Ex-CTO da Microsoft e dono de aproximadamente 3 mil patentes, rvold conta como transformar invenções em lucro e patrimônio.
Nathan rvold é um gênio. Nascido
em Seattle em 1959, entrou na faculdade com 14 anos para aos 20 anos, em 1979,
graduar-se em matemática, ao mesmo tempo em que defendia um mestrado em
geofísica e física espacial na UCLA.
rvold ainda teve tempo para fazer outro mestrado em
matemática econômica em 1981, antes de defender seu doutorado em física teórica
na Universidade de Princeton em 1983. Tinha só 23 anos. De lá seguiu para a
Universidade de Cambridge, na Inglaterra, para fazer pós-doutorado em
cosmologia e teoria quântica com ninguém menos do que o físico Stephen Hawking,
dono da mesma cátedra ocupada há 300 anos por Sir Isaac Newton.
Homem de múltiplos interesses, em 1984, Myrhvold abriu uma
empresa de software, a Dynamical Systems, para produzir um editor de equações
matemáticas. Foi nesse momento que os olhos de Bill Gates recaíram sobre os
seus ombros.
O homem mais rico do mundo comprou a Dynamical Systems em
1986 e Myrhvold tornou-se o Chief Technology Officer da Microsoft, cargo que
ocupou até 2000, quando pediu as contas com um montante estimado em US$ 1
bilhão no bolso. Fez isso para abrir a Intellectual Ventures, empresa com a
qual pretende, pura e simplesmente, reinventar o modelo de negócios da
indústria de TI.
Nesta entrevista exclusiva por e-mail, Myrhvold, 48 anos,
detalha a sua estratégia de negócios e aproveita para se defender daqueles que
o atacam de ser “o homem mais temido no Vale do Silício” e “um enorme trol de
patentes”.
IDG Now!: A Intellectual Ventures é uma empresa voltada para a compra
de patentes com potencial lucrativo (alguns dizem que você já comprou mais de
3.000), assim como para o fornecimento de um ambiente propício para que
cientistas criativos possam produzir novas invenções e compartilhar os direitos
das patentes com a companhia. Poderia explicar esse modelo de negócios?
Nathan rvold: Eu saí da Microsoft e comecei a Intellectual Ventures (IV)
porque adorava a idéia de mudar o modelo de negócios para o desenvolvimento
tecnológico. Na IV, a invenção é o nosso patrimônio. Em nosso lado de inventores, fornecemos capital e expertise
assim como um venture capitalist o faria. A diferença é que fazemos isto com a
finalidade de estimular as idéias. Essencialmente, estamos fornecendo capital e
expertise a alguns dos maiores inventores do mundo para ajudar a estimular
novas idéias.
Atualmente existem cerca de 45 inventores sêniores conosco
que trabalham numa base temporária, num brainstorm de idéias que atravessa um
espectro amplo de tecnologias. Desde agosto de 2003, quando começamos de fato a
inventar, já tivemos 90 sessões de criação, resultando no pedido de quase 1.000
registros de patentes, das quais cerca de 20 já foram concedidas.
O outro lado do nosso negócio é mais parecido com o modelo
de investimento privado. Assim como os gerentes de investimento que saneiam
empresas que estão à deriva, nós trabalhamos com inventores ou invenções que
estão à deriva. O nosso approach é adquirir uma participação controladora e
gerenciar o negócio – neste caso a invenção – melhor do que o proprietário
original e para o benefício financeiro de todos que estiverem envolvidos. Neste
caso, estamos comprando as invenções e não criando nós mesmos.
Em última instância, nossas invenções irão atingir o mercado
de múltiplas formas. Em alguns casos, poderemos criar companhias cuja invenção
seja o núcleo do negócio. Noutros, poderemos licenciar a idéia para a indústria
ou partes interessadas. Poderemos ainda doar a invenção para um consócio ou um
projeto. Adotando a estratégia de formar um portfólio e combinar invenções
complementares, acreditamos que criaremos produtos interessantes para licenciamento.
IDG Now!: Em 2006, um alto executivo da HP se referiu a sua empresa na
revista Fortune como “um enorme trol de patentes”, uma alusão aos gigantes de O
Senhor dos Anéis. Há mesmo quem chame você de “o homem mais temido do Vale do
Silício”. Parece haver um temor generalizado de que a IV venha a controlar
patentes-chave da indústria, usando-as para iniciar processos milionários. Você
é mesmo este grande Lobo Mau?
