Estas estações voltam a chamar a atenção como uma alternativa de baixo custo e o desafio dos projetos está em saber como e, sobretudo, onde esse tipo de solução é adequado.
Quando fazia a atualização de seu sistema de gestão corporativa, em 2000, o gerente-geral de TI da Perdigão, Adhemar Hisashi Hirosawa, deparou com um problema: a maioria dos micros dos usuários não suportaria a nova versão do software. Era necessário trocar cerca de 800 máquinas, a um custo médio de US$ 1,3 mil cada. A despesa excessivamente alta exigiu que o executivo pesquisasse a fundo possíveis alternativas. Após analisar uma série de opções, o CIO decidiu por uma migração em larga escala para thin client terminais sem poder de processamento local, ligados a servidores que rodam todos os aplicativos.
A conta foi simples: o thin client custa cerca de US$ 550 por unidade. Mesmo considerando software e servidor, o investimento fica próximo a mil dólares ainda assim 30% a menos do que os desktops. Mas o que fez Hirosawa se decidir foram alguns benefícios mais difíceis de quantificar, mas nem por isso menos importantes. Vislumbramos a possibilidade de gerenciar todo o ambiente de forma centralizada, diz o executivo. Outro ponto que pesou foi a segurança, que pode ser feita apenas por meio do servidor.
Nem todos partilham dessa visão otimista quando o tema é a chamada thin computing, ou computação magra, na tradução literal. Existem algumas preocupações e gastos inevitáveis para quem opta por essa solução. É preciso, por exemplo, investir em gerenciamento sobre as aplicações no servidor. Como muitas aplicações não foram desenhadas para múltiplos usuários, os programas tentam usar toda a capacidade disponível de processamento e um cliente pode roubar performance de outro. Além disso, o thin client exige contingência de servidores e demanda investimentos em toda a rede.
O thin client compensaria mais se toda a infra-estrutura de TI à sua volta acompanhasse a queda de preço que é verificada no terminal, afirma Wilson Roberto Bejar, consultor técnico da Intel. O gerente de marketing e parcerias da DTS Latin América, Leandro Bosco Martins, concorda. Hoje, as grandes empresas que empregam desktops trabalham com máquinas montadas por integradoras, sem marca, cujo custo de aquisição e manutenção não é muito diferente do thin client, diz o executivo.
Então, qual é, afinal, a validade de investir em uma computação magra? Tanto quem defende como os que são avessos ao uso da tecnologia têm a sua parcela de razão. O segredo está em saber como e, sobretudo, onde esse tipo de solução é adequado. Há certas aplicações que são candidatas naturais a thin client, como um call center ou help desk, em que os funcionários usam a mesma aplicação todo o dia. Mas para os chamados trabalhadores do conhecimento, que compreende áreas relacionadas com desenvolvimento, criação e alta administração das empresas, os micros tradicionais são mais indicados por permitir o uso de uma ampla gama de software que executam funções específicas.
Nada se perde
Quando uma empresa se encontra com um parque de PCs em rápida obsolescência e algumas restrições orçamentárias, está formada uma das situações em que a alternativa da thin computing se torna mais sedutora. Foi o que aconteceu com a Uni Sant’Anna, universidade criada em 1969 que hoje conta com dois campi em São Paulo, um na cidade de Salto (SP) e soma 10 mil alunos.
Há um ano, a instituição de ensino sentiu a necessidade de atualizar suas 400 máquinas, muitas das quais possuíam menos de 1 GB de capacidade. A universidade estudou alternativas e acabou fechando com a integradora de sistemas paulista Picture um projeto para transformar seu parque de desktops em thin clients, aproveitando as máquinas antigas. O pró-reitor acadêmico da Uni Sant’Anna, Marco Antonio Placucci, afirma que o custo para transformar os desktops em thin client foi mínimo.
