Natura reuniu consultoria externa, administração de pessoal e equipe de TI no plano diretor para tornar o recursos humanos da empresa uma divisão estratégica para cada tomada de decisão.
André Borges
Dia 12 de outubro. A Natura, empresa brasileira de cosméticos, envia centenas de convites para um pequeno grupo infantil, centenas de nomes escolhidos a dedo. Nominal e entregue em mãos, a carta convida a criançada para ir até a companhia, entrar em suas salas, corredores, passear pela fábrica, enfim, fazer a festa. A estratégia, que dá pinta de peripécia marqueteira para vender produtos para o público infantil tem, na verdade, um alvo bem distinto: os próprios funcionários da Natura. Fomos até nossa base dados, identificamos quais dos nossos 3.100 profissionais têm filhos e então mandamos uma carta para a casa de cada um, no nome de cada criança, conta Flavio Pesiguelo, gerente de RH da Natura.
Ações simples de endomarketing como essa, ou mesmo iniciativas mais complexas como oferecer pela internet acompanhamento de resultados e performance individuais, informações sobre produtos, gerenciamento de carreira, remuneração, contratação e desligamento de funcionários ganharam fôlego na Natura há pouco mais de três meses, após a conclusão de um plano diretor de informatização. Criado especialmente para a administração de pessoal da empresa, este projeto é parte do que a Natura batizou de Planejamento e Desenvolvimento de Recursos Humanos, um processo institucionalizado pela empresa usado para identificar, adquirir e desenvolver competências. É com base nesse PDRH que a Natura determina medidas para desenvolvimento organizacional; processo de gerenciamento de desempenho; treinamento e desenvolvimento; recrutamento e seleção.
Os números da empresa explicam por que tanta complexidade está longe de ser mera burocracia. Entre seus mais de 3 mil funcionários diretos, estão 800 promotoras de vendas que hoje respondem pela capacitação, manutenção e ampliação de uma base de 367 mil vendedores indiretos espalhados por todo o País. Cuidamos especificamente de nossa base interna, para que ela possa dar todo o suporte necessário à revenda, explica Pesiguelo.
Mas nem sempre foi assim. Em 2000, o contato mais estreito entre RH e tecnologia estava praticamente limitado à geração de folha de pagamento. Foi quando decidimos que já era hora do Recursos Humanos se tornar estratégico para a empresa. Então iniciamos o projeto em 2002, chamamos a área de TI e contratamos a Accenture.
Tudo em casa
Pesiguelo não pisava em solo arenoso. Com formação em análise de sistemas, o gerente de RH já tinha desenvolvido sistemas para administração de pessoal e sabia muito bem como uma área poderia colaborar com a outra. Durante dois anos, a Natura tratou de separar problemas de sistemas e de processos, mapeando tudo o que seria informatizado. Fizemos uma reunião e criamos uma estratégia para definir o papel de cada gestor.
O namoro entre TI e RH deu certo e a tecnologia presenteou o departamento de pessoal com uma de suas gerentes de sistemas. Hoje temos uma mediadora, uma profissional que entende nossas necessidades e busca a solução na tecnologia, explica Pesiguelo.
Na área de sistemas, a companhia avaliou diversas ferramentas, mas acabou decidindo pelo SAP por já utilizá-lo em outros departamentos, inclusive na folha de pagamento. Compramos uma solução de portal deles, o que facilitou o gerenciamento porque usa interface web. No ar desde julho, a intranet permite que, por meio de uma senha, seus usuários tenham acesso a diversos serviços e aplicações, tudo desenhado para cada perfil profissional. Na unidade fabril da Natura, em Cajamar (SP), quiosques com computadores forma instalados em diversos locais da empresa. O gestor passou a ter uma ferramenta abrangente, com isso nós descentralizamos os serviços e passamos a ter tempo para pensar mais estrategicamente.
As mudanças também levaram a Natura a rever contratos com prestadores de serviços. A gestão da folha de pagamento, até então terceirizada com a empresa ADP Systems, passou para as mãos da Accenture. Eles faziam parte do serviço e nós ficávamos com a gestão de sistemas, era uma bola dividida. Com a consultoria terceirizamos tudo, da implementação do sistema até a administração de pessoal e de melhorias no R3 (produto da SAP), comenta Pesiguelo.
Cultura
Passadas as fases de mapeamento de processos e implementação de sistemas, a Natura entra numa etapa que, segundo seu gerente de RH, é a mais complexa: a questão comportamental. Para avaliar o impacto das mudanças, uma pesquisa está percorrendo todas as áreas da empresa, pedindo opiniões e críticas dos funcionários. Com o resultado que deve ser apurado nos próximos dias a empresa fará os ajustes necessários. É um pouco cedo para avaliarmos os resultados, o próprio RH mudou muito, é difícil largar a velha planilha, admite o executivo.
Pesiguelo acredita que, atualmente, apenas 60% do potencial do RH vem sendo utilizado. Tanto a consultoria externa quanto o departamento de TI serão essenciais para ampliar este índice. Mantemos um contrato com a Accenture por horas de trabalho/mês. Hoje tenho uma lista de 60 melhorias, aos poucos vamos cobrando isso.
O mercado tem reconhecido o esforço feito pela empresa. Por três anos consecutivos, a Natura ganhou o título de Melhor Empresa do Setor de Higiene e Limpeza, premiada pela revista Carta Capital como a companhia do segmento de cosméticos mais admirada pelo público. O site Natura.net também levou o prêmio iBest Grand Prix no ano passado. Com o mesmo modelo agressivo de remuneração, a empresa já ampliou sua rede para países como Argentina, Bolívia, Chile e Peru. Hoje o Recursos Humanos é um departamento ativo, que atua nas decisões da companhia, e para isso tem como ferramental fundamental as soluções de tecnologia, conclui Pesiguelo.
|Computerworld – Edição 420 – 03/11/2004|