NM: Existem dois elementos em questão. Primeiro,
a noção de ser um trol ou qualquer coisa que o valha. Sempre acho engraçado
quando as pessoas citam a HP por criticar a minha empresa. A HP é uma companhia
muito inovadora e eles processam outras empresas para forçá-las a pagar pelo
uso de suas patentes. Eles ganham 200 milhões de dólares por ano como receita
de licenças.
Não vejo nada de errado nisso, a HP proteger os seus assets.
Entretanto, esta é uma atitude tomada por diversas empresas de tecnologia que
parecem ter dois pesos e duas medidas. Eles acham normal proteger suas patentes
e entrar com dúzias de processos para forçar as pessoas a pagar, mas não acham
certo que outras companhias ou indivíduos os processem para proteger os seus
próprios interesses. Tais indivíduos são chamados de trols.
Se alguém que entra com um processo pelo direito de patente
é um trol, minha empresa definitivamente não se encaixa nesta descrição. A IV
nunca entrou com um processo e espero que nunca o faça.
Chegamos aqui na questão de por que a minha empresa é
temida. Não consigo imaginar porque alguém possa ter medo de mim ou da minha companhia,
entretanto penso ser verdade que, culturalmente, muitas empresas no Vale do
Silício não prestam atenção às patentes.
A razão principal para alguém temer um outro alguém que
detém uma patente é porque ele sabe que está realizando uma fraude. A atitude
reinante, há muitos anos, na indústria de TI levou a uma quantidade enorme de
infrações. Isto é apenas uma função do desenvolvimento da indústria.
É interessante notar, contudo, que se olharmos a taxa de
pedido de patentes pelas empresas de software e de internet, iremos perceber
que muitas delas estão entrando com um número enorme de patentes. Uma vez que
tenham milhares de registros, irão adorar o sistema de patentes e sairão à caça
de pagamento.
IDG Now!: Há exatos 40 anos, em 1967, os futurólogos Herman Kahn e
Anthony Wiener publicaram o livro “O Ano 2000 – Uma estrutura para especulação
sobre os próximos 33 anos”, trazendo uma lista de “100 inovações tecnológicas
muito prováveis no último terço do século XX”. Cerca de 20 tornaram-se
realidade até a virada do milênio, como a gravação e reprodução caseira de
vídeos e o uso disseminado de computadores no ambiente de trabalho. Você leu
este livro?
NM: Eu nunca li “O Ano 2000”, mas me recordo de
assistir, em 1967, a
um documentário de Walter Cronkite (o âncora do telejornal da cadeia CBS entre
1962 e 1981), que mostrava a vida no futuro com computadores pessoais. Uma
seqüência mostrava uma dona-de-casa usando na cozinha um mainframe com um
teletipo desengonçado para organizar e acessar suas receitas.
Era tudo tão ridículo que qualquer um que assistisse aquilo
ficaria convencido que jamais teríamos PCs nas nossas cozinhas. Outra coisa
engraçada era um enorme painel de controle aonde o marido podia acessar as
notícias diárias. Ao girar grandes botões ele consultava a previsão do tempo e
a imprimia – essencialmente o mesmo cenário atual, apenas que hoje isso é feito
via PC.
IDG Now!: Como imaginava o futuro na década de 60? Sonhava em ser
astronauta igual a todos os garotos da vizinhança?
NM: Sempre imaginei um mundo onde a tecnologia tinha um papel
muito mais importante do que nos anos 60. Imaginava um futuro onde
computadores, robôs e máquinas inteligentes colaborariam para tirar das pessoas
o peso de tarefas administrativas enfadonhas. Quanto a ser um astronauta, eu não
estava interessado, mas definitivamente eu queria ser um cientista. Tinha
interesse pelo espaço exterior, mas sempre pensei nos astronautas como pilotos.
Eu queria ser um passageiro.
IDG Now!: Você se doutorou em matemática e física teórica com 23 anos
e seguiu para o pós-doutorado com Stephen Hawking. Quando e por que decidiu
abandonar a vida acadêmica para virar executivo?
NM: Eu gostava de quase todas as áreas da ciência até receber o
meu PhD. Não estudei computação formalmente, e acreditava que permaneceria na
universidade. Em 1984, entretanto, iniciei um projeto de software com uns
amigos onde desenvolvemos um produto com potencial comercial. Foi através
daquela experiência que acidentalmente me percebi conversando com investidores
de risco e me envolvendo no lado empreendedor dos negócios. A partir daquele
momento, eu tinha sido fisgado.
