Executivos bem-sucedidos avaliam suas carreiras e contam como lidaram com os momentos decisivos que nortearam suas formações profissionais, experiências de mercado e opções tecnológicas.
André Borges
Não é de surpreender o fato de que, nos dias de hoje, boa parte dos principais executivos de tecnologia da informação em todo o mundo advém de áreas pouco ligadas à informática, muitas vezes sem qualquer relação direta. A pesquisa norte-americana The State of the CIO 2004, realizada com exclusividade pelo IDG, que publica COMPUTERWORLD, deu números a essa realidade.
O estudo revela que 70% dos 540 entrevistados devem seus atuais cargos muito mais à experiência pragmática do mercado do que aos ensinamentos adquiridos nos bancos da escola. Assim como nos Estados Unidos, a formação acadêmica do CIO brasileiro costuma figurar entre cursos clássicos de administração, engenharia e matemática, reflexo da recente profissionalização do setor, ocorrida somente nas últimas décadas.
Em um cenário como esse não seria descabido se os atuais manda-chuvas da TI no Brasil decidissem incluir em seus currículos características como teimosia, talento e, talvez, um pouco de visão futurística. Na década de 70 não havia um curso específico de ciências da computação. Então, só entrava na área quem realmente gostasse de tecnologia, aqueles que queriam programar, lembra o gerente de sistemas e TI da Drogasil, José Luis Padovan, que se graduou em matemática.
Seja em decorrência da ausência de formação específica ou mesmo das indecisões que comumente rondam as cabeças de quem está para decidir seu futuro universitário, o fato é que muitos dos executivos que hoje ocupam cargos de líderes de tecnologia nas empresas titubearam muito entre áreas bem distantes do mundo dos bits.
Geralmente, ao falar do passado, a maioria trata suas experiências com certa dose de saudosismo, mas também, isso é bom que se diga, sem nenhuma gota de arrependimento, ao menos é o que se verificou com os executivos que participam desta reportagem. Pois que CIO não estaria feliz da vida ao controlar as decisões tecnológicas de uma empresa bilionária como a Companhia Vale do Rio Doce, líder mundial no mercado de minério de ferro, com operações em quatro continentes e faturamento de US$ 5,5 bilhões em 2003? Isso aqui é bom demais, diz Adriana Peixoto Ferreira, diretora de departamento de TI da CVRD.
A executiva, hoje uma obstinada pelo que faz, também viveu seus momentos de dúvida. Quando buscava formação na área, pensou em abandonar a carreira. Havia a reserva de mercado, foi um período meio chato. Naquela ocasião pensei em desistir, mas acabei seguindo em frente, recorda Adriana. Formada em engenharia eletrônica, ela passou por empresas fabricantes de modem e chegou a montar uma companhia especializada em desenhar equipamentos de transmissão de dados, até que foi convidada a gerenciar o departamento de TI da CVRD, em 1998.
Essa profusão de experiências tão distintas que atualmente forma os líderes de TI das grandes empresas no País traz em seu bojo situações curiosas. Afinal e não haveria como ser diferente o sucesso de hoje também significou deixar para trás outros objetivos, metas e até talentos. COMPUTERWORLD convidou alguns diretores de TI a entrar neste túnel do tempo (veja quadro na página) e responder à seguinte pergunta: o que você faria da sua vida caso não tivesse optado pela área de tecnologia?
Medicina. Eu gostava muito de pediatria, diz convicto o gerente de TI da Spaipa indústria Brasileira de Bebidas, Cláudio Antônio Fontes. Antes de iniciar sua carreira, o executivo chegou a fazer alguns plantões em hospitais para sentir o gosto da profissão. Mas acabou desistindo da idéia ao ver de perto a realidade dos corredores hospitalares. Também pesou na decisão o fato da profissão exigir muito tempo de estudo, pondera Fontes.
Na Dixie Toga, uma das maiores fabricantes de embalagens da América Latina, é provável que muita gente também não saiba que por trás das decisões tecnológicas da empresa está um medalhista pan-americano. Formado em ciências da computação, Ruy Casale chegou a desenvolver a carreira de atleta durante vários anos, inclusive enquanto cursava a faculdade. Foi membro da seleção brasileira de hóquei sobre patins, sendo campeão pan-americano em 1983 e o quinto colocado no mundial de 1984.
Quando terminei o campeonato cheguei a receber um convite para ir para a Europa, mas acabei ficando por aqui, comenta o executivo, acrescentando que o fator financeiro e a falta de apoio ao esporte pesaram bastante em sua decisão de não seguir carreira na área de educação física.
As mesmas razões fizeram com que o ex-CIO da Ambev, Rubens Nicoluzzi, decidisse fazer do judô apenas uma atividade de lazer. O executivo, que hoje dirige a prestadora de serviços de tecnologia Fastmind, foi campeão brasileiro de arte marcial japonesa enquanto cursava engenharia eletrônica na década de 80. Anos depois, já como diretor de marketing da Prolan, o executivo chegou a patrocinar o judoca Aurélio Miguel.
