Repórter do Computerworld nos EUA passa uma semana no Second Life e mostra decepção com o que existe nesse mundo virtual em termos corporativos.
Até pouco tempo atrás, eu pensava que “Second Life”, ou “segunda vida”, era um destes lugares para onde, segundo a Bíblia, iremos depois de deixar esta vida.
Agora sei que é um lugar virtual, uma vasta coleção de elétrons em computadores espalhados pelo mundo e, mais especificamente, um estado de espírito e um local de aventura, romance, negócio e pura diversão para milhões de usuários.
Minha editora me fez ir até lá. Eu nunca teria dado maior atenção ao Second Life (SL) se ela não tivesse me pedido para escrever sobre o assunto. Eu me achava velho demais e sério demais para mergulhar em algo que eu imaginava que tinha sido criado para pessoas de vinte e poucos anos em busca de sexo virtual.
Eu tinha dois temores. O primeiro era que no SL seria convencida a revelar – talvez até inventar – segredos sobre mim mesmo que poderiam escandalizar meus vizinhos, colocar meu casamento em risco e me custar o emprego.
Meu segundo temor era que a experiência me absorvesse totalmente. Já estou à beira do vício em relação a e-mail e navegação na web e não queria ficar até as 3 da madrugada percorrendo o ciberespaço com meu avatar (psersonagem).
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Então fiz aquela clássica pergunta para a editora: onde a visão de TI corporativa se encaixa nisso? Não seria melhor escrever uma história do tipo “Como substituir o Windows pelo Linux em mil servidores sem esforço” ou “As 10 principais maneiras de classificar um arquivo VSAM”?
Ao que a editora replicou: se Bill Gates e outros participaram de respeitáveis conferências sobre TI via Second Life e a HP realizou entrevistas de emprego em seus escritórios virtuais, é porque lá tem alguma coisa. Faça a matéria e depois cuidamos da visão.
SEGUNDA-FEIRA: Nível Um
E eu fiz. Antes, li um pouco para me informar. Descobri que existe sexo virtual no SL, sim, mas não é o principal para a maioria dos usuários. E fiquei chocado quando descobri que você pode – e é o que muita gente faz – gastar dinheiro de verdade no SL.
Quando entrei em Secondlife.com, a tipologia usada era tão pequena que não consegui ler sem ampliar duas vezes no Firefox. Portanto, ele foi projetado para a turma dos vinte e poucos anos, afinal de contas!
Cadastrei-me e baixei o software cliente. Não quis usar meu cartão de crédito não virtual para comprar a moeda virtual, batizada de “dólar Linden” por causa da criadora do SL, a Linden Research Inc., e também não quis comprar fone de ouvido e microfone, necessários para conversar com os habitantes em vez de digitar.
Deparei-me com uma lista bastante longa de sobrenomes para escolher. Depois você pode escolher qualquer nome. Passei a me chamar Icon Silverspar. Deram-me um avatar simples, baseado em sexo (masculino), mas, pelo visto, todo mundo – menos eu – muda de avatar.
Os principiantes têm que fazer quatro exercícios tutoriais simples em um lugar chamado Ilha de Orientação. Bem, três eram simples e um era impossível. Fui obrigada a telefonar para um colega pedindo ajuda, o que odiei ter que fazer.
Perdi muito tempo nesta etapa inicial e foi bastante frustrante – o mesmo que tentar fazer o Microsoft Word parar de auto-formatar irritantemente.
Mas, mesmo neste estágio inicial, tive minha primeira experiência emocional no mundo virtual. O avatar asiático feminino jovem de uma mulher que se disse chinesa apareceu para dar um oi. Trocamos algumas amabilidades até que meu telefone (real) tocou. Quando voltei para o PC, cinco minutos depois, ela havia gritado com visível frustração: “Fala comigo, por favor!” Pedi desculpas sinceras, mas ela já tinha ido embora.
Sem querer, desrespeitei a simpática mulher – pelo menos eu acho que era uma mulher – e me senti mal com isso. Mas serviu para me lembrar de uma coisa que eu acho que sabia, mas não tinha pensado mais a fundo: por trás dos avatares bidimensionais existem seres humanos de verdade.
