Profissionais de tecnologia adoram usar siglas e termos em inglês sem sentido literal ou tradução coerente. Por isso traduzimos os termos do setor que nem o dicionário conhece.
Jogue fora seu dicionário. Porque, no mundo de TI, freqüentemente as palavras não correspondem aos significados tradicionais. Basta ver como duas veteranas da indústria de TI definem o simples termo parceria.
Para Naomi Karten, diretora da empresa de consultoria Karten Associates e autora de Communication Gaps and How to Close Them (Dorset House Publishing Co., 2002), parceria significa que “você e eu concordarmos em fazer as coisas ao meu modo”. Já para Melise R. Blakeslee, advogada da McDermott Will & Emery, é um eufemismo de “não podemos fazer nós mesmos e por isso chamamos outra pessoa”.
Quem está certa? Faça sua escolha, sugere Jon Kraft, chairman do Conselho Tecnológico do Sul da Califórnia, fórum regional para líderes de TI. “O termo parceria agora é usado para qualquer tipo de relacionamento. Se eu conseguir extrair do contexto qual é o tipo de relacionamento, fantástico. Se não conseguir, terei de pesquisar”, resigna-se.
E olha que parceria é um termo fácil. O mundo de TI está repleto de outros mais difíceis — jargão nebuloso, acrônimos, expressões populares e palavras inventadas que evoluem tão rápido quanto a própria tecnologia. O pessoal do dicionário é incapaz de acompanhar.
Algumas pessoas talvez achem divertido usar terminologia técnica para confundir os tecnófobos, mas o emprego disseminado de jargão traz conseqüências para o negócio e a carreira. No mínimo, a confusão em torno de neologismos de TI pode levar a uma falha na comunicação que gera frustração e desperdício de tempo. “Você pode ser a pessoa mais técnica do mundo, mas de que adianta se não consegue se comunicar efetivamente com seus parceiros de negócio?”, indaga Jerry Luftman, vice-presidente executivo de relações acadêmicas da Society for Information Management (SIM).
Muitas maneiras de confundir
TI é permeada por várias camadas de lingüística. Em primeiro lugar está a lista interminável de acrônimos: ERP, SaaS, SOA, IP, VoIP, VPN, DBA, HTTP, ISP, ASP, LAN, SAN e muitos outros (você ganha um prêmio se conseguir definir todos sem a ajuda do Google…). Depois vêm as formas abreviadas — palavras que imploram para ser condensadas, resultando em termos como sysprog, sysadmin e Wi-Fi.
Não nos esqueçamos dos nomes transformados em verbos: “delete”, por exemplo, virou “deletar”. Há também outsourcing, offshoring e o novo “primo” backsourcing, usado quando é preciso reverter o processo de terceirização inteiro.
Por fim, temos todas aquelas palavras utilizadas impropriamente, cooptadas por TI: solução empresarial, sinergia, paradigma, protocolo, interface, alavancar… A lista continua e no Brasil o problema ganha um fator complicador ainda maior diante da paixão por anglicismos. Afinal, por que aprimorar alguma coisa se você pode otimizar?
Kraft divide o jargão em três categorias. A primeira é formada por “palavras vagas”, que “não são bem definidas e podem significar múltiplas coisas”. Ele destaca arquitetura empresarial e gestão de processos de negócio (business process management – BPM). “BPM – o que isso significa? Pode ser qualquer coisa”, dispara.
A segunda categoria abrange palavras com definições claras conhecidas por algumas pessoas, mas não todas. Software como serviço e arquitetura orientada a serviço pertencem a este grupo. “O profissional de TI sabe claramente o que isso quer dizer, mas o pessoal de negócio ainda sofre com elas.” A terceira categoria é a mais ampla, abarcando todas as palavras cujo significado acabou se perdendo por excesso de uso ou mau uso. Kraft insere nesta classe supply chain e parceria. “São palavras que não esclarecem nada.”
Meandros nebulosos da história
Como chegamos a esse estado? Naomi, da Karten Associates, sugere que o problema vem do tempo em que TI era chamada de PD (em referência a processamento de dados). Se a origem “acronômica” da profissão não a condenou, seus primeiros membros deram o tom. “Naquela época, o profissional de processamento de dados demonstrava uma certa arrogância. Nós nos divertíamos confundindo os usuários com nossa terminologia”, recorda a consultora.