O mundo dos esportes também ocupa o passado Padovan, gerente de sistemas e TI da Drogasil, mas os projetos que fizeram a vida profissional desse executivo estavam longe de quadras, pistas ou piscinas. Na época, conversei com professores de educação física, avaliei a profissão, mas acabei deixando de lado por não ter uma habilidade específica, diz.
O que faria diferente em TI?
Quem escolheu o setor de tecnologia em busca de tranqüilidade e isolamento, de um cubículo frio isolado dos problemas, já deve ter desistido da carreira. Ou então deveria. Se quase sempre não faltaram dúvidas na hora de fisgar a profissão, muito menos agora, em que o caminho já foi trilhado. Em uma área em que mudanças são uma constante, não faltam modismos e promessas milagrosas do mercado, o CIO se esmera para não cair em armadilhas que frustrem suas expectativas ou até mesmo que comprometam o andamento de suas empresas.
Diferente de uma escolha profissional, que na maioria dos casos envolve dedicação de longo tempo para se alcançar os resultados, as definições tecnológicas se mostram acertadas ou equivocadas no curto prazo. É por essa razão que muitas vezes o ceticismo perdura no dia-a-dia de muitos CIOs nos últimos anos. Numa pesquisa recente desenvolvida pela Doremus Agência de Comunicação e Marketing, em parceria com o The Economist Group, foi constatado que ainda hoje 50% dos CEOs, CFOs e CIOs, ao tomar decisões sobre despesas de negócios, não levam em conta outros casos exemplares ou comprovações de retorno de investimento para o projeto.
O estudo mostra que a velha regra de seguir a intuição figura entre 44% dos pesquisados, os quais revelaram ser desnecessária a avaliação comparada de retorno caso acreditem fortemente em seus projetos. Para o CIO, isso se reflete em decisões arriscadas. Sempre tentei fugir dos modismos, a pressão é muito grande, diz Maurício Carvalho Arguello, gerente de TI/suprimentos da fabricante alemã de motores elétricos SEW Eurodrive.
Conseguir escapar do mundo encantado da TI ainda não é suficiente, como reconhece Arguello. Sempre insistimos muito em sistemas caseiros aqui. Mas fazendo uma avaliação do passado, acho que eu teria partido para sistemas de fora muito antes. Quando mudamos para o SAP em 1999, passamos por um trauma muito forte, conta. Há dez anos na empresa, o executivo diz que hoje mantém internamente apenas o desenvolvimento de aplicações ligadas à internet.
Se pudesse, Cláudio Fontes, da Spaipa, também voltaria no tempo. Demorei para tomar decisão quanto ao uso de software livre. Alguns colegas apostaram nisso há uns três anos, e eu só comecei a colocar uma lupa nisso no final de 2003. Hoje estamos bem nessa área, mas muito aquém de onde podemos chegar, admite o executivo.
Responsável pelas diretorias de marketing, industrial, finanças, recursos humanos e logística em uma empresa com 1,8 mil funcionários diretos e 500 terceirizados, Fontes diz que também gostaria de ter dado mais atenção à gestão de pessoas. Só fui dar foco nisso em 1998, talvez devesse ter feito isso antes. As demandas nascem das pessoas, a estrutura de projetos sempre envolverá relacionamento. Nós sempre somos muito focados no resultado, mas temos que ter mais atenção com a mudança cultural.
Foi para suprir parte dessa mesma necessidade que Adriana, da Companhia Vale do Rio Doce, decidiu fazer um curso de MBA, um ano depois de assumir a gestão de TI da empresa. Gerenciar é algo intenso, há muita pressão de mudança e consumo, ao mesmo tempo em que é preciso preservar e pensar no legado. Tive que aprender a dizer não, comenta.
Com um modelo arrojado de governança corporativa, a Vale fez de seu departamento tecnológico uma peça estratégica para o andamento dos negócios. Isso mudou completamente a cara da operação. E já mexe com as ambições de Adriana. Se eu pudesse ser mais marqueteira e menos tímida, acho que seria melhor, completa a executiva.
Situação semelhante levou Padovan, da Drogasil, a cursar uma especialização em marketing. Vi que isso era uma necessidade pessoal que poderia impulsionar minha carreira em algum instante. Agora farei uma nova reciclagem profissional, talvez um MBA na área de tecnologia, diz.
Tempo para mudar
A mesma agilidade do ambiente tecnológico que todos os dias desafia o gestor, também o favorece. Não é por acaso que a maioria das possíveis atitudes que os executivos gostariam de ter tomado no passado está atrelada a questões de tempo. E, nesse caso, trata-se de experiências passíveis de correções no curto prazo. Outro que aprendeu essa lição foi Casale, da Dixie Toga, durante o processo de implementação do sistema de gestão empresarial da fornecedora Baan.
