O Itaú Unibanco anunciou nesta terça-feira (25) a ampliação da Inteligência de Investimentos Itaú para 100 mil clientes. A solução, que funciona como um assessor digital capaz de indicar alocações, explicar produtos e simular cenários em linguagem natural, começou em um piloto de 10 mil clientes, mas agora atinge uma nova fase de expansão. A intenção é disponibilizá-la a toda a base ao longo dos próximos meses, embora o banco ainda não tenha divulgado datas específicas.
Segundo Cadu Mazzei, diretor de tecnologia do Itaú, o objetivo é aumentar a autonomia do investidor e simplificar decisões financeiras que, historicamente, exigiam leitura de relatórios ou interação com especialistas. “Queremos tornar a vida do investidor mais simples. Hoje, temos 97% de acurácia nas respostas, isso significa entregar recomendações muito mais alinhadas ao perfil e ao contexto financeiro de cada cliente”, explicou.
A expansão foi apresentada em encontro com jornalistas em São Paulo, que, além do anúncio, trouxe uma visão ampla sobre o futuro da IA, tendências globais e o posicionamento do Itaú frente ao avanço acelerado das tecnologias generativas.
750 iniciativas de IA generativa; 140 já usadas diariamente
O Itaú Unibanco vem acelerando o uso de inteligência artificial em suas operações. A plataforma de IA generativa da instituição, a Inteligência Itaú, já reúne cerca de 750 iniciativas, das quais 140 são utilizadas diariamente em tarefas que vão do atendimento à execução de transações, passando por crédito, análise de risco, prevenção a fraudes e suporte a pequenos empreendedores
No foco voltado ao cliente, três soluções formam o núcleo atual da plataforma: o Pix no WhatsApp, que permite realizar transferências diretamente pelo aplicativo e torna a operação até 20 segundos mais rápida, com índice de retorno de 90% dos usuários; a Inteligência de Investimentos Itaú, capaz de cruzar o perfil e os objetivos do investidor com um portfólio superior a 5 mil produtos; e o Itaú Emps, um assistente multiagente desenvolvido para apoiar autônomos e pequenas empresas na gestão financeira do dia a dia.
Todas as iniciativas se apoiam em uma infraestrutura modernizada nos últimos anos, baseada em nuvem privada, dados estruturados em arquitetura Data Mesh, camadas reforçadas de segurança e um design orientado à clareza e à acessibilidade.
Discussão sobre o futuro da tecnologia
O workshop também abriu espaço para discussões sobre o futuro das interfaces digitais e o papel da IA na interação humano-máquina. Um dos pontos de destaque foi a apresentação de resultados recentes de pesquisas da Universidade Stanford, acompanhadas de perto pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi).
Um dos destaques foi um trabalho sobre “fala silenciosa”, uma tecnologia capaz de interpretar sinais musculares e elétricos mesmo sem a emissão de som. A solução teria potencial, por exemplo, de promover mais inclusão. Os resultados mostraram reduções expressivas na taxa de erro: de 28,8% para 12,2% em ambientes de fala silenciosa; de 23,3% para 3,7% quando a vocalização é captada por sensores musculares.
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O Itaú tem acompanhado esses avanços para entender como eles podem transformar a experiência digital, especialmente em aplicações acessíveis. Como observou Rogério Lopes, pesquisador do ICTi, o setor financeiro tende a migrar para interfaces menos dependentes do teclado e mais baseadas em resultados visuais, áudio, toque e interações multimodais.
Outra frente discutida durante o workshop foi o avanço das interfaces generativas, capazes de criar telas, fluxos e explicações visuais automaticamente, funcionando como complemento ao chat tradicional. Estudos apresentados mostraram que 72% dos usuários preferem opções multimodais quando precisam executar tarefas complexas. Em tarefas simples, o chat ainda é a opção mais rápida e preferida. O ideal, diz o banco, não é substituir, mas oferecer múltiplas formas de interação, escolhidas conforme contexto e necessidade.
IA responsável: vieses, privacidade e guardrails
Embora os avanços animem o setor, o diretor de tecnologia do Itaú reforçou que o entusiasmo precisa vir acompanhado de cautela. Durante sua apresentação, Mazzei citou uma pesquisa conduzida pela BBC para avaliar o desempenho de modelos de IA ao resumir conteúdo jornalístico, a fim de exemplificar na prática usando a realidade da imprensa, que estava presente no evento.
Os resultados do estudo chamam atenção: 51% das respostas apresentavam algum tipo de imprecisão, 19% continham erros factuais e 13% alteravam citações ou dados das reportagens originais. No setor financeiro, onde decisões sensíveis dependem de precisão absoluta, esse nível de falha é considerado crítico. Para o setor financeiro, esse nível de falha é crítico. Por isso, o banco estruturou duas frentes inteiramente dedicadas à mitigação de riscos.
A primeira é a RAI Itaú, área responsável pelas políticas de IA responsável. O grupo reúne profissionais de formações diversas, incluindo advogados, linguistas, antropólogos e engenheiros, que testam, monitoram e calibram os modelos para reduzir vieses, inconsistências e respostas inadequadas.
A segunda frente é o HAX Itaú, núcleo que define diretrizes de experiência do cliente para aplicações de IA. É essa equipe que estabelece quando é mais adequado usar chat, áudio ou interfaces guiadas, e como evitar fricção, opacidade ou ambiguidade nas interações, garantindo clareza e previsibilidade para o usuário.
Mazzei mostrou exemplos reais de respostas enviesadas geradas por modelos genéricos, como orientações baseadas em estereótipos de gênero, explicando como o Itaú constrói filtros e guardrails para impedir esse tipo de comportamento.
Método, dados, design e IA
O banco destacou ainda que a adoção de IA generativa só ganhou tração porque veio precedida por um trabalho consistente de transformação em seis pilares. O primeiro é Método, baseado em uma cultura de experimentação e validação rápida. Em Tecnologia, o foco esteve na modernização da infraestrutura e dos modelos de entrega. Em Dados, a instituição avançou na governança e na adoção de uma arquitetura orientada a Data Mesh. O pilar de Design colocou a experiência como disciplina central do desenvolvimento. Em Produtos, o objetivo passou a ser resolver dores reais dos usuários. E, por fim, a camada de IA entrou como aceleradora de eficiência, personalização e precisão.
Para Mazzei, a maior barreira para a implementação de inteligência artificial não é técnica, mas cultural. “Transformação digital sempre foi sobre pessoas. A prontidão em incorporar novas tecnologias é o que define o ritmo da mudança”, afirmou.
A expansão da Inteligência de Investimentos para um universo de 100 mil clientes representa um marco importante na estratégia do Itaú para IA. Ainda assim, o horizonte do banco é mais amplo: combinar tecnologia de ponta com segurança, ética e clareza para construir experiências financeiras mais eficientes e menos complexas.
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