IDG Now!: Como foi a sua experiência na Dynamical Systems e por que
decidiu vendê-la para a Microsoft em 1986?
NM: Na Dynamical Systems nós criamos um programa – um sistema
operacional – que permitia aos cientistas manipular equações num PC da mesma
forma que os editores de texto manipulam palavras. Naqueles dias, conseguir
investimento de capital de risco era difícil, daí os meus sócios e eu
decidirmos que o melhor caminho seria tentar influenciar a revolução do PC
partindo de dentro dela, ao invés de por nossa própria conta. Tínhamos razão.
IDG Now!: Em 3 de fevereiro de 1976, Bill Gates escreveu sua famosa
“Carta aberta aos hobistas”, onde alertava que o software, até então gratuito,
deveria ser pago assim como o hardware. No final dos anos 70, já estava claro
para você que a verdadeira mina de ouro estava no software, não no hardware?
NM: Sim. Frequentemente conto histórias de como nos esquecemos
de que, não faz muito tempo, o software não era considerado um negócio viável.
No início dos anos 80, o foco da indústria estava no hardware e especulava-se
muito sobre o software como negócio descolado do hardware. Eu ingressei na
Microsoft em 1986 e gastei vários anos trabalhando para convencer os líderes da
indústria de que o software poderia ser viável sem o hardware. Hoje, todo o
mundo dá isso como certo.
IDG Now!: Como Chief Technology Officer de Bill Gates e criador da
Microsoft Research, em 1990, você tinha um emprego dos sonhos – ganhava milhões
para trabalhar ao lado de pessoas extremamente inteligentes com ciência pura e
aplicada. Por que decidiu sair?
NM: Sempre tive múltiplos interesses, mas durante 13 anos peguei
um deles e o expandi até ocupar 90% do meu dia. Eu tive sucesso naquele
trabalho, mas de que adianta o sucesso se ele não compra a liberdade? Eu
desejava me envolver em áreas diferentes da ciência além da computação e
explorar outros tópicos. Assim, em 2000, oficialmente me aposentei da Microsoft
e criei minha própria companhia, a Intellectual Ventures, para trabalhar e
investir em múltiplas áreas da ciência.
IDG Now!: Você está apostando na quarta era da informação. A primeira
era foi a dos inventores solitários, a segunda foi dominada por grandes
laboratórios corporativos e a terceira onda floresceu ao redor de Palo Alto.
Nas suas próprias palavras, “o modelo do Vale do Silício foi fantástico, mas
foi levado até o seu limite. Tínhamos um monte de gente talentosa com um monte
de dinheiro perseguindo idéias idiotas”. Por quê?
NM: O modelo de venture capital foi bem-sucedido porque supriu
capital e expertise para empreendedores que antes não tinham acesso a nenhum
dos dois. Ao fornecer capital e experiência, a indústria do venture capital
liberou uma tremenda onda de empreendedorismo, que eventualmente levou à
criação de 12 mil empresas. Embora seja verdade que muitas fracassaram, as que
sobreviveram mudaram o mundo.
Os inventores de hoje não têm o mesmo acesso àquele capital
e expertise. O capital de risco é baseado na criação de uma companhia, não na
criação de uma nova invenção. Embora a invenção esteja envolvida em uma start
up, sua missão é criar uma organização e ganhar dinheiro como negócio. A parte
mais importante da invenção – a idéia inicial – precisa acontecer primeiro.
Eu acredito que exista potencial para estimular dezenas de
milhares ou milhões de novas invenções, bastando apenas que os inventores do
mundo tenham acesso à expertise e ao capital. Se pudermos criar um “Invention
Capital marketplace”, poderemos estimular um boom de novas invenções no século
21.
Uma lei não-escrita da indústria de TI diz que a empresa que
dominou uma geração da computação, como por exemplo, a IBM e seus mainframes,
jamais conseguiu transferir o seu controle para a geração seguinte. Qual
conselho você daria a Bill Gates? E qual empresa encontra-se em melhor posição
para controlar a próxima geração, o Google?
