A evolução e consolidação do Crowdsourcing, da open innovation e da inteligência coletiva passa pela chamada geração de nativos digitais
Temas como “inteligência emergente” (Steven Johnson), “coletivos inteligentes” (Howard Rheingold), “cérebro global” (Francis Heylighen), “sociedade da mente” (Marvin Minsk), “inteligência conectiva” (Derrick de Kerckhove), “redes inteligentes” (Albert Barabasi), “inteligência coletiva” (Pierre Lévy), “Geração Net” (Don Tapscott) e “Crowdsourcing” (Jeff Howe) são cada vez mais recorrentes entre teóricos reconhecidos, como bem lembra Rogério da Costa. “Todos eles apontam para uma mesma situação: estamos em rede, interconectados com um número cada vez maior de pontos e com uma frequência que só faz crescer. A partir disso, torna-se claro que podemos hoje compreender muito melhor a atividade de uma coletividade, a forma como comportamentos e ideias se propagam, o modo como notícias afluem de um ponto a outro do planeta”.
Muitos autores, contudo, têm alertado para a perspectiva pela qual as redes devem ser vistas. Kathy Sierra, por exemplo, diz que “arte não é produzida por comitê, grandes designs não são fruto de consenso e a verdadeira sabedoria não é capturada de uma massa de pessoas” e sintetiza sua posição de forma brilhante: inteligência coletiva é colher contribuições e idéias de muitas pessoas diferentes e muitas perspectivas diferentes o que é totalmente diverso de, simplesmente, tirar a média das contribuições de muitas pessoas diferentes e esperar que surja uma inovação “disruptiva”. Não se deve pensar que o grupo é mais “inteligente” que as pessoas que o compõem quando elas trabalham juntas para produzir um resultado como grupo, mas, sim, no poder que o grupo tem como fator de agregação de conhecimentos individuais produzindo resultados inatingíveis pelo indivíduo isolado.
De acordo com esse conceito “Open Innovation”, conforme Henry Chesbrough em 2003, as organizações combinam fontes de conhecimento interno e externo no processo de inovação, tanto para o desenvolvimento de um novo produto ou serviço, como na melhoria dos processos de produção e na criação de novos modelos de negócios. A Web 2.0 possibilitou a consolidação da Open Innovation, através de um método efetivo de inovação, onde a colaboração e o acesso coletivo a informação eliminaram os silos isolados de conhecimento e aproximaram fontes até então inacessíveis de especialistas e produtores de conhecimento. No caso do Crowdsourcing (Jeff Howe, em 2006) o conhecimento e a criatividade são compartilhados de forma plena pela coletividade, através de contribuições inovadoras e que são recompensadas pelo sucesso dessa colaboração coletiva.
O envolvimento das massas, multidões nas discussões dos problemas, busca de soluções e desenvolvimento de novos produtos levam a muitas vantagens, considerando que a participação de especialistas e usuários de diferentes áreas e setores do conhecimento possibilita a entrega de soluções de baixa complexidade e baixos custos. O Crowdsourcing possibilita as organizações um olhar além das soluções obvias, como a personalização em nichos específicos, sustentada pelo modelo econômico da “Cauda Longa” de Chris Anderson, onde uma diversidade de produtos são comercializados em pequenas quantidades e suportados por um modelo otimizado de “supply chain”.
Jeff Howe, em “Crowdsourcing – How the Power of The Crowd is Driving The Future of Business”, mostra o caminho de como a inteligência coletiva e o poder das massas podem transformar os negócios, através do seguinte “road map”:
1 – Escolha do modelo de Crowd correto: sabedoria coletiva, criação coletiva, votação coletiva (como a Cisco, IBM, Dell, Threadless.com, Nitendo)
2 – Escolha o Crowd correto (como a InnoCentive)
3 – Ofereça os incentivos necessários à comunidade
4 – Tenha cuidado com a oferta para o Crowd
5 – Exercite o princípio do ditador benevolente: liderança baseada na direção e condução da comunidade (Wikipedia)
6 – Mantenha simples e modular: produção coletiva de pequenos módulos que depois serão integrados (iStockphoto, Threadless.com, Wikipedia)
7 – Lembre-se da lei de Sturgeon: 90% de tudo que é produzido pode ser descartado
8 – Lembre-se dos 10%, o antídoto da lei de Sturgeon
9 – A comunidade está sempre certa
10 – Não pergunte o que a Crowd pode fazer por você e sim o que você pode fazer para o Crowd (individuo pelo coletivo).
No livro “Winsdom of Crowds”, James Surowiecki, esclarece que a diversidade de opinião, independência entre os membros, descentralização e um bom método para agregação das opiniões, caracterizam o oceano azul dos “Crowds”, pois possibilitam que a inteligência coletiva produza um conhecimento acima do que um pequeno grupo de especialistas pode entregar.
