Crescimento da indústria de terceirização tende a continuar em alta. No entanto, capacitação de pessoal e infra ameaçam futuro da nação referência em TI.
Em 2002, para cortar custos durante um período de expansão, a subsidiária de serviços de TI da Volvo, gigante sueca da indústria automobilística, decidiu terceirizar parte do trabalho para a MindTree Consulting, empresa de serviços de software sediada em Bangalore, Índia.
“A Volvo Information Technology AB (Volvo IT) tem uma operação na Polônia que faz manutenção de aplicativos, mas não seria fácil aumentar o número de funcionários neste país rapidamente”, justifica Pär Forsberg, gerente de sourcing competitivo da subsidiária.
A opção por trabalhar com um terceiro proporcionou flexibilidade de mão de obra à Volvo IT. “Tínhamos que aumentar ou reduzir a produção com rapidez , dependendo da demanda de clientes, e a MindTree satisfazia este requisito”, revela Forsberg. Além disso, a MindTree oferecia talentos no amplo espectro de áreas de tecnologia em que a empresa estava trabalhando, inclusive Java, .Net e tecnologias da SAP.
Dessa forma, a MindTree agora tem cerca de 300 profissionais trabalhando para a Volvo IT, principalmente em desenvolvimento de aplicativos. Há quatro anos, não chegavam a 20.
Esse é apenas um entre inúmeros casos de multinacionais dos Estados Unidos, da Europa e do Japão que têm afluído à Índia para terceirizar desenvolvimento de software ou montar suas próprias operações de desenvolvimento no país. Muitas empresas norte-americanas e européias também estão transferindo call centers e processamento de back-office para a Índia.
O afluxo tem sido uma bênção para a economia indiana. A receita de exportações de software e serviços de TI cresceu aproximadamente 33% no ano fiscal encerrado em 31 de março, chegando a US$ 23,6 bilhões, de acordo com Kiran Karnik, presidente da instituição National Association of Software and Service Companies (NASSCOM). Os números incluem receita tanto de empresas de outsourcing indianas quanto de subsidiárias de software e serviços de multinacionais.
O primeiro atrativo da Índia para clientes dos Estados Unidos e da Europa Ocidental sempre foi a vasta oferta de talentos por salários baixos. Outra grande força está nos cerca de 2,5 de milhões de universitários que se formam a cada ano e no fato de a educação ser na língua inglesa, um legado de quase dois séculos de colonização britânica.
“Buscávamos os benefícios financeiros ao migrar funções do Reino Unido para a Índia e agora também estamos vendo muita inovação em nossos processos de TI e negócios”, conta Meena Ganesh, CEO da Tesco Hindustan Service Center, subsidiária da rede britânica de varejo Tesco.
Hoje a Tesco tem 1,6 mil funcionários em Bangalore. Cerca de metade desenvolve software e o restante executa processos de back-office como suporte interno, folha de pagamentos e contas a pagar. A economia gerada alcançou a faixa de 30% a 40%, em sincronia com a média na Índia, segundo Meena.
Muitas multinacionais, como a Tesco, estão indo além do trabalho de codificação de baixo custo para usufruir a capacidade de inovação do staff indiano.
A Yahoo India Research and Development, por exemplo, faz desenvolvimento de produto nas áreas de pesquisa de multimídia e análise de comportamento do usuário. Com mais de 750 funcionários, a operação de P&D é a maior da Yahoo fora dos Estados Unidos garante Venkat Panchapakesan, CEO da subsidiária indiana da Yahoo.
Mudar é preciso
Para se beneficiar da mão-de-obra barata, as empresas estão expandindo suas operações em ritmo acelerado. A Dell informou que vai dobrar seu pessoal na Índia para cerca de 20 mil pessoas nos próximos três anos. Já com call centers e desenvolvimento de software no país, a fabricante de computadores, recentemente, divulgou que iria projetar servidores e equipamento de armazenamento em Bangalore e montar uma fábrica de PCs em Chennai.
Também as companhias de serviços estão de mudança. A LogicaCMG, de Londres, tem 2,3 mil funcionários em sua operação offshore em Bangalore e em novembro vai expandir suas instalações para acomodar até 4 mil pessoas, diz Rahul Patwardhan, CEO do centro de entrega global da empresa. A Capgemini planeja aumentar sua equipe no país de 5,6 mil funcionários hoje para 10 mil até o final do ano que vem.
“Os clientes destas organizações querem que elas tenham um componente offshore para poderem alcançar economia de custos”, afirma Siddharth Pai, sócio da empresa de consultoria em sourcing Technology Partners International, de Houston, nos EUA. Segundo o especialista, beneficiando-se dos custos atraentes, provedores de serviços estão participando de licitações com preços mais baixos até do que os cobrados por empresas de outsourcing indianas.
