Os nomes são diferentes, mas o objetivo é o mesmo: auxiliar na elaboração de planos orçamentários mais flexíveis e integrados, capazes de serem adaptados a mudanças inesperadas no cenário econômico.
Muitas empresas ainda desconsideram variações internas e externas na hora de montar seus planejamentos. O resultado, especialmente quando as previsões orçamentárias devem ser de longo prazo, é um planejamento estático e desintegrado, que acaba por engessar a organização e incapacitar seu ajuste a mudanças repentinas no cenário econômico.
Como dificilmente os departamentos conseguem cumprir os números previstos para o ano fiscal, eles recorrem a técnicas como a “queima” de orçamento para evitar que sua verba para o período seguinte seja reduzida em conseqüência da “sobra” de recursos. Já quando os gastos superam o planejado, o risco está, entre outros, na perda de produtividade em conseqüência não apenas de eventuais cortes de pessoal, e custos, mas de incansáveis e longas reuniões de revisão de planejamento.
Apesar de recorrente em boa parte das companhias, o problema tem solução. Pelo menos segundo afirmam analistas de mercado e fornecedores de ferramentas de gestão de desempenho corporativo, que, diga-se, adicionam novos ingredientes na interminável sopa de letrinhas do mercado de tecnologia da informação (TI). Especialmente porque cada fabricante decidiu batizar esse tipo de ferramenta com o nome que julgou mais apropriado. (Veja box ao lado).
Todas as siglas fazem referência ao mesmo tipo de sistema, que constitui a etapa seguinte ao business intelligence (BI) e que inclui recursos para a desenvolver o planejamento do negócio. Longe, porém, de substituir as tradicionais soluções de BI. “Um não substitui o outro. Ao contrário, são soluções complementares”, afirma Claudia Fuller, gerente de marketing da subsidiária brasileira da fornecedora de soluções de BI e BPM Hyperion.
Segundo ela, as necessidades de informações e de gestão das organizações estão mudando e levando a um movimento do BI para o que a Hyperion optou por chamar de BPM. “Isso significa não apenas entender o passado, mas também gerenciar o futuro. Esta é, em poucas palavras, a diferença principal entre BI e BPM: o primeiro permite entender o que aconteceu, o outro ajuda a projetar e administrar o futuro dos negócios”, detalha.
Marcos Chomen, diretor de vendas da Cognos, outra companhia especializada em soluções de BI e CPM – neste caso chamadas apenas de PM –, compartilha a opinião. Para ele, o uso integrado dessas ferramentas reduz o custo de propriedade, ao passo que os processos correm com mais agilidade e exatidão. “Tudo o que envolve o monitoramento e entendimento de dados é BI. O PM é a integração da solução de planejamento a esse processo”, opina o executivo.
De todo modo, o BI continua sendo fundamental para um planejamento sólido. Chomen diz que PM seria a etapa seguinte à sua adoção. Para o diretor da Cognos, a capacidade de prever gastos está na competência da empresa em gerenciar cenários de forma dinâmica e eficaz. Isso evita a necessidade de “queimar orçamento”, por exemplo. Ele afirma que “o planejamento ideal deve ir além dos aspectos financeiros, gerando um retrato fiel e antecipado do ambiente em que a empresa atua”. E adianta: “a transição não é fácil, pois envolve investimentos em novos procedimentos e cultura empresarial”. Passado o primeiro momento, os resultados compensam: a precisão da definição das metas, a qualidade da condução das estratégias e a implantação de uma real gestão corporativa do desempenho.
Na visão do Gartner, a questão do CPM é um pouco mais simples. Trata-se de usar informações já existentes de forma a obter um planejamento mais consistente para o negócio. De acordo com o instituto, nos últimos anos, mundialmente as empresas gastaram mais de 40 bilhões de dólares em soluções corporativas, incluindo ERP, CRM e ferramentas de gestão de recursos humanos, entre outras.
“O uso dessas ferramentas e a automação de processos operacionais gerou um volume significativo de dados. Ao investir em BI, as companhias podem transformar esta enxurrada de dados em informações que lhes permitam analisar melhor seu desempenho e, a partir daí, desenvolver um planejamento consistente” explica Colleen Graham, analista de CPM do Gartner. “É também um meio de garantir respostas mais rápidas às mudanças de mercado e novas oportunidades, além de facilitar o cumprimento de exigências regulatórias”, completa.
Antonio José Augusto, presidente da Execplan, define CPM (Corporate Performance Management) como a continuidade do processo de evolução iniciado quando o EIS (Enterprise Information System) ganhou recursos de inteligência, transformando-se no que hoje conhecemos como BI. “O CPM visa a otimização de resultados e a redução de custos com base na análise de dados gerada pelo BI”, detalha.
Mas Augusto diz que muitos fornecedores de soluções corporativas simplesmente trocam a sigla atribuída a seu produto, sem que haja qualquer avanço tecnológico. “Isso aconteceu em 1998, quando muitos mudaram a sigla EIS para BI sem incluir nenhuma inteligência em suas soluções.” Ele alerta que hoje muitos vêm fazendo o mesmo com o CPM. “Na prática, eles simplesmente unem ferramentas como planejamento, BI e Supply Chain Management (SCM) e chamam o pacote de COM.”