O modelo FLIRT de Crowdsourcing (Sami Viitamäki) é formado por Criadores, Críticos, Conectores & Crowds e “debutes”, que veem o fenômeno a partir de uma perspectiva da empresa em considerar a colaboração intensa com clientes coletivos e identificar os diferentes atores, bem como o papel no processo de criação. O modelo é representado por um anel que mostra a ação desejada na comunidade.
A evolução e consolidação do Crowdsourcing, da open innovation e da inteligência coletiva passa pela chamada geração de nativos digitais (Geração Net), que são nascidos após 1988 e têm como princípios básicos a liberdade de expressão, a personalização, a integridade corporativa, desejo pela opinião, colaboração, entretenimento, velocidade de decisão e a inovação, conforme Don Tapscott em seu livro Grow Up Digital (2009). Eles olham para a tecnologia como uma forma de satisfazer todos os cinco níveis da hierarquia das necessidades de Maslow, onde estar conectado a Web será mandatório para satisfazer os níveis mais baixos da pirâmide, como o acesso aos serviços públicos e qualidade nas decisões de compra.
Considerando que a Geração Net entrará no mercado de Trabalho em 2018, as empresas devem repensar as suas estruturas organizacionais, a forma de relacionamento com seus colaboradores, fornecedores e atender as demandas culturais e sociais dos Talentos 2.0, conforme a seguir:
– Organizar o sistema de trabalho de acordo com as oito normas da Geração Net
– Repensar a autoridade e a liderança (coach, mentor, mediador, facilitador)
– Repensar o recrutamento através das redes de relacionamento
– Repensar o treinamento através do engajamento no “lifelong learning”
– Não proibir o Facebook ou outras redes sociais (Wikis, Blogs, Redes Sociais Networks, Jam, Telepresenças, Tags, Filtros Colaborativos e os Feeds RSS), pois serão o centro de um ambiente de alto desempenho.
– Repensar a retenção, envolvendo os últimos relacionamentos (alumni networks)
– Poder do capital da Geração Net na organização (ouvir os Net Gen para os espaços, processos, sistemas de gerenciamento e modelos de colaboração no trabalho).
A Web 2.0, conceito propagado desde 2004, vai além do que uma simples arquitetura de tecnologias, pois impacta as dimensões sociais, culturais, econômicas e dos modelos de negócios. As tecnologias de rede que compõem a Web 2.0 são baseadas na participação, usabilidade, economia, design, padronização, capacidade de integração, convergência de mídias e configuram-se com a plataforma ideal para o sucesso das iniciativas de inteligência coletiva, open innovation e crowdsourcing.
A inovação e a colaboração contínua na Web 2.0 são suportadas por redes de relacionamento, ambientes colaborativos, tags sociais, feeds de conteúdos, busca de pessoas, gerenciamento da reputação, alertas e classificação de conteúdos, principalmente para os consumidores, a chamada “consumerization”. A própria evolução para a Web 3.0 (Web semântica) e para Web 4.0 (Web imersiva) estão sendo construídas através de tecnologias como “Cloud Computing”, “SaaS” e as “Enterprises Mashups”, que levam ao conceito da empresa sem limites, suportadas pela produção coletiva e dispersa de conhecimento. Empresas como Microsoft, IBM, Google e HP estão se posicionando na liderança tecnológica desse movimento.
Portanto, nesse cenário, onde a inteligência coletiva irá predominar e a Geração Net será a condutora desse movimento, o papel do CIO vai muito além da simples observação do fenômeno ou do desenvolvimento, implantação e suporte da infraestrutura. O CIO deve posicionar-se como o “evangelizador”, facilitador e integrador das diversas culturas, demandas e gerações de executivos, através da gestão do processo de mudança organizacional e da implantação das tecnologias colaborativas emergentes. Conforme o estudo “Os tipos de CIOs do Futuro” realizado por Peter Weill do MIT CISR em 2008, que classifica os CIOs conforme o tipo de entrega, ou seja, com foco nos serviços, integrados aos negócios (“Embedded”), no cliente externo e nos processos de negócios, aquele que mais se aproxima do movimento de crowdsourcing, open innovation, das redes colaborativas e tecnologias Web 2.0 é o CIO integrado aos negócios, cuja competências e habilidades são direcionadas ao alinhamento estratégico, a entrega dos processos otimizados de negócios, da inovação contínua e do relacionamento constante com executivos das áreas de negócio. Mas o caminho ainda é longo, pois conforme os resultados do estudo, o perfil predominante no mercado é o CIO voltado a serviços (50%), seguido do CIO Integrado aos negócios (30%) e os demais tipos com 10% cada. E você CIO, qual é a sua estratégia de posicionamento nesse cenário de predominância da inteligência coletiva?
Fonte: O artigo foi extraído do Projeto Final do autor, no curso Pós-MBA da FIA/USP, com o tema: Inteligência Coletiva e a Colaboração na inovação e gestão dos negócios.
*Nivaldo Marcusso é CIO da Fundação Bradesco, membro do Programa Wharton Fellow, certificado em estratégia e inovação pela MIT Sloan e Pós-MBA pela FIA/USP. O executivo escreveu com exclusividade à InformationWeek Brasil e ao IT Web.
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