Há conseqüências. “É um desperdício de tempo e energia”, afirma Stephen Pickett, presidente da SIM e vice-presidente e CIO da Penske, gigante dos transportes nos EUA. Recentemente, um executivo de vendas pediu a Pickett um “application database”. Depois de cinco minutos de conversa, eles perceberam que cada um entendia o pedido de uma forma.
O executivo de vendas queria um banco de dados que armazenasse currículos, enquanto Pickett estava planejando um banco de dados de programas (application, em inglês, serve tanto para descrever uma aplicação quanto para a demonstração de interesse em uma vaga de trabalho).
Perda de tempo e de boas idéias não é a única conseqüência possível da falha de comunicação. Para Melise, da McDermott Will & Emery, palavras mal empregadas, ambíguas ou mal interpretadas, tão comuns em TI, podem gerar graves problemas legais. Ela tem uma lista de termos deste tipo, que são uma espécie de bandeira vermelha. “Sei, quando os vejo em contratos, que nenhuma das partes tem o mesmo entendimento.” Melise, cujo trabalho envolve grandes transações de TI, já viu processos judiciais se originarem de discussões em torno do significado de palavras específicas.
Para sermos justos, cada profissão tem seu próprio jargão. O mundo de TI não foge à regra e não deve abrir mão de palavras que expressem realmente, de forma condensada, conceitos e processos complexos que são característicos da área. Mas isso não livra os técnicos de se meterem em enrascadas. Administrar um negócio bem-sucedido é um trabalho em equipe que requer que todos aprendam não só as funções uns dos outros, mas também a linguagem específica que as acompanha, orienta Dan Gingras, sócio da Tatum. “As pessoas têm de assumir a responsabilidade de se fazerem entender claramente”, define Luftman, da SIM.
É por isso que os CIOs sofrem tanta pressão para serem o que Gingras chama de “bilíngües em negócio e tecnologia”. E Pickett leva a sério esta mensagem. Ele vê olhares surpresos nos rostos das pessoas quando lhes diz que é um CIO. Então acrescenta que é “o cara do computador”. E elas entendem.
Palavras que amamos odiar
Prepare-se. A lista a seguir foi composta por diversas fontes do COMPUTERWORLD/EUA, que mostram o quão difícil é se entender no mundo da TI
Alinhamento: Depois de 30 anos, as pessoas ainda não sabem ao certo o que quer dizer.
Arquitetura orientada a serviço (Service-oriented architecture, ou SOA): Isto significa, então, que todo o resto que fazemos não é orientado a serviço?
Avaliação de maturidade: Nome complicado para benchmark.
Cliente/consumidor: São os clientes de TI, do pessoal de negócio ou seus clientes? Depende de a quem você pergunta.
Desenvolvimento ágil: Usado para descrever qualquer coisa que não seja tradicional.
Domínio: Existem domínios de negócio, domínios de arquitetura, domínios de aplicativo. Sem um modificador, você está perdido.
Espírito de equipe: A personificação de um termo perigoso. Em geral, tem a ver com adesão, on board, mas não onboarding. Veja o significado de onboarding abaixo.
Estratégico: Sistemas que mantêm a empresa no negócio ou sistemas com os quais trabalho.
Expertise funcional: Em contratos, normalmente significa um determinado nível de experiência. Mas expertise? A quem estamos enganando?
Onboarding: Palavra bonita para treinamento. Assim achamos.
Pró-ativo: Atacar alguma coisa que não atacou você primeiro.
Processo: Procedimentos, sugestões, melhores práticas, o que for melhor — você decide.
Proprietário: Tecnicamente, este termo significa a propriedade intelectual de uma empresa, mas é usado para descrever qualquer software de prateleira que foi montado para uma organização específica.
Rightsizing: Livrar-se de pessoas.
Sistemas ou soluções sem costura/integrados/transparentes: Suas conjecturas são tão boas quanto as nossas.
Socializar: Consultar outros indivíduos e grupos para ver o que eles pensam. Por exemplo, “Vamos socializar esta idéia”. Fora de TI, significa se reunir com amigos.
Solução: Seja o que for, cabe a pergunta: “Qual é o meu problema?”
Sourcing: Descreve aquele que está tirando seu emprego.
Sysadmin e sysprog: Formas abreviadas de “administrador de sistemas” e “programador de sistemas”. Mostram o quanto os desenvolvedores podem ser preguiçosos.
Turnkey: Basta plugar para funcionar; alternativamente, é o que vamos criar para você.
Valor agregado: Sem sentido. Hoje, tudo agrega valor a alguma coisa em algum lugar.
Virtualização: Não está lá fisicamente, mas está. Estamos usando espelhos?