Segundo o executivo, a solução de CPM tem recursos específicos para otimizar os resultados. “Fazemos uso intensivo de recursos de ‘data mining’ dentro do CPM”, afirma Augusto. Desde 2002, a Execplan investiu mais de 3 milhões de reais para implementar novos recursos em sua solução de CPM, que, segundo o presidente da empresa, só ganhou essa nomenclatura em 2005, quando alcançou um bom nível de integração.
Augusto acredita que a crescente experiência entre os profissionais que compram TI tem ajudado na diferenciação de uma solução para outra. “Quem tem um pouco mais de experiência, sabe que uma simples busca no banco de dados não tem nada de inteligência”, dispara. “Os fornecedores sabem que ninguém mais acredita no dito BI clássico e a única forma de sair desse imbróglio é partir para outra”, completa. E dá a dica: “é preciso cuidado para não cair na mesma história”.
Na Execplan, os negócios envolvendo CPM representam atualmente 80% do faturamento da companhia no País. “De agosto de 2005 para cá, todos contrataram nessa linha. Já são entre dez e 15 projetos nessa área. Outros 24 estão em fase de migração de BI para CPM”, revela Augusto. “A área de ‘business planning’ está em pleno crescimento e deve alcançar 30% de nossos negócios no futuro próximo”, destaca.
Já na Cognos, 60% do faturamento da companhia envolve soluções de PM, segundo Chomen. O executivo faz questão de enfatizar que os processos de BI não pararam, já que boa parte dos projetos de PM inclui soluções de BI, sem as quais o processo de análise do planejamento fica mais difícil. Também na Hyperion Brasil, em média 60% do faturamento local envolve a venda de BPM. “Vemos um mercado bastante promissor.
A empresa continua investindo pesado no aprimoramento de nosso sistema de BPM (Hyperion System 9), seja por meio do desenvolvimento de novos aplicativos ou por aquisições de ferramentas que venham a tornar o sistema ainda mais completo”, assegura Claudia. No fim de abril, a companhia comprou a Upstream e, em conseqüência, incluirá recursos para a análise da qualidade de dados financeiros.
Ainda que discordem no que diz respeito à nomenclatura mais adequada para a solução, uma coisa é certa: chamem de BPM, CPM, EPM ou simplesmente PM, os produtos de gestão do desempenho corporativo representam uma excelente oportunidade de crescimento para seus fornecedores – até pouco tempo atrás vendedores de BI. Mais que isso, eles podem representar a extinção do artifício de “queimar” orçamentos no fim do ano para cumprir o planejado, transformando-se na tão sonhada garantia de que a verba não será reduzida no período seguinte.
A saga das siglas
Fornecedores de soluções de gestão do desempenho corporativo confundem o mercado ao adotar inúmeras siglas para fazer referência a um mesmo tipo de aplicativo.
“A boca é minha. Falo o que eu quiser!” Esta que é talvez a frase mais proferida em discussões entre crianças ou adolescentes pode também – guardados, claro, alguns pequenos ajustes – ser aplicada ao mercado de TI.
Em 2001, ao definir o conceito do mercado de gestão do desempenho corporativo, o instituto de pesquisas Gartner convencionou chamar a solução de Corporate Performance Management (CPM). No entanto, conforme foram desenvolvendo seus produtos, fornecedores adotaram nomes diversos, como Business Performance Management (BPM), Enterprise Performance Management (EPM) e simplesmente Performance Management (PM), além do próprio CPM.
Todas as siglas fazem referência ao mesmo tipo de sistema, explicado por especialistas do segmento como a etapa seguinte ao business intelligence (BI) no que diz respeito ao planejamento do negócio.
Segundo o Gartner, o crescimento do mercado de CPM de 2001 para cá atraiu muitos fornecedores que desde então trabalham para ampliar suas soluções de modo a oferecer aplicativos e suítes que se enquadrem no conceito de CPM. O instituto de pesquisas só considera uma suíte CPM o pacote que inclua pelo menos três de cinco áreas de aplicativos – orçamento, planejamento e previsão de cenários, aquela conhecida como ABC (custos baseados em atividades, na sigla em inglês), scorecard, consolidação financeira e relatórios financeiros.
Isso posto, diz o Gartner, são poucos os fornecedores que de fato oferecem uma suíte completa de CPM. Quem sabe este seja um dos motivos por trás da diversidade de siglas. Ou talvez ele se justifique porque há visões distintas sobre qual conjunto de letras atrairia mais atenção ou até para evitar conflitos como o que acontece entre o BPM referente a Business Process Management, já mais disseminado, e o BPM de performance, usado não apenas pela Hyperion, como pela Solvo, outra empresa de aplicativos de gerenciamento de desempenho.
É verdade que a solução pertence a cada um dos fornecedores e estes, por sua vez, têm o direito de dar ao produto o nome que bem entenderem. No entanto, a menos que seja esta a intenção dos fabricantes, vale deixar claro que o monte de siglas referentes ao mesmo tipo de aplicativo causa uma considerável confusão no mercado.
Veja aqui cases de algumas empresas que adotaram o CPM e já colhem os primeiros frutos