Entretanto, para atingir a meta de 60 bilhões de dólares em exportações em outsourcing em quatro anos, a Índia terá de superar vários obstáculos, incluindo uma escassez potencial de recursos humanos. A indústria precisará de 2,3 milhões de profissionais de TI, call center e processamento de back-office em 2010 e, provavelmente, haverá uma carência em torno de 500 mil pessoas, informou um relatório elaborado em dezembro pela NASSCOM em parceria com a empresa de consultoria de gerenciamento McKinsey & Co.
O cenário se complica
Em função dessa perspectiva, a competição por pessoal capacitado está cada vez mais acirrada: Tesco e IBM começaram a colocar anúncios em painéis oferecendo a oportunidade de trabalhar em tecnologias de ponta, algumas empresas anunciam empregos em ônibus usados para transporte de funcionários e Google e Microsoft estão promovendo competições de programação para ajudar a identificar pessoal qualificado. A maioria das empresas costuma oferecer incentivos financeiros aos membros da equipe que indicam potenciais funcionários.
Os salários também estão subindo. “Há talentos disponíveis, mas se tornou um pouco mais difícil descobrir e contratar profissionais com as habilidades certas, em especial na área de TI”, admite Meena, da Tesco.
As empresas também estão contratando pessoas de cidades periféricas, mas é problemático encontrar quem tenha domínio da língua inglesa. A LogicaCMG rejeita mais da metade dos candidatos a empregos em TI por falta não de conhecimento técnico, mas de bom conhecimento do idioma, lamenta Patwardhan.
O problema é que apenas um pequeno percentual dos graduados da Índia tem as habilidades necessárias – no caso dos engenheiros, um quarto deles, calcula Karnik, da NASSCOM. Apenas de 10% a 15% dos graduados em geral podem ser empregados pela indústria de outsourcing de processos de negócio, estima-se.
Para conter custos e evitar atritos, as companhias estão contratando um mix de recém-formados e profissionais experientes. De 10% a 15% da equipe de TI da Tesco na Índia é formada por calouros, número que a empresa planeja dobrar ao longo deste ano. “Se você tem uma camada intermediária forte, pode acrescentar novatos sem sacrificar a qualidade”, orienta Meena.
Algumas organizações também estão se mudando para cidades menores, onde há menos concorrência. A Dell, por exemplo, montou um call center em Mohali, no norte da Índia. Os centros tradicionais de TI da Índia, particularmente Bangalore, estão crescendo em ritmo acelerado, puxando para cima os preços dos imóveis e o custo de vida em geral, ao mesmo tempo em que ocorre uma deterioração da infra-estrutura, incluindo estradas e fornecimento de energia.
Como se não bastassem os – ao que parece cada vez maiores – problemas locais, outros países começam a ameaçar a Índia, como a China e países da América Latina e do Leste Europeu. A LogicaCMG está se expandindo no Brasil, no Marrocos e na Europa, para distribuir os riscos e atender a clientes que não têm o inglês como língua nativa. Os custos de mão de obra fora da zona do Euro, em países como Romênia, Ucrânia e Rússia, são comparáveis aos da Índia, segundo Patwardhan.
Outros obstáculos podem atrapalhar os negócios até agora bastante prósperos da Índia. Preocupações com a privacidade dos dados podem aumentar à proporção que mais postos de trabalho em call centers e no back-office forem transferidos para o exterior. Depois do caso de uma equipe indiana acusada de vender dados de alguns clientes, a NASSCOM começou a tomar medidas para reforçar a proteção de informações em empresas de serviços indianas. O National Skills Registry, lançado pela entidade, permite que empregadores na Índia pesquisem antecedentes de funcionários.
O governo indiano também está alterando o Information Technology Act, de 2000, para aumentar a eficácia da proteção e da privacidade de dados. Além disso, empresas de outsourcing implementaram processos como o padrão BS7799, da British Standards Institution, para gerenciamento da segurança da informação. “Queremos mudar as regras de outsourcing na Índia”, declara Sunil Mehta, vice- presidente da NASSCOM. “As companhias devem se interessar em terceirizar para a Índia não só pelos custos mais baixos, mas também pela alta qualidade de proteção e privacidade de dados que oferecemos.”
Apesar dos problemas, há quem planeja manter a Índia como seu eixo principal de trabalho offshore. E o crescimento não dá sinais de diminuir. A estratégia da Tesco é inteiramente baseada na Índia – a empresa tem operações de software e back-office no Leste Europeu e em outras regiões, mas elas estão voltadas principalmente para necessidades locais de serviços.
A LogicaCMG também planeja se expandir ainda mais na Índia, país cuja importância continuará alta mesmo que a empresa cresça em outros locais.
Segundo a NASSCOM, o mercado interno de terceirização de processos de negócio e TI também está crescendo. A receita do mercado doméstico no ano fiscal encerrado em 31 de março foi de 6 bilhões de dólares, um aumento de 24% em relação ao ano anterior. Além disso, a receita de software e serviços deve crescer 30% no próximo ano fiscal, para cerca de 30 bilhões de dólares. “Estamos no caminho certo”, acredita Karnik.