Fruto de uma série de fusões e aquisições, a Dixie Toga viu sua infra-estrutura de TI resultar num complexo legado de sistemas. Quando Casale assumiu o cargo de CIO em 2001, a empresa já tinha tomado a decisão migrar para a solução Baan, mas o produto ainda não estava implementado em todas as áreas da empresa. Quando cheguei, o ERP ainda não havia sido implementado nas plantas industriais. Foi quando pensamos em abortar o sistema e voltar para algo proprietário na área industrial, conta o executivo, lembrando que na ocasião foi motivado pelo período conturbado que vivia o seu fornecedor.
Havia incerteza sobre o futuro da empresa. Além disso, a primeira implementação deles foi muito traumática porque o produto ainda era mal localizado e nos também não estávamos pronto para aquilo.
A Dixie Toga decidiu estruturar uma nova fábrica sem adotar a solução da fornecedora. Um ano depois, mudou de idéia. Vimos que o produto deles era a melhor opção. E hoje não nos arrependemos de ter voltado atrás, foi uma ótima decisão, comenta Casale.
Também há casos estes certamente mais freqüentes em que o CIO se vê de mãos atadas para tomar certas decisões que, em sua opinião, poderiam ser interessantes para a empresa. Questões políticas e burocráticas à parte, esse inimigo costuma ser chamado de orçamento. Há sete anos na gerência de sistemas e TI da Drogasil, Padovan já viveu essa experiência.
Todos os dias temos que adequar os recursos com aquilo que realmente deve e pode ser feito. Quase quatro anos atrás nós partimos para uma solução de frame relay. Mas há sete anos eu já havia proposto a adoção dessa tecnologia. Mas era algo muito caro, não seria viabilizado. Com a cautela gerencial adquirida nesses anos de mercado e nos cursos de especialização, o executivo esperou o momento certo de agir e levou o projeto adiante.
A percepção administrativa, dosada de audácia e visão de mercado, foi uma das características que arrancaram Nicoluzzi do posto de CIO da Ambev e o levaram à direção de um negócio próprio. Mas para chegar até lá o executivo teve que suar muito a camisa nas áreas comercial, de marketing e financeira. Esta foi a lição aprendida por ele com o judô. Nicoluzzi diz que da luta herdou a perseverança, a disciplina. Aqui estão algumas características que nenhum profissional deveria abandonar, seja um CIO, seja um campeão olímpico.
Nos momentos decisivos
Quem?
Adriana Peixoto Ferreira, diretora de departamento de TI da Cia. Vale do Rio Doce
O que fez?
Com formação em engenharia eletrônica, fez MBA um ano após assumir a área de TI da CVRD com o objetivo de se aproximar mais da área de gestão.
O que faria?
Teria trabalhado mais na divulgação dos projetos da área de TI, comunicado com mais eficiência os resultados e a influencia do departamento nas estratégias da empresa.
Quem?
Cláudio Antônio Fontes, gerente da divisão de TI da Spaipa Indústria Brasileira de Bebidas
O que fez?
Apostou em sistemas proprietários e se dedicou exclusivamente a apresentar resultados de suas operações.
O que faria?
Daria mais atenção ao software livre, o que efetivamente só passou a fazer no final de 2003. Na área de gestão, procuraria valorizar mais o relacionamento com as pessoas, os aspectos que envolvem a mudança cultural.
Quem?
José Luis Padovan, gerente de sistemas e TI da Drogasil
O que fez?
Há cerca de três anos, gerenciou a implementação de uma rede de frame relay na empresa.
O que faria?
Se pudesse, teria adotado a solução há mais de sete anos, mas foi impossibilitado devido a limitações orçamentárias e outros objetivos da empresa.
Quem?
Maurício Carvalho Arguello, gerente de TI/Suprimentos da SEW Eurodrive
O que fez?
Por muito tempo, este executivo, que hoje cursa MBA em gestão de negócios, insistiu no desenvolvimento interno de sistemas.
O que faria?
Partiria para um sistema profissional muito antes. Em 1999, quando a empresa decidiu migrar de suas soluções para o produto da SAP, viveu um período de trauma muito forte. Atualmente, apenas aplicações ligadas à internet são desenvolvidas pela empresa.
Quem?
Ruy Casale, CIO da Dixie Toga
O que fez?
Ao analisar as indecisões que rodavam o futuro da fornecedora de sua solução de gestão empresarial, a Baan, decidiu paralisar a implementação do sistema em suas plantas industriais e voltar para algo proprietário. Decidiu estruturar uma nova fábrica sem adotar a solução da fornecedora.
O que faria?
Continuaria com a Baan, o que efetivamente fez, mas dando continuidade ao processo na área industrial somente um ano depois.
|Computerworld – Edição 421 – 24/11/2004|