Em primeiro lugar, eu discordo desta premissa porque ela é
circular. Se você olhar os fatos e definir as eras como uma função de quem as
controla, a sua conclusão é inevitável. É claro que uma companhia sempre esteve
no controle. Dos anos 60 até os 90,
a IBM foi a empresa mais importante na computação e
detinha a maior participação de mercado em termos de mainframes. Mas a IBM não
conseguiu impedir a DEC (a Digital Equipment Corporation, que introduziu os
minicomputadores, em 1963) de obter sucesso, assim como mais tarde não conseguiu
impedir que a Intel, a Microsoft e muitas outras assumissem papéis muito
importantes no mercado.
Hoje, a IBM é uma empresa altamente bem-sucedida e muito
rentável. Os tempos mudaram e as pessoas não vêem mais a IBM como sendo
dominante, mas o fato é que o controle que eles acreditavam possuir desapareceu
e por isso são atualmente um pouco subestimados.
Você pode perceber a mesma coisa com a Microsoft. Ela é
incrivelmente poderosa sob qualquer aspecto, mas na medida em que amadureceu,
não podia continuar dobrando de tamanho nas taxas de crescimento da sua
juventude. Isso não ocorre por causa da Microsoft, mas porque esta é a natureza
do mercado.
Hoje, a empresa que está crescendo a passos largos e
conquistando montes de manchetes é o Google. Ela tem muito sucesso, entretanto
é totalmente mal-interpretado pensar que ela é dominante ou está no controle.
Certamente, ela é o meio mais proeminente de busca na web, mas não é o único.
Um melhor modo seria dizer: houve uma era quando a IBM era a empresa mais
atraente na computação. Esta atração era tanto positiva quanto negativa. O lado
negativo começou com o medo e a inveja. Atualmente, o Google é temido e
invejado.
Já a Apple foi uma das companhias mais inovadoras nos
primeiros anos (da era do PC). Hoje ela é uma empresa inovadora nas áreas de
tocadores de música digital e de celulares. Seria um erro dizer que a Apple
dominou a indústria do PC assim como eu não acredito que eles dominam os
eletrônicos de consumo. A Apple jamais atraiu tanto medo e inveja pelo fato de
ser bem-sucedida como aconteceu com a IBM e a Microsoft, ou com o Google
atualmente.
IDG Now!: Nanotecnologia, novos materiais, energia renovável,
tecnologias para limpar e preservar o meio ambiente… quais são as suas
apostas para este século 21? É possível obter lucro ao mesmo tempo em que se
salva o planeta?
NM: Eu diria que o único modo de salvar o mundo é sendo
rentável. Idéias muito boas surgem na universidade, mas para mudar o mundo, de
fato, é necessário que uma ação prática seja tomada. O melhor meio e em muitos
casos o único para financiar ações práticas é oferecer às pessoas o incentivo
do lucro. E com isso não quero dizer incentivar o lucro apenas para aqueles que
empreendem.
O mundo está diante de uma possível crise de fontes de
energia, tanto porque fontes como o petróleo se tornarão muito mais
dispendiosas, quanto pelos problemas como a mudança climática causada pelas
emissões de CO2.
Qualquer nova idéia de energia precisa de uma indústria por
trás dela. É o lucro que motiva o dono de um posto de gasolina, assim como os
executivos das refinarias e empresas de petróleo a furar um novo poço ou um
geólogo a encontrar um novo campo de petróleo. Se tivermos melhores células
solares ou outra energia renovável, surgirá igualmente uma cadeia de negócio
para fazer as coisas acontecerem. Se não houver dinheiro para ganhar, eles não
irão fazê-lo.
IDG Now!: A China se tornou a fábrica do mundo, a Índia lidera na
terceirização de serviços e a Rússia possui imensas reservas de petróleo e
recursos minerais. Você acredita que o Brasil pode se tornar tanto o celeiro do
planeta quanto o seu principal fornecedor de combustíveis renováveis? Falando
nisso, você investe em patentes de novas energias?
NM: O Brasil tem grandes possibilidades no futuro, incluindo ser
o celeiro do planeta e possivelmente o barril de etanol do mundo. Apesar disso,
acredito que a questão mais importante para o século 21 é fornecer recursos
para a população. Um povo educado e inteligente é o que está por trás de
qualquer economia sofisticada. Assim, em última instância, meu palpite é de que
o povo brasileiro será uma fonte mais lucrativa para o crescimento econômico do
que a cana-de-açúcar.
E respondendo a sua pergunta, sim, a minha empresa trabalha
com combustível alternativo e energias renováveis. Nós inclusive fizemos
algumas pesquisas sobre como melhorar a produção de etanol.