Pioneiras em projetos de mobilidade, empresas de água, luz e gás continuam investindo em dispositivos móveis com foco na integração com seus sistemas de gestão.
Tanto no poste de luz quanto nas bocas-de-lobo já é possível ver PDAs em funcionamento. No setor de utilities, como os sistemas de fornecimento de água, luz, gás e telefone, os handhelds deixaram de ser privilégio dos executivos da alta diretoria e estão nas mãos de quem executa tarefas de manutenção das redes e atendimento direto ao cliente. Profissionais responsáveis pela leitura dos relógios de água e luz, passando pelos motoristas de caminhões que distribuem combustível e até técnicos de telecomunicações, todos já armazenam ordens de serviço em handhelds ao invés de usar as antigas cadernetas.
Desde o fim da década de 90, as empresas do setor estão investindo em sistemas de mobilidade para agilizar a execução de serviços em suas redes de distribuição, mas nem todos os segmentos optaram por enviar seus dados 100% online e ainda preferem a transmissão em pacotes. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp),por exemplo,iniciou em 1999 um projeto que acabava com a redigitação das anotações do leiturista do relógio de água e reduzia para segundos o prazo de nove dias para a emissão das contas, o TACE. “O funcionário passou a carregar um coletor que era ligado por cabo a uma impressora portátil que emitia as contas na hora”, relembra Maurício Loureiro, gerente de sistemas de gestão de negócios da Sabesp.
O aparelho, que não podia ser considerado um handheld e tinha um custo de manutenção e aquisição 50% mais altos do que os equipamentos tradicionais, só teve seu sistema atualizado em outubro de 2005.“O aplicativo foi programado em linguagem C++ para se adaptar a dispositivos como Pockets PCs e Palms”, conta Loureiro. Como resultado, ele aponta a redução do custo do serviço das contratadas responsáveis por esta tarefa. Mas o envio dos dados continua em batch.
No projeto de automação das equipes de manutenção, o SIGES, que ainda está em desenvolvimento, já está prevista a transmissão online do status do serviço e da delegação de tarefas urgentes. O novo sistema contém, além dos serviços, fotos panorâmicas, cartografia e mapas das redes de água e esgoto. No entanto, de acordo com Loureiro, as informações e fotos tiradas nos locais dos serviços também serão atualizadas no sistema da empresa via cabo.
Ainda no setor de água, a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (CAESB) concluiu em fevereiro um projeto semelhante para a vistoria das redes de água e esgotos de Brasília,o GVCOM,no qual foram investidos 65 mil reais em aparelhos. Os dados ainda são enviados e recebidos via conexão USB, mas esse cenário tende a mudar daqui dois anos. “Em vez de ir para o escritório e pegar as informações na base, queremos que o funcionário receba as tarefas e atualize a base automaticamente”, conta Carlos Antonio Ferreira, gerente do projeto. A solução a ser adotada não exigirá investimentos de infra-estrutura: a comunicação do aparelho com a rede de dados seria por meio de um serviço mensal de GPRS,oferecido por uma operadora que cobra 35 reais por aparelho.
À frente deste setor, as distribuidoras de gás já estão com soluções wireless integradas aos seus sistemas de gestão. A pioneira foi a Liquigás, que iniciou seu projeto de automação de caminhões de gás a granel em 2001 e atualmente, possui uma base de 190 aparelhos em uso nos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná e na cidade de São Paulo, todos integrados ao SAP R/3.
A SHV Gás Brasil, detentora das marcas Minasgás e Supergasbrás, também utiliza um sistema semelhante desde 2003 e desde novembro do ano passado iniciou um novo projeto no qual os handhelds passam a usar o sistema operacional Windows Mobile 2005 e se comunicar com as filiais por GPRS,além de estar integrado ao ERP, ao sistema de distribuição da companhia e ao CRM.“Agora será possível registrar e avaliar o desempenho de nossa frota de caminhões”, conclui Márcio Bastos, gerente de Supply chain da SHV. O sistema está em fase piloto em Caxias, no Rio de Janeiro, onde a conexão entre a impressora e o coletor de dados passou a ser via Bluetooth.“Além disso, está prevista a emissão não só das notas, mas também dos boletos bancários”, detalha.
Segundo o executivo, o projeto alcançará 40% de toda a frota até o fim do ano. Bastos prevê que, até a conclusão do projeto em todos os caminhões de ambas as marcas, sejam gastos 3,5 milhões de reais.
Na AES Eletropaulo, que oferece energia para a Grande São Paulo, a solução encontrada para informatizar as ordens de serviço foi o celular. A empresa está implementando uma solução baseada em telefonia móvel e já investiu, até agora, 360 mil reais no desenvolvimento do sistema e dos aplicativos. “Hoje, as ordens são enviadas do sistema comercial automaticamente para uma outra aplicação, que centraliza e dispara as tarefas para os celulares da turma de campo”, detalha Victor Kodja, diretor de gestão comercial da companhia.
Além disso, a unidade localizada na região Sul já está habilitada a receber e atualizar informações sobre cinco serviços da Eletropaulo: pedido de nova ligação, modificação de ponto de energia, leitura de medidor (aferição), religação normal e de urgência e corte de energia. (Camila Rodrigues,especial para o COMPUTERWORLD)
Rompem-se os fios e os preconceitos
Uma das questões levantadas quando se discute a adoção de handhelds pelas equipes de atendimento e redes é a adaptação dos usuários ao novo sistema. “A gente se preocupou bastante com a interface dos usuários, que não têm o costume de lidar com esse tipo de tecnologia”, observou Márcio Bastos, da SHV. Ao que tudo indica, sua equipe de desenvolvimento conseguiu. Ele afirma que foram necessárias apenas duas horas de treinamento e que, apenas no primeiro dia foi necessário que alguém da área de TI acompanhasse os oito motoristas que participaram dos testes. “A interface foi montada com telas que exibem o passo-a-passo para a tarefa”, detalha.
Quem já implantou a solução observa que a tecnologia, além de agilizar os processos, também melhora a exatidão das informações. Carlos Francisco, superintendente de comercialização da CAESB, mostra como o sistema direciona as atividades dos funcionários: “Os leituristas agora são obrigados a preencher todos os campos dos formulários, senão o programa não finaliza a operação. Isso torna o nosso banco de dados cada vez mais completo”, comemora. (CR)