Em novembro do ano passado iniciou-se a primeira etapa do projeto. Mais de 30 PCs utilizados pelos coordenadores dos cursos da universidade passaram a rodar seus programas em dois servidores, um baseado em Linux e outro, em Windows. Posso utilizar pelo menos por mais dois anos o mesmo equipamento que seria substituído, porque agora quem processa a maioria das informações é o servidor, diz Placucci. O pró-reitor calcula a economia média por unidade em cerca de R$ 800 com licença básica de software, além de outro montante igual em economia de hardware. O próximo passo é levar a solução a toda a área administrativa (150 máquinas) e depois nos laboratórios (mais 220 máquinas). A meta é que, quando os cursos de agosto começarem, todos os 400 terminais sejam thin client, a maioria baseada em Linux.
O diretor de marketing da Picture, Marcelo Abdo, explica que a solução adotada pela Uni Sant’Anna é híbrida, pois utiliza máquinas com cerca de 1 GB de armazenamento e 128 MB de memória, que conseguem processar aplicações locais quando necessário, embora não tenham driver de CD ou disquete nem disco rígido. Com isso aliviamos o dimensionamento do servidor. Não é um PC. É um thin client mais forte, diz Abdo. Para o executivo, a maior parte dos usuários de qualquer empresa não usa todo o poder de processamento de seu PC. As companhias gastam R$ 700 em licenças de Windows para rodar apenas um browser e alguns aplicativos de escritório, completa o diretor da Picture.
Mas o conceito de reaproveitar máquinas antigas também está longe de ser unanimidade. Bejar, da Intel, lembra que a manutenção do equipamento antigos só é vantajosa até um certo ponto. Em micros muito obsoletos a freqüência de problemas aumenta, há mais consumo de energia do que em PCs modernos e geralmente crescem as despesas para manter a base instalada.
Além disso, quem opta por thin client precisa estar ciente de que terá de vencer a resistência dos usuários. O melhor software que existe é sempre aquele ao qual você está acostumado, afirma Placucci, que nos dois primeiros meses com thin client na Uni Sant’Anna deixou técnicos disponíveis para tirar todas as dúvidas dos coordenadores. Na Perdigão, não foi muito diferente. A adaptação é difícil. Se perguntarmos para o usuário o que ele prefere, a resposta sempre será um micro mais potente, conta Hirosawa.
Apesar das dificuldades, o CIO se diz satisfeito com a opção. Agora o executivo quer fazer com que os 800 usuários da empresa, que hoje processam suas aplicações em cincos servidores, sejam ligados a um só servidor com contingência, o que pode ocorrer em 2005. Hoje a política é colocar thin client em tudo. A exceção é apenas em áreas de engenharia ou onde se usam aplicativos muito diferenciados. Embora tenha seus problemas e não seja uma tecnologia com glamour, a thin computing mostra que ainda é uma opção válida para muitos CIOs que querem deixar seus orçamentos em boa forma.
Nem tudo são flores
Prós…
– Simplicidade de operação e manutenção. Como as aplicações ficam residentes no servidor, basta trocar um terminal caso ocorra algum problema, o que elimina a necessidade de configurar tudo novamente.
– As instalações de novas aplicações também são feitas de um ponto central, reduzindo a complexidade de implantação de novos produtos e sites.
– O thin computing muda o modelo tradicional de comercialização de licenças deixa de existir a licença do software que irá ser processado no terminal.
– Mais segurança e facilidade para padronizar e gerenciar as máquinas. Os terminais não possuem disco rígido, o que evita que os usuários instalem programas piratas ou que podem comprometer a segurança da companhia.
… e contras do thin client
– A adaptação é difícil o usuário geralmente prefere um PC convencional.
– O thin client pode ser montado com estações antigas, usando desktops que são obsoletos, mas a manutenção do equipamento só é vantajosa até um certo ponto. Em máquinas muito antigas a freqüência de problemas aumenta e a manutenção pode ser cara.
– É preciso investir em gerenciamento sobre as aplicações no servidor. Alguns programas feitos para desktop, tentam usar toda a capacidade disponível de processamento.
– O thin client precisa ter uma contingência de servidores, já que problemas com apenas um servidor comprometerão o funcionamento de todos os terminais a ele ligados.
– Os PCs baixaram de preço e o custo do thin client já não é tão inferior ao de máquinas montadas por integradoras.