TERÇA-FEIRA: Nível 1.01
Meu colega não conseguiu me ajudar no tutorial. “A interface com o usuário do Second Life às vezes me irrita”, ele explicou, o que não me surpreendeu. E me aconselhou a seguir em frente. Decidi parar de me esforçar tanto para aprender a fazer tudo e simplesmente conversar com as pessoas. Talvez elas pudessem me ensinar.
Passei facilmente da Ilha da Orientação para a Help Island, onde não encontrei ajuda e de onde não podia fugir. Conheci uma principiante e perguntei se ela sabia como eu poderia ir para um lugar mais interessante – uma cidade grande, por exemplo.
Ela havia lido em algum lugar que os principiantes tinham que esperar que alguém os recepcionasse e tirasse da ilha. Ela estava à espera desse alguém e me chamou para esperarmos juntos, mas nada aconteceu. Desliguei o computador e, imediatamente, encomendei “A Beginner’s Guide to Second Life” na Amazon.com e paguei um extra para receber em um dia.
QUARTA-FEIRA: Aprendizado
Um conselho aos leitores: comprem um livro sobre SL ou tenham algumas aulas com um usuário experiente. Com a ajuda do livro e muita persistência, guiei penosamente (e com alguma diversão, devo admitir) meu avatar na curva de aprendizado. Aprendi a ir de um lugar para outro (sim, você pode voar no SL), mudar de aparência (a maioria dos habitantes do SL, tanto homens quanto mulheres, é jovem e linda), procurar coisas, ler mapas e assim por diante.
Porém, depois de dominar o básico e superar grande parte da minha frustração inicial, algumas perguntas importantes passaram para o primeiro plano: por que estou aqui e o que vou fazer aqui? O que é “sucesso” ou “felicidade” no SL para mim e como alcançá-los?
Sabendo que a editora me perguntaria sobre aplicações de TI práticas, procurei uma ilha virtual da IBM. Para ter uma idéia de como este lugar é empolgante, imagine um “IBMer” dos anos 50 usando camisa branca engomada e gravata, com uma placa onde se lê “PENSE” pendurada na parede.
Entrei em um auditório grande e redondo chamado IBM Theatre I. Todas as cadeiras estavam vazias e o palco estava vazio, exceto por um grande quadro branco com alguns tópicos sobre tecnologia mais ou menos interessantes, cada tópico seguido por um endereço web comum.
O problema era que os endereços estavam inativos. Quando cliquei neles, nada aconteceu. Um conselho aos fornecedores: se vocês pretende participar deste jogo, certifique-se de que funciona.
Consegui entrar em uma loja Sears, onde encontrei imagens toscas de utensílios. Cliquei nelas e fui até o web site normal da Sears. Uau! Também consegui obter e salvar um “cartão” com especificações de produtos escritas em texto puro. Duas vezes uau! Não vi nenhum outro visitante nos sites da IBM ou da Sears.
QUINTA-FEIRA: Deja Vu
Enquanto inicializava, lembrei que em 1987 comprei o pioneiro game para PC King’s Quest para minha filha. Ele rodava em DOS e, é claro, meu PC não tinha mouse, por isso éramos obrigados a pilotar Sir Graham com tapinhas entediantes e desajeitados nas quatro teclas de setas. Agora, 20 anos depois, o SL não é muito melhor. As imagens ainda são toscas e sem contraste e as teclas de setas não estão mais fáceis de usar.
Isso tem um motivo. Atualmente há dezenas de milhares de usuários no SL em qualquer hora e os servidores da Linden fornecem uma visão dinâmica e exclusiva para cada um. (Embora parte venha do software cliente local e das imagens.)
A renderização de imagens 3D realistas em tempo real demanda muita computação e largura de banda, mais do que temos o direito de esperar do SL. O download das cenas é penosamente lento, em geral mais de um minuto no meu PC, um modelo dual-core high-end que tem 3GB de memória e está conectado à internet a 15Mbps. Fiquei preocupado com a vida útil do meu disco, que fez pequenos ruídos incessantes no I/O sempre que eu estava ativo.
SEXTA-FEIRA: À procura de comércio
Voltei à ilha principal da IBM determinado a encontrar um IBMer que pudesse responder algumas perguntas. Não encontrei tal pessoa, mas bati um longo papo com um lobo bem-vestido que disse que era de FurNation. Ele só estava lá para usar a “caixa de areia” pública, fornecida pela IBM, para criar coisas.
No SL existem muitas caixas de areia onde os habitantes podem desarrumar as coisas em seus “estoques” e montá-las para formar objetos úteis, como mobília, veículos ou acessórios da moda.
Eu disse que estava tentando descobrir se as empresas no SL ganhavam dinheiro.
Ele explicou que empresas virtuais ganham dinheiro de verdade “vendendo avatares de pele, apetrechos sexuais, armas e coisas do gênero”, enquanto empresas reais como a IBM só anunciam e recrutam. O lobo não parecia estar procurando emprego na IBM, mas agradeceu à IBM por fornecer a caixa de areia. Perguntei se podia fotografá-lo na frente dela, mas ele não deixou.
Ainda aflito com a largura de banda, me dirigi ao Campus Virtual da Cisco e entrei no Centro de Treinamento. Uma placa indicava que ele era de uso exclusivo de parceiros e funcionários da Cisco, o que me faz perguntar por que está na internet pública e não em uma intranet da Cisco.
Não encontrei nenhum parceiro ou funcionário em nenhuma das salas de treinamento, nem livros, computadores ou qualquer material de treinamento. Nunca antes me pareceu tão cabível perguntar se existia realmente existia alguma coisa lá.
SÁBADO: Em Busca de Romance
Não posso dar todos os detalhes. Basta dizer que eu tinha duas opções. Poderia ir a um lugar mais ou menos respeitável, abordar algumas mulheres de aparência mais ou menos respeitável e cortejá-las. Fiz isso. Algumas se afastaram e outras conversaram educadamente e depois foram embora.
O problema, acho eu, foi não ter me dedicado a melhorar minha aparência e ainda parecer um desinteressante novato – sem tatuagens, jóias, músculos e roupas que deixam o corpo definido e impressionam.
A outra opção era ir a locais vulgares devotados a orgias e aderir. Não fiz isso. Tudo bem, fui a alguns deles, mas não aderi.. Afinal, não teria sido “romance”, teria?
DOMINGO: Reflexão
Dizer que experimentei tudo no SL seria quase tão absurdo quanto dizer que experimentei tudo na minha primeira vida. Os leitores com experiência em SL vão argumentar que se eu tivesse feito isso ou tentado aquilo, ou entrado em tal e tal grupo, teria visto a magia deste mundo virtual – que, afinal, atraiu 10 milhões de usuários registrados. Talvez.
Mas só posso relatar minha decepção quando me deparei com eles, vistos por uma pessoa real durante uma breve estada em um mundo virtual. A interface com o usuário é lenta e primitiva, pelo menos em comparação ao que está disponível nos melhores games para computador de hoje.
As imagens são chapadas, quase sem nuance, e os downloads das imagens exigem uma paciência de Jó. Mas talvez minha maior decepção, já que escrevo para gerentes de TI corporativos, é que a presença corporativa no SL é experimental e rudimentar, inferior, em muitos aspectos, aos próprios web sites das empresas.
Para ser justo, a maioria destas empresas está fazendo experiências e suas ilhas no SL são um trabalho embrionário. Mas agora vou dizer a estas empresas o que elas precisam fazer para poderem comprar muitos dólares Linden com os dólares de verdade que economizam em grupos de discussão.
As instalações de cada grande empresa no Second Life deveriam ter uma pessoa de carne e osso, pelo menos durante o expediente comercial. Se algum avatar cordial e charmoso no centro da Cisco tivesse se aproximado de mim, perguntado “Em que posso ajudá-lo, senhor?” e dado respostas úteis para as perguntas que digitei sobre treinamento, oportunidades de emprego ou produtos, eu teria caído da cadeira de tanto espanto e felicidade.
Sim, sei que custaria um bom dinheiro. Uma ou mais pessoas de verdade teriam que ser pagas em dólares de verdade. Mas se uma empresa não pode tornar sua experiência virtual substancialmente melhor do que os recursos web que possui, então nem dever dar-se ao trabalho.
Meu amigo lobo não vai comprar um equipamento IBM porque o viu pela janela enquanto brincava na caixa de areia da empresa. A ilha IBM tem que ser um destino procurado deliberadamente por pessoas que têm algum interesse na IBM e sabem que terão uma experiência virtual realmente interessante quando estiverem sendo tratados como um ser humano real por um ser humano real.
Voltarei ao Second Life? Provavelmente, algum dia. Mas antes tenho algumas matérias para terminar.