hora de juntar empresas é preciso negociar qual plataforma será adotada.”
Pirâmide
Domeneghetti, da e-Consulting, afirma que a representação do mercado de trabalho de TI para os próximos anos pode ser feita na forma de uma pirâmide. A base da estrutura é preenchida pela mão-de-obra mais barata e muitas vezes recém-formada. São integradores, analistas júnior, desenvolvedores júnior, programadores de linguagens de Web e de linguagens padrão de mercado. A base vai crescer muito, com pessoas menos qualificadas fazendo trabalho braçal para as empresas que terceirizam, diz Domeneghetti.
No meio da pirâmide estão profissionais de nível intermediário. Essas pessoas terão basicamente três caminhos a seguir: especializarem-se cada vez mais até atingirem o status de programador sênior, tornarem-se analistas sênior ou tentarem se estabelecer como consultores. Esta última opção é especialmente interessante para quem está fora do mercado de trabalho. Mesmo que a empresa não tenha condições de registrar o profissional, pode precisar de um conhecimento específico em um dado momento. Aí surgem oportunidades para consultores, diz Danielle, da Mariaca&Associates.
Quem chegar ao estreito topo da pirâmide terá duas opções: se enveredar pelo campo da infra-estrutura, pode tornar-se um Chief Technology Officer (CTO); no caso de amealhar qualificações e experiência em negócios, será um Chief Information Officer (CIO).
Falta de qualidade
Mas existe o outro lado da moeda: nem sempre a qualidade dos profissionais de TI é adequada. Há um número razoavelmente grande de empresas contratando, mas essas companhias se queixam da falta de qualificação dos candidatos a uma vaga. As pessoas, infelizmente, não são pró-ativas em suas formações. Poucas se preparam para as demandas que vão surgindo. Vejo isso em todos os níveis, diz Lucinski.
“Falta mais qualidade do que quantidade”, afirma Júlio Moravia, vice-presidente de negócios da Relacional, consultoria especializada em TI. Hoje em dia o mercado é muito seletivo, então é fundamental que o profissional tenha alguma especialização.
Moravia comenta que a Relacional contratou cerca de cem profissionais em 2002, fechando o ano com 450 funcionários, e espera crescer mais 20% em 2003. A empresa recebe uma média de 400 currículos por mês mas, mesmo assim, criou um curso de estagiários para formar em casa profissionais bem qualificados que nem sempre são encontrados no mercado.
Não há segredo: sempre existe espaço para quem for bem preparado. Mas, como esse espaço diminui muito nos últimos anos, a única saída é investir cada vez mais na formação pessoal.
|Computerworld – Edição 381 